Mãe! chega às salas de cinema portuguesas no meio de uma infame avalanche de opiniões contrárias. Odiado e amado tanto pela crítica como pelo público, o filme protagonizado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem parece não conseguir reunir consenso. Fomos vê-lo e, apesar de não causar ódio nem amor, é um filme tão horrível quanto cativante.

Acompanhamos a vida de um casal que vive numa imensa casa isolada no campo. Ela tenta reconstruir essa casa que foi destruída por um fogo, ele tenta arranjar inspiração para o seu próximo poema. No entanto, a relação do casal é colocada à prova quando recebem hóspedes que não convidaram e que interrompem as suas tranquilas existências.

É exasperante tentar falar de Mãe!. O mais recente filme de Aronofsky, realizador de obras como Noé, Cisne Negro e Requiem for a Dream, é das obras com mais impacto deste ano, mas também, e a par desse mesmo impacto, das mais polémicas. Gerando ondas de adoração e ódio, as próprias reações extremas que surgiram são um resultado perfeito daquilo que Aronofsky tenta tratar no filme.

Esta é uma história que ultrapassa o espetador, ultrapassa a humanidade. Aliás, o filme tem sido polémico por essa falta de humanidade, por se tornar monstruoso, desumano. Aronofsky tenta em Mãe! refletir sobre alguns dos temas mais definidores de todos nós, humanos e, por isso mesmo, colocando-se num olhar de omnisciência, é óbvio que toda a narrativa e as personagens que habitam nela têm de ultrapassar também o ser humano.

É na calculada e singela construção deste universo mítico que Aronofsky abre as hostes para o desenvolver das personagens, da fantástica mãe de Lawrence ao condenado poeta de Bardem. São estes minutos iniciais fulcrais também para formação da tempestade que irá eclodir no segundo ato. Mãe! é isso, uma bizarra série de acontecimentos que, por mais aleatórios que pareçam, não foram deixados ao acaso. É o caos completamente ordenado por Aronosfky, numa realização que obsessivamente procura a perfeição.

Mãe! é uma longa-metragem com coragem. Ousa mostrar o que não queremos ver, criar a ambiência que não queremos sentir e pensar naquilo que queremos eclipsar. É um filme que não nos deixa à vontade, que torna a experiência na sala escura do cinema em algo horrível, que nos sufoca, aperta e choca. Mas, ao mesmo tempo que faz isso, a película cativa, surpreende, atrai. É uma dicotomia que se torna no veículo de toda a narrativa fílmica, uma dicotomia pela qual as próprias personagens se guiam no meio daquela idílica casa de campo.

O próprio pulsar do filme, o seu ritmo, conta uma história e é na altura em que começa a disparar em todas as direções que nós, os espectadores, a humanidade, somos completamente esmagados por aquilo que torna Mãe! um filme aberrante e único. É cruel, confuso, asfixiante. É atordoante o conjunto de sensações que Aronosfky consegue encapsular durante as cenas finais da película. O ritmo é frenético (e precisa de o ser a esse ponto da narrativa), mas é talvez demasiado para o tipo de espectador mais casual, explicando assim o ódio que gera junto do público.

O filme atira-nos coisas, faz-nos ver imagens que, provavelmente, serão difíceis de apagar da memória nos próximos tempos e impele-nos para a porta da sala. Parece que nos convida a sair qual é a nossa irritação, a certo ponto, com o próprio realizador, devido à sua crueldade e demência. Mas como o caos é a ordem em Mãe!, ao mesmo tempo que nos impele para as portas, agarra-nos também às cadeiras da sala e os nossos olhos não conseguem escapar ao ecrã. É um jogo de sedução e inquietação que é jogado entre o espetador e a obra de Aronofsky.

E este jogo vai sendo criado pela própria câmara de Aronofsky, não fosse por acaso existirem apenas 3 escalas de planos ao longo de todo o filme, o grande plano, o “over the sholder” e o P.O.V (olhar subjetivo). Esta escala faz com que não tenhamos qualquer noção espacial, faz com que estejamos sempre presos a Lawrence, como se partilhássemos o cordão umbilical com a Mãe. A história é dada através do seu olhar e Aronofsky não só reitera isso como rejeita qualquer momento em que nos despeguemos de Lawrence, como prova o próprio olhar subjetivo que nos é dado através da sua personagem.

É depois a palete de cores, a cinematografia, e a cenografia (principalmente no segundo ato) que complementam toda a aura de Mãe!. Tudo ajuda para criar o universo mítico de Aronofsky, onde nada é deixado ao acaso; de canos nas paredes, a escadas em caracol, das cores das paredes aos próprios filtros de luz usados na câmara.

No meio da torrente de sensações e sentimentos que este filme nos faz passar uma coisa é deveras certa: o trabalho dos atores foi extasiante e fulcral para a construção de Mãe!. Jennifer Lawrence entrega talvez a performance da sua carreira, comprovando-se cada vez mais como um peso pesado da sua geração e carrega (literalmente) o filme às suas costas. Javier Bardem não lhe fica atrás. O atormentado poeta é encarnado (!) na perfeição na prestação do ator. Pfeiffer é memorável e Harris um perfeito contrabalanço.

Em suma, este é o filme aberração do ano que chega envolto em imensa controvérsia. Uma obra que será, certamente, falada durante imenso tempo, mas incompreendida pela generalidade do público que a vê. Não é um filme de fácil digestão para um serão de sexta-feira à noite com os amigos.

Mãe! tem de ser visto com a completa consciência de que vamos sofrer e sair de lá psicologicamente atacados e, caso não estejam disponíveis ou abertos para isso, aconselho a que não o vejam. Apesar de ser, de facto, um bom filme, é uma experiência horrível para se ter.

Este filme vai muito além de uma classificação certa, ela é oscilante desde o seu momento de visualização, pelo que a nota atribuída abaixo devia antes referir um “não sei/10”.

8/10

Título: Mother!
Realizador: Darren Aronofsky
Argumento: Darren Aronofsky
Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Michelle Pfeiffer, Ed HarrisDomhnall Gleeson.
Género: Drama, Terror, Mistério.
Duração: 121 minutos