Hallie Meyers-Shyer não é estranha às comédias românticas de Hollywood. Filha de Charles Shyer, conhecido por realizar O Pai da Noiva (1991), é a sua mãe, Nancy Meyers, que nos últimos 20 anos tem vindo a realizar algumas das entradas mais bem-sucedidas do género, como o recente O Estagiário (2015). Aos 30 anos, é a vez de Meyers-Shyer se estrear atrás das câmaras e de um guião com Uma Casa Cheia, uma casa ocupada pela vencedora de um Oscar, Reese Witherspoon (Walk the Line, 2006), família e companhia.

Alice Kinney (Witherspoon) separou-se recentemente do marido (Michael Sheen) e decide iniciar uma nova etapa com as filhas (Lola Flanery e Eden Grace Redfield) na Los Angeles que a viu nascer. Na noite do seu 40.º aniversário, conhece três aspirantes a cineastas (Pico Alexander, Jon Rudnitsky e Nat Wolff), desalojados de momento. Levada pela compreensão, Alice permite que os três fiquem em sua casa como hóspedes durante um período indefinido de tempo, mas o amor entra em cena e aí o acordo vai levar uma reviravolta inesperada…

Inesperada só para os personagens do filme, porque há coisas que um ser humano real, com dois dedos de testa, não tem como não antever. Uma Casa Cheia é basicamente isto, um conjunto de todos os clichés da história das comédias românticas. Uma sucessão narrativa de eventos mais ou menos programados com um destino final já mais que conhecido.

uma casa cheia

O mundo em que os personagens vivem também fica a dever muito à realidade. Tal como não há uma escassez de motivos insignificantes para estes gerarem atrito, há uma abundância excessiva de conversas francas, sem a menor vagueza de rancor, resolvendo-se tudo pela simplicidade de um olhar e um abraço. É uma fantasia; a vida não é feita só de branco (e, fale-se a verdade, os sets aqui são tão perfeitos num excesso de iluminação que quase podíamos ficar encandeados), há preto e, pelo meio, infinitos tons de cinzento. Uma hora e meia de um punhado de pessoas com ocupações que roçam o irrisório, a juntar a um entendimento tão superficial da psique humana, quase chega a parecer ofensivo.

Quase. Há um motivo pelo qual se continuam a produzir filmes como Uma Casa Cheia: dá para, efetivamente, apreciar isto. É surreal, é simplista, é fácil, mas num dia-a-dia que é o contrário disto tudo, uma obra como a de Meyers-Shyer cai-nos no goto de vez em quando. Há como que uma bondade intrínseca a cada plano de Uma Casa Cheia, quase como esticando-se para audiência a gritar “este filme é inofensivo”. Não há nada de negro aqui, há sim pessoas simpáticas a interagir umas com as outras em (quase) perfeita harmonia, um espelho daquilo que o mundo devia ser e, se é para ver filmes desinspirados, que tivessem todos um coração como o deste.

Big Little Lies parece a versão de terror para a TV de Uma Casa Cheia, mas a verdade é que foi em papéis nesses eixos que Witherspoon, ainda que com obras mais tensas aqui e ali, ganhou notoriedade. Esta nova comédia romântica é mais uma daquelas em que o papel é todo dela e, ainda que lhe falte a sátira dos Legalmente Loira (2001 e 2003) ou um pé mais assente no chão como o de James L. Brooks em Tens a Certeza? (2010), Witherspoon rouba cada cena, quer seja com o seu olhar mais confiante ou com o mais atrapalhado. Há sempre um quê de decidido na sua performance, que na verdade é o melhor que o filme tem e, ainda que não extraordinária (deixemos isso para outros registos, como o de Livre, em 2014), há algo em Witherspoon que faz sempre o ecrã brilhar, como se o à-vontade com que enverga estes papéis suspirasse um “adoro mesmo cinema ligeiro”. Acreditamos nela, os colegas de elenco – também todos eles mais que competentes – acreditam nela e, em última análise, o filme acredita nela, ganhando com isso a faísca que lhe falta.

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uma casa cheia

A primeira fita de Meyers-Shyer nunca atinge o alcance de, por exemplo, um Alguém Tem que Ceder (2003), mas Uma Casa Cheia, ainda que algo insípido na sua representação da realidade, está aí de convite aberto nas salas de cinema. O espetador mais exigente poderá sempre franzir o sobrolho ao reducionismo das dinâmicas interpessoais escritas pela realizadora, mas há uma candura e inocência nas pretensões deste filme que chega a todos. Os sorrisos tímidos que nos arranca aligeiram-nos o julgamento e uma Witherspoon no seu habitual estado de graça eleva uma fita básica a algo um pouco maior.

Uma Casa Cheia pode ser uma comédia romântica com pouco sal, mas em última análise vence-nos com o açúcar todo.

Uma boa matinée de domingo.

5/10

Título original: Home Again
Realização: Hallie Meyers-Shyer
Argumento: Hallie Meyers-Shyer
Elenco: Reese Witherspoon, Pico Alexander, Jon Rudnitsky, Nat Wolff, Michael Sheen, Candice Bergen, Lake Bell, Lola Flanery, Eden Grace Redfield, Reid Scott
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 97 minutos