Há três anos que o festival Reverence Valada andava a ser alvo de expedições anuais por parte de centenas de pessoas que se dirigiam à modesta freguesia na esperança de assistir a alguns dos melhores concertos disponíveis em Portugal.

Na realidade, a chegada a Santarém (um dia antes do festival começar) foi bastante diferente da típica receção mágica que os festivais costumam organizar para amplificar a experiência de quem investiu dinheiro e tempo a dirigir-se ao local.

Para além da escassa sinalização e da pouca publicidade pela cidade, a chegada ao campismo levantou preocupações – uma vez que por lado nenhum existia um cartaz com o nome Reverence escrito (existia uma placa de madeira bastante pequena à entrada), não havia chuveiros, casas de banho, espaço para lavar a loiça e no espaço destinado a montar as tendas apenas se encontravam cinco já instaladas.

Não é o cenário mais animador que uma pessoa espera encontrar quando vai para um festival, temos de confessar.

Um rio de lágrimas e Mono

Apesar de todos os problemas que a organização parecia estar a ter com o festival, depois de mais de uma hora de atraso, chegava o momento em que os japoneses Mono subiam ao palco. E há que dizer que isso dissipou todas as preocupações.

Naquele que foi o concerto com maior audiência, os Mono, que no ano passado já tinha estado em Portugal no festival portuense Amplifest, não necessitaram de uma única palavra (há exceção de algumas cordialidades) para cativar a audiência por completo.

Ashes in the Snow de Hymm to the Immortal Wind foi a primeira música a ser tocada pelos nipónicos e foi claro que as demoras para preparar o som compensaram este momento.

Taka e Yoda, guitarristas da banda, sempre com uma postura calma e sentados em cadeiras, dedilhavam melodias e soltavam acordes tão lindíssimos como poderosos.

Este conjunto de post-rock  entregou um dos concertos mais intensos desta edição do Reverence, soltando reações emotivas por parte de alguns fãs. Enquanto isso, outros aproveitavam para por a conversa em dia nas partes mais calmas das músicas.

Na hora de despedida, as lágrimas foram trocadas por sorrisos e por uma grande maioria satisfeita com o que tinha acabado de ver. É um sentimento muito especial quando uma forma de arte, como a música transmite este tipo de emoções com esta intensidade.

Church of Ra. Amén.

Antes de mais nada, é importante explicar neste pequeno espaço o que é a Church of Ra. Trata-se de um coletivo que foi formado em  2005 pelos belgas Amenra, com o intuito de trabalhar juntamente com outros músicos e artistas com um estilo músical semelhante e com a tendência para trabalhar com uma filosofia DIY (Do It Yourself).

Por isso, tendo em conta este espírito, não é de admirar que mal o recinto abrisse já alguns membros deste conjunto estivessem na banca de merchandise a vender material da banda.

Os Amenra, que já não estavam em Portugal desde 2014, apresentaram -se com cinco músicos em cima de palco e com o seu vocalista, Colin H. van Eeckhout, constantemente virado de costas para o público, aumentando não só aura misteriosa da banda, mas também contribuindo para a intensidade do concerto, que revisitou não só álbuns antigos como também serviu para mostrar algumas faixas do mais recente trabalho, Mass VI.

Já os Oathbreaker, que também fazem parte deste conjunto, apresentaram-se com inúmeros problemas de som, o que atrasou a sua performance, mas com estes problemas superados trataram de arrasar com os pescoços de todos os presentes com a sua mistura de black metal com post metal.

Muito Moonspell, mas ainda bem que chegou ao fim

A confirmação de Moonspell gerou muita controvérsia perante os fãs do festival, que muito indignados defendiam que esta banda se afastava da identidade do festival. Mas também levantou muita curiosidade, uma vez que esta reação levou a banda a fazer um post no Facebook onde explicavam que este iria ser um set especial dedicado aos seus 25 anos de carreira.

Os fãs mais acérrimos da banda tiveram um concerto competente, onde os portugueses exploraram álbums como Wolfheart, com a sua influência folk, e Irreligious com a faixa inspirada em Fernando Pessoa, Opium. Este concerto recheado com pirotecnia viria a prolongar-se por cerca de duas horas, com a banda a ter direito a um extenso encore (que iria atrasar o resto do festival).

Contudo, o resto das pessoas que não queriam saber de Moonspell até pode ter suportado a primeira hora, em que aproveitou para conhecer melhor o trabalho influente da banda liderada por Fernando Ribeiro. Contudo a extensão exagerada do concerto levou a que muitos se cansassem da banda e esperassem ansiosamente pelo fim para continuar a assistir aos próximos concertos.

Gang of Four ressuscita o punk (mais ou menos)

Com apenas um membro original no alinhamento, Andy Gill, os ingleses Gang of Four vieram apresentar o seu post-punk que tanto influência teve em músicos contemporâneos como o Kurt Cobain ou os Franz Ferdinand.

A descarga de energia durou essencialmente o concerto todo, com os quatro homens a não tirarem um segundo para descansar. No entanto, o público apático não respondia a toda a adrenalina que estava a ser descarregada.

O único sinal de vida vindo do público foi quando estes tocaram a música mais famosa da sua discografia, Damaged Goods, em que alguns (muito poucos) abanaram o corpo numa estranha dança relutante e no final do concerto, quando John Sterry decidiu utilizar um microondas como instrumento de percussão, batendo neste com um pau e no final partindo-o. Este ortodoxo instrumento levantou alguma curiosidade do público morto-vivo.

 

Psicadelismo sueco e um sorriso na cara

O último dia ficou marcado por inúmeras bandas fortemente assentes no calor psicadélico que provinham do frio nórdico da suécia.

