Kingsman: Serviços Secretos foi uma das grandes surpresas de 2014. Apresentou um sentido de humor bem britânico, interpretações igualmente divertidas e uma história alicerçada na crítica a filmes de espiões ao invés de floreados. A fórmula resultou, tendo conseguido receitas quatro vezes superiores ao seu orçamento. Depois de Kick-Ass – O Novo Super-Herói, Matthew Vaughn realizava assim, com sucesso, mais uma criação do escritor de banda-desenhada Mark Millar.

Três anos depois surge Kingsman: O Círculo Dourado. A rede de espiões, Kingsman, é atacada por uma organização terrorista que torna o mundo refém. E, tal como no primeiro capítulo, o destino de todos está nas mãos do protagonista Eggsy (Taron Egerton).

Vaughn e a sua colega de escrita, Jane Goldman, conseguem trazer de volta o humor e as cenas de acção exageradas ao som de clássicos da música rock. Se é com Take Me Home, Country Roads de John Denver que o filme chega ao seu apogeu emocional, Saturday Night’s Alright de Elton John (que surge no elenco com uma interpretação demasiado estranha para caracterizar) eleva-o a uma fasquia de extravagância inqualificável.

As personagens do capítulo anterior são reestabelecidas com sucesso, não sendo necessária uma revisão para se compreender as suas inter-relações. Mark Strong, no papel de Merlin, tem, ao fim de três décadas de carreira, uma cena de apoteose que exacerba os seus talentos. Já as caras novas têm nos atores que as interpretam a sua grande força. Channing Tatum, Julianne Moore, Jeff Bridges, Halle Berry e Pedro Pascal têm um charme inerente que credibiliza personagens construídas com base em backstories maioritariamente forçadas, que pouco ou nada acrescentam ao filme. Lá para o final compreende-se que a sua finalidade é, como de costume, traçar a rota para eventuais sequelas.

A acção é fácil de seguir, com muito uso de zooms digitais, green screens discerníveis e vilões alterados a computador. Se no último Kingsman havia uma personagem assim, neste existem demasiadas para contar, implicando que as lutas se tornem ainda mais inacreditáveis e semelhantes entre si. A cena final, construída para ser o clímax, é completamente desprovida de peso ou tensão, não só pela saturação que se gera através da repetição de golpes e truques visuais, mas também porque nunca foi estabelecida uma relação forte o suficiente entre o protagonista e o antagonista.

O realizador, que produziu sucessos como Snatch: Porcos e Diamantes e Um Mal Nunca Vem Só, vira o seu comentário mordaz para tópicos político-sociais em vez de para o género em que o filme se insere. Esta situação seria inteligente se a narrativa não fosse retirada, quase ponto por ponto, de Missão Impossível: Nação Secreta e de 007 Spectre. Falta, sobretudo, coerência na maneira como o argumento foi estruturado.

Com uma duração entretida, mas desnecessária, Kingsman: O Círculo Dourado poderia ter retirado várias personagens secundárias da sua versão final sem perder a lógica na narrativa. Ganhar-se-ia energia, intensidade e, principalmente, foco: a maior falha desta divertida salgalhada, que teve demasiado para dizer e estabelecer.

6/10

Título: Kingsman: O Círculo Dourado
Realizador: Matthew Vaughn
Argumento: Jane Goldman, Matthew Vaughn
Com: Taron Egerton, Colin Firth, Mark Strong, Channing Tatum.
Género: Acção, Comédia
Duração: 141 minutos