Rupi Kaur é uma poetisa feminista de apenas 24 anos, mas que, em poucos meses, já vendeu mais de meio milhão de cópias do seu livro de estreia – leite e mel

Nascida na Índia, mas criada no Canadá, começou por se destacar no Instagram, onde publicava excertos e passagens do seu trabalho poético.

Enquanto isso, contava aos pais (altamente) conservadores que o curso de Direito que supostamente frequentava seguia de vento em popa. Tudo, para ao fim de alguns meses, dar voz à condição feminina e escrever o livro que todas as mulheres poderiam ter escrito.

A sua obra leite e mel fala sobre a dor, o amor, a separação e a cura. E nas entrelinhas é um livro sobre ser mulher no século XXI.

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Foto: página oficial de Rupi Kaur

Quando o azedo do leite encontra o doce do mel

Rupi tem mais de 1 milhão e meio de seguidores na sua conta de Instagram.

Bem conhecida do público digital, e sentindo o carinho dos seus seguidores, Kaur escreveu o seu primeiro livro, leite e melpublicado em Portugal pela lua de papel.

A primeira particularidade a reparar neste exemplar é seu o acabamento irrepreensível – capa dura, preta, com imagens, em relevo cor de prata, de pequenas abelhas. A estética da capa denuncia o tom minimal que pontua leite e mel

Visualmente, alguns dos poemas são também acompanhados de pequenas ilustrações da autoria da poetisa e que embelezam a dureza das palavras.

No fundo, este livro começa logo por se destacar pela sua preocupação com a estética, num embrulho das letras e da poesia, apimentado por pequenos ensaios visuais.

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Foto: página de ‘leite e mel’

A dor e o amor, a separação e a cura

A obra está dividida em quatro cenas de um processo (ou de vários), que culminam no desabrochar de uma figura feminina que assume as rédeas das palavras.

Numa primeira fase, a dor. Esta primeira secção tem um cariz absolutamente sexual, mas apresenta-se como um retrato do papel da mulher enquanto escrava e refém do prazer de outrem. Aqui, o abuso sexual e a mulher enquanto uma “área de serviço para homens” vem a levantar o véu de uma realidade perturbadora da sexualidade feminina.

A autora inspirou-se em memórias de amigas e familiares na construção deste primeiro acto. Uma história de medo, de roubos, de vazios e de escravidão vividos por uma mulher arquétipo, que no fundo, somos todas nós.

“ela era uma rosa
nas mãos de quem
não tinha qualquer intenção
de cuidar dela”

Depois, o amor. Nesta segunda cena, desenrola-se o amor que faz todos os outros e impossibilita os seguintes. Um amor ‘shakespeariano’, um amor de amantes e um amor que destrói.

Curiosamente, é o capítulo mais pequeno e mais fugaz, mas é também o mais passional e primário.

“o meu nome soa tão bem
quando te beijo na boca”

Da intensidade de um amor avassalador às páginas que se seguem onde é feito um canto à separação. Páginas de dor, de lágrimas, de indisposição e altamente viscerais. Mas são, no fundo, um longo, amargo e moroso processo até ao restabelecimento e à valorização.

“sou um museu cheio de arte
mas tu tinhas os olhos fechados”

E por fim, a cura. Esta tem sido uma história de desalentos, de dureza afiada mas que resulta, neste final de livro, num retrato de evolução. Nesta fase, Rupi Kaur assume e desenha a sua veia feminista e, numa espécie de apelo, deslinda por fim,um projeto que perpassa ao longo de leite e mel uma ode à mulher.

rupi kaur

Foto: página de ‘leite e mel’

A poesia à mulher

Ao longo de centenas de micropoemas, Rupi Kaur vai deixando mais clara a tónica que os interceciona a todos. Este é um retrato do que é ser mulher no século XXI, das frustações amorosas à corporalização da sua espiritualidade, à invasão.

Mas é também é um retrato de beleza. Aliás, é fundamentalmente um retrato de beleza que pontua esta poesia em prosa. A autora aproveita para tornar a mulher na sua musa e no seu objeto de estudo e de trabalho.

Dá-lhe voz, enquanto a disseca e reconstrói-a, inserindo-a junto das suas irmãs.

Rupi Kaur assume-se cada vez mais como um símbolo da revolução feminista no século XXI, sendo que leite e mel é uma espécie de manifesto de amizade e compreensão entre as mulheres. Mostra-lhes que somos todas diferentes, mas que na verdade, comungamos da mesma complacência.

“O meu coração acordou-me a chorar ontem à noite,

precisas de ajuda implorei, 

o meu coração disse 

escreve o livro”.

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