Arranha-Céus teve a sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto em Setembro de 2015, tendo passado por muitos outros festivais até chegar às salas de cinema já em 2016. Só agora a longa-metragem de Ben Wheatley é exibida em Portugal. O realizador esteve este ano em destaque com Free Fire no Indie Lisboa.

A película resulta da adaptação do livro de 1975 de  J.G. Ballard, que conta a história de Robert Leing e a sua mudança para um imponente arranha-céus nos subúrbios de Londres. Quando Leing se torna residente do vigésimo quinto andar tudo parece um sonho moderno. Com um ginásio, uma piscina, um supermercado e até um jardim onde correm cavalos, este edifício parece ser quase auto-suficiente. No entanto, quando a fachada de uma sociedade funcional e pacífica cai, todo o equilíbrio parece em perigo.

Numa era futurista e de vanguarda, os quarenta pisos do arranha-céus são evidentemente modernistas. Não existem aqui quaisquer ornamentos, apenas espaços funcionais, rígidos e cinzentos. Ao imaginar um futuro utópico, Wheatley mantém, no entanto, as suas personagens bem próximas da sua época. A paisagem tecnológica contrasta em muito com o espírito de anos 70 presente nas personagens. Neste futuro tudo é possível e a sua junção à sofisticada cinematografia de Laurie Rose atribui-lhe um efeito antecipadamente distópico. Este ecossistema parece poluído desde logo.

Robert Leing (Tom Hiddleston)

De facto a premissa parece-nos simples, mas bastaram poucos minutos da película para perceber a sátira que aqui é feita. O olhar de Leing funciona em Arranha-Céus como o nosso acesso ao edifício, ao seu ambiente e principalmente aos diferentes andares. O recém inquilino encontra-se num ponto intermédio, sendo que a sua chegada é como que profética. O próprio edifício é muitas vezes descrito numa simbiose existencial relativamente aos seus habitantes. Quando Leing é expulso de uma festa Vitoriana são dados os seus primeiros sinais de repulsa pelo tão aberto elitismo. A partir daí tudo será pior.

A crítica é principalmente visual – os níveis do edifício simbolizam os diferentes status sociais. É quase entusiasmante que, quando nos apercebemos desta rutura, já ela esteja a causar danos. Num sinal evidente de condenação perante esta divisão, uma série de cortes de energia ocorrem gerando o pânico. O estado da guerra civil instaura-se. Esta situação surge numa sequência lógica, estando o filme repleto de discretos prenúncios. Não será ao acaso que a personagem de Elizabeth Moss, habitante dos andares inferiores, tenha um quadro de Che Guevara.

A disputa é levada a cabo através de festas, levando à sequência de autênticos delírios imagéticos. Nestes momentos é verdadeiramente impressionante o esplendor visual que Wheatley nos apresenta. A celebração deixa rapidamente de ser cerimonial e passa a ser furtiva e autónoma, como que um animal que ganha vida própria. Arranha-Céus ganha aqui uma dimensão enquanto espetáculo visual meticulosamente preparado, repleto de ornamentos sonoros que não deixam o seu espectador indiferente.

A banda-sonora acompanha as imagens exemplarmente, perpetuando a metamorfose do próprio edifício. Clint Mansell descreve-nos um ambiente alucinatório pelas suas cordas e outro quase alienígena no teclado. Claro que quando chega a hora de lamber as feridas “S.O.S” pelos Portishead entranha-se no sistema, conferindo à película uma versatilidade que nem a própria imagem consegue acompanhar.

Royal (Jeremy Irons) e Wilder (Luke Evans)

Bem-vindos à vida no Arranha-Céus”

Tom Hiddleston desempenha o seu papel subtilmente, argumentando muitas das vezes pela audiência, como se de um intermediário se tratasse. Quando chega a hora de se perder nesta orgia alucinatória de inquilinos, Hiddleston impressiona a plateia pela honestidade que nos oferece. Será neste mesmo momento em que tudo o resto se perde. Jeremy Irons, arquiteto do edifício, carece de relevância, fugindo às suas responsabilidades de forma semelhante à sua personagem. Quando Leing mergulha neste mar de perversões somos deixados sem rumo, sem um pilar que nos oriente e que guie a película a bom porto. Luke Evans é chamado para o fazer, mas este não é o seu espetáculo e a amplitude da sua personagem não é suficiente para nos impedir de divagar.

A partir deste momento estamos perdidos, como que num loop de drogas, sexo e de imagens que começam inevitavelmente a ofuscar o nosso olhar. Com a mesma velocidade com que nos pasmamos no início desta festa interminável, aborrecemo-nos com a sua perda de sentido.  Afinal, parece apenas mais do mesmo, a própria película perpetua a sua existência sacrificando a história. Pela altura em que o filme se prepara para dar um nó final já existem muitos olhares distraídos, muitos elementos que apenas enchem e não completam.

O resultado é uma mensagem ambientalista, em que apenas o espaço importa. Esta ideia é sublinhada durante todo o filme. O elenco, que reúne alguns dos mais relevantes atores britânicos, é constantemente sugado pela imagem de Wheatley. O realizador faz ainda um esforço para nos apontar um carácter político da sua trama, mas parece que se esquece de um elemento da fórmula. Leing senta-se entre dois grupos rivais e assiste a uma guerra, mas depois da lição aprendida parece voltar a fazer o mesmo, só que desta vez só ele resta.

6/10

FICHA TÉCNICA

Título: Arranha-Céus
Realizador: Ben Wheatley
Argumento: Amy Jump e J. G. Ballard
Com: Tom Hiddleston, Luke Evans, Jeremy Irons e Elisabeth Moss
Género: Drama
Duração: 119 minutos