Na semana passada o Espalha-Factos esteve no Teatro Sá da Bandeira para assistir à comédia Mais respeito que sou tua mãe!. A peça que assinala os 30 anos de carreira de Joaquim Monchique já foi vista por mais de 65 mil pessoas e continua a conquistar o público português.

O elenco de luxo conta com Joaquim Monchique, Luís Mascarenhas, Joel Branco, Tiago Aldeia, Rita Tristão da Silva, Sofia Arruda, Rui Andrade, Diogo Mesquita, Bruna Andrade e Leonor Biscaia.

O texto é de Hernán Casciari e a encenação e adaptação de Joaquim Monchique.

Silêncio que o espetáculo vai começar

As portas abrem pouco depois das nove e, aos poucos, a sala do Teatro Sá da Bandeira começa a encher. Crianças e pais de mão dada, avós, grupos de amigos e casais de namorados ocupam os lugares da plateia. “Chegámos! Missão cumprida!”, ouvimos comentar um casal que chega mesmo na altura certa.

À hora da peça ainda estão pessoas a entrar na sala e o espetáculo atrasa uns minutos. As cortinas mantêm-se fechadas e o público fica curioso. Pouco depois, as luzes desligam e é então que o silêncio impera na sala.

Quando as cortinas se abrem finalmente, observa-se o interior de uma casa humilde e tipicamente portuguesa. Uma cozinha, uma mesa de jantar, uma poltrona, uma televisão, um estendal e um cachecol do Benfica saltam à vista. As paredes são amarelas e o cenário não podia ter mais cor.

Joaquim Monchique é o primeiro a entrar em cena, ao som da música Mãe Querida, que se mistura com os aplausos do público. No papel de Esmeralda Bartolomeu, o protagonista pede para se desligarem os telemóveis com muito humor à mistura.

Durante duas horas, Esmeralda conta ao público as aventuras e peripécias de uma família disfuncional que vive na Baixa da Banheira, em plena crise económica. Com o marido desempregado, um sogro desestabilizador e três filhos que enfrentam problemas na adolescência, é Esmeralda que assume o papel de matriarca.

A família Bartolomeu

O espetáculo começa com Esmeralda a queixar-se por ter de pagar uma multa do filho Cajé. Este é o mote para uma conversa intimista com o público que só tem fim duas horas depois. É como se de um desabafo se tratasse. De uma mulher, mãe e dona de casa.

Esmeralda conta então que é casada com Zacarias há 25 anos e que tem três filhos: Rafael, Carlos José e Elisabete Sofia.

Rafael, o filho mais velho, vive sozinho mas almoça e janta sempre com a família. “É o único que foi à faculdade, que usa camisa dentro das calças, que nunca me levantou a mão e que troca de cuecas todos os dias”, conta a matriarca.

Carlos José, também conhecido como Cajé, não trabalha e consome droga. É uma dor de cabeça para os pais, mas não para o avô que alinha em todas as asneiras do neto.

Elisabete tem 17 anos e descobre agora a sexualidade. Ao recolher a roupa para passar a ferro, Esmeralda fica incrédula ao reparar que a filha colocou renda nas cuecas. Ao que parece, anda a conhecer Manilhas, o filho do homem do talho.

Com humor e muitas peripécias

Com cenas curtas, a comédia adota um ritmo alucinante. Não há momentos mortos e, por isso, o público é cativado do início ao fim.

Rafael fala com a mãe ao telemóvel, ela diz-lhe que vai fazer empadão ao jantar, a sua comida preferida.

No entanto, quando Rafael pensa ter desligado a chamada, a mãe ouve-o a falar com o namorado e descobre que o filho é gay. “Em vez de empadão não preferes iscas?”, intervém. O público ri sem parar.

Esmeralda diz-nos, depois, que já comprou a webcam para a filha mostrar as “maminhas” na internet, como esta lhe havia pedido. Orgulhosa com o trabalho de Elisabete, a mãe imita-a numa dança sensual para o público que Zacarias depressa interrompe e põe fim. Sem dúvida, outro dos momentos mais hilariantes do espetáculo.

Por esta altura, as gargalhadas das crianças já se misturam com as dos adultos e a dor de barriga é difícil de suportar.

Rir é o melhor remédio

As cenas sucedem-se e não deixam o Sá da Bandeira sossegar nem por um segundo. O público é bombardeado com tanta informação ao mesmo tempo não consegue parar de rir.

No entanto, em cima deste palco não existe apenas lugar para a comédia. Através dela é passada uma mensagem, um alerta e uma esperança para aqueles que, afinal de contas, confrontam estes problemas dentro das suas casas.

Entre um filho toxicodependente, uma adolescente exposta aos perigos da internet e um pai com dificuldades em aceitar a homossexualidade daquele que era o filho ‘bem comportado’, Esmeralda mostra-nos que ser mãe, mulher e dona de casa não é fácil, mas que tudo tem uma solução e que, muitas vezes, ela está onde menos se espera.

“O que importa é que estamos todos juntos e todos bem”

A dada altura, Zacarias pede à mulher para deixar de falar com gente que não conhece de lado nenhum. Refere-se, claro, ao público, com quem Esmeralda falou toda a peça. A audiência sente esta atenção e sabe que é parte integrante do espetáculo.

A comédia foge-nos a uma velocidade estonteante e a vontade de clicar no repeat é muita. Mais respeito que sou tua mãe! eleva as mães à categoria de heroínas e faz-nos refletir sobre a admiração, respeito e gratidão que devemos nutrir por elas.

Um momento musical

No final do espetáculo Rui Andrade, no papel de Rafael, canta de forma doce e comovente. A voz inconfundível do ator não deixa ninguém indiferente.

Os atores começam a surgir em palco um a um. O público levanta-se e não descansa enquanto não aplaude de pé todo o elenco. As cortinas fecham minutos depois.

A plateia abandona a sala devagar. Sabe a pouco e apetece adiar a despedida. Mas esta parte, sem dúvida, orgulhosa do talento português. Na saída do Sá da Bandeira, ouve-se “ele [Joaquim Monchique] consegue fazer tudo“. Mais uma vez, o actor não desilude.

Onde podes ver

Mais respeito que sou tua mãe! é um espetáculo para toda a família, mas, sobretudo, uma homenagem às mães.

A peça vai estar em cena no Teatro Sá da Bandeira de 14 de setembro a 22 de outubro. De quinta-feira a sábado o espetáculo começa às 21h30 e aos domingos tem hora marcada para as 16h30.

Os bilhetes encontram-se à venda nos locais habituais e o preço varia entre os 8 e os 20 euros.

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