Träd, Gräs & Stenar (que quer dizer, respetivamente, “Árvores, Relva e Pedras”) são uma banda originalmente formada em 1969 e que em muito colaboraram para a cena psicadélica e de rock progressivo na Suécia.

Na senda de bandas influentes que o Reverence tem tanto prazer em trazer a Portugal, é possível afirmar que sem a estrutura de jam que as suas músicas tem, bandas mais recente como Goat ou Dungen (que empresta o seu guitarrista a este conjunto), provavelmente não existiriam.

Por isso, estes fizeram o que melhor sabem e providenciaram uma hora de jam com riffs pujantes e solos gritantes numa demonstração imprevisível de talento.

Mais tarde, os Hills subiram ao palco e também preferiram trocar as palavras por longas jams intrumentais com o psicadelismo a levar muitos membros do público (que deviam ser na ordem das 20/30 pessoas) ora a juntarem-se com danças altamente improvisadas ou em ritmados headbangs.
Ainda raiava o sol, quando os Siena Root subiram ao palco para mostrar o seu blues rock fortemente ligado às bandas dos anos 70. A bem-disposta banda veio apresentar o seu mais recente álbum A Dream of Lasting Peace.

Exotic Underground a organizar as melhores festas

Se há adjetivo que melhor define o público desta edição do Reverence é sem dúvida apático. Muitos pareciam estar a olhar para paredes brancas e não para música ao vivo.

Mas toda esta apatia teve de ser derrubada pelos electrizantes Pás de Probleme, que com as músicas do seu álbum de estreia “Silence is Gold” na curta meia hora que tiveram para apresentar o seu set (todas as bandas que tocavam no palco secundário ou palco Tejo, como preferirem, tinham apenas direito a meia hora para atuar) tentaram colocar o máximo de pessoas a dançar.

Apesar de muitas teimaram em permanecer estáticas no seu lugar, uma pista de dança abriu na frente do palco movidos pelas energias místicas da Real Padrada.

Ninguém anima melhor o público do que estes homens que para além de terem sido o único concerto onde existiu moche, conseguiram que o público de Santarém abrisse uma Wall of Death.

Antes destes, no mesmo palco, tinham estado os Cows Caos, que pertencem à mesma editora e que partilham a grande maioria dos músicos, a atuar.

O som destes é claramente inspirado nas soundtracks Tarantinescas a suor, surf e rock e conta com uma interpretação da vocalista/dançarina Titz Vagabond com as suas danças sensuais.

Também é importante salientar o terceiro projeto desta editora, e o que passou mais despercebido, chamado Royal Bermuda, que consiste em dois músicos com duas guitarras acústicas, um pouco na calha dos Dead Combo.

Armada Portuguesa não desilude

Para os já conhecedores deste cartaz do Reverence, é fácil notar a grande presença de bandas portuguesas em ascensão.

Estas bandas podem orgulhar-se de terem elevado o bom nome da música portuguesa. Sendo nós o país nativo do atual vencedor da Eurovisão, agora as bandas portuguesas tem um certo estatuto a manter.

Seja pelos Sinistro, que fazem jus ao seu nome, e que agora se pretendem lançar pela Europa fora, os portuenses 10000 Russos que também se vão fazer à estrada e percorrer a Europa numa tour de dois meses, ou os mais pesados Névoa, com a sua fúria traduzida em Black Metal, o stoner dos Asimov que encontrou complemento nos The Hidden Circus ou os místicos Lobo na sua mescla de Doom e música eletrónica a mostrar do melhor que há dentro do nosso pequeno país.

Mas também há nomes mais pequenos, como os jovens Chinaskee e os Camponeses, Iguana, I Am The Ghost of Mars, Zarco, Conjunto!Evite, Trengo! Soundsystem, e os heróis locais F’rrugem deram bom nome à música portuguesa.

Agora num tom mais sério

Apesar de toda a boa música deste festival, é complicado não considerar que a experiência podia ter sido muito melhor, não fossem as condições precárias do recinto e do campismo.

As fracas condições dos balneários e o facto de não existir um espaço para lavar a loiça tornavam a vida no campismo complicada.

A falta de atividades dinâmicas no acampamento fazia com que, até à hora em que os concertos começassem, se vivesse uma pura apatia.

A qualidade de som nos concertos era muito fraca, sendo a mistura de som da grande maioria dos concertos ora desequilibrada, ora estando alguns instrumentos enterrados no som, ou, ainda pior, com interferências no som, fazendo com que o som dos instrumentos saísse deformado.

Demasiadas vezes foram testadas as capacidades dos tímpanos, com o volume dos concertos demasiado alto quando não havia necessidade.

Depois de terem revelado que o cartaz do festival tinha sido escolhido em apenas três semanas, fica a sensação de que talvez este devesse ter sido debatido melhor e existido uma maior consideração para as condições atuais do Reverence em termos monetários.

Talvez tivessem beneficiado mais com um cartaz mais pequeno, eliminando algumas bandas do cartaz que parecem encontrar-se descontextualizadas. Quantidade não significa necessariamente qualidade, e algo muito importante na identidade do Reverence é o facto de existirem concertos até às tantas da matina.

Estas críticas não pretendem ser destrutivas, já que existe um respeito imenso pelo trabalho que o festival fez e por tudo o que já ofereceu à música em Portugal. Contudo, antes de ele continuar, os seus novos organizadores têm que parar para pôr as mãos à cabeça e pensar o que aconteceu de mal e tentar de novo para o próximo ano.

Espero que para o ano possa voltar a dizer “Vejo-vos no Reverence”.