Foi-nos prometido que chegaria na primavera de 2016, mas foi só neste final de verão que chegou. O terceiro disco homónimo dos Orelha Negra brotou, e o quinteto português mostra a razão para esgotar concertos tão facilmente.

Quando em 2010 apareceram para “salvar o hip-hop tuga” e, em 2012, solidificaram a posição como a melhor superbanda portuguesa, previa-se que a entrada em cena do instrumental funkilizado seria uma aposta segura. Não só mostraram que a música focalizada na instrumentalização não tinha bases seguras por cá, como também foram capazes de assumir a responsabilidade para gerarem esses pilares. Quanto a estes pilares, contam-se cinco: Fred FerreiraSam the KidFrancisco RebeloJoão GomesDJ Cruzfader. Se algum dia se erguer um padrão dos descobrimentos à música nacional, é bom que os ponham na frente.

O terceiro disco une lados que o mundo conservador etiquetou de “insustentáveis” quando juntos. A realidade de pés no chão do hip-hop à espiritualidade de mãos no ar do gospel, a eletrónica das máquinas e das samples às linhas harmonizadas e (extremamente bem) compostas das teclas e dos baixos. Ao todo, é como se existissem duas caras para o mesmo disco. Dois lados com personalidades distintas, mas que se completam quando juntas. Uma não o é sem a outra.

O disco é feito de pontos altos. Mesmo Claire, definitivamente a faixa mais slowburner, fornece o descanso necessário para o resto da viagem. É até na organização das músicas que se tem perceção da experiência musical dos membros da banda.

Todas as canções têm o seu lugar e nenhuma parece fora de sítio. Faixas como Skylab transportam-nos para uma realidade mais R’n’B, permitindo a respiração necessária a um disco que tem o seu q.b. de punchesA SombraReadyParte de Mim são as embaixadoras certas para este trabalho.

Durante um ano e meio, foi possível ouvir as novas músicas nos concertos que foram dando. Regra geral, o público gosta de ouvir o território já explorado. Não aqui. Quem foi a um destes concertos teve um vislumbre da perfeição divina. Um live ensemble onde qualquer palco foi pequeno demais. O novo disco soava a algo completamente diferente, onde todas as amarras que poderiam estar a prender a banda foram libertas e o som desabou sobre as audiências com a melhor das pujanças.

Estamos perante um álbum mais crescido, fruto dos anos de maturação (que nós conseguimos perdoar, claro). Durante treze faixas somos empurrados e puxados em paragens e contratempos, num universo paralelo onde o sentido da vida já foi esclarecido e há paz no mundo.

E no fim da viagem estamos prontos, prontos para embarcar noutra vida em paz connosco mesmos. Afinal, fomos sortudos o suficiente para que os astros se alinhassem e pudéssemos viver no mesmo período de tempo dos Orelha Negra.

Nota: 10