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Detroit: Do preconceito e da fúria

Uma das promessas mais explosivas deste fim do verão cinematográfico, Detroit é a mais recente fita da oscarizada Kathryn Bigelow (Estado de Guerra, 2010). Em colaboração com o argumentista dos seus últimos filmes, Mark Boal, o terceiro projeto da dupla é uma reconstituição histórica de um episódio de abuso policial americano em meados dos anos 60.

Os EUA são assolados por uma crescente instabilidade política e social no verão de 1967. Duas noites após o início dos motins de Detroit, um dos epicentros de todo o descontentamento, o relato de um tiroteio nas proximidades de uma zona controlada pela Guarda Nacional leva à invasão do anexo do Motel Algiers pelas forças policiais. Desrespeitando as regras em termos de procedimentos, vários agentes da lei interrogam de forma invasiva e perversa hóspedes do motel, levando a cabo uma tentativa de intimidamento a fim de arrancar uma confissão.

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Sendo um confronto entre autoridade e inocência, seria fácil descurar a nova obra de Bigelow como um mero produto de ativismo social, um “filme importante”. Detroit transcende essa barreira redutora logo nos seus primeiros minutos, e é preciso chegarmos sensivelmente a meio da sua duração para o confronto se iniciar.

A abordagem cinéma vérité, na exploração dos podres de uma situação nefasta, com toda a sua montagem rápida e close-ups, permite a representação mais suja de todo o preconceito e dos seus frutos, uma oportunidade para os intérpretes remeterem para a ação os sentimentos mais primários, que dão vida a personagens que facilmente poderiam cair em estereótipos.

«(…) se um pascácio tem uma arma e um distintivo, tem a chave para o terror»

Todo o elenco merece uma mais que óbvia ressalva, mas há aqui um nome que tem vindo a crescer e se faz grande em Detroit: Will Poulter é enfurecedor enquanto Phillip Krauss. Ao início estranha-nos ver alguém que nunca imaginaríamos como uma força da lei, a exercer tanto poder sobre cidadãos que noutra circunstância facilmente virariam a sua sorte.

Depois cai-nos a realidade no colo: se um pascácio tem uma arma e um distintivo, tem a chave para o terror, e aí vemos a grandeza em Poulter. A cegueira moral leva a melhor, numa tensão que é elevada pelas sobrancelhas arqueadas e pela sua expressão sádica, num espetáculo de atuação que é do verdadeiramente melhor que temos visto nos últimos tempos.

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Detroit é mais do que um potente exercício de estilo. Aterroriza-nos com o “baseado em factos verídicos”, mas destrói-nos com a irresponsabilidade e fúria nos olhares dos seus vilões, e com a impotência e incompreensão nas lágrimas das suas vítimas.

A nova obra de Bigelow assombra-nos no seu retrato urgente e preocupante sobre a banalidade do mal. O veículo de indiscriminada agressão e abuso atiçado pelo ódio cai-nos como um murro no estômago, e que não tenhamos menos que certeza, este é um dos melhores filmes do ano.

Puramente incendiário.

9/10

Título original: Detroit
Realização: Kathryn Bigelow
Argumento: Mark Boal
Elenco: John Boyega, Will Poulter, Algee Smith, Jacob Latimore, Jason Mitchell, Hannah Murray, Jack Reynor, Kaitlyn Dever, Ben O’Toole, John Krasinski, Anthony Mackie
Género: Crime, Drama, Histórico
Duração: 143 minutos

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