O Espalha-Factos está a marcar presença nesta 11.ª edição do MOTELX, e traz-te os filmes de maior destaque. Os dias 6 e 7 foram dois dias de uma boa seleção no maior festival de cinema de género em Portugal, mas a pérola maior chegou quando o calendário já marcava dia 8.

The Void – 6/10

(Secção Serviço de Quarto)

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The Void foi a primeira proposta verdadeiramente violenta da edição de 2017 do MOTELX. Há aqui macabro e grotesco para gerar aos mais sensíveis pesadelos durante dias, sendo este um filme temática e pictoricamente bem inspirado.

O orçamento baixo não joga contra si, pelo contrário: a espetacularidade neste filme deve-se aos efeitos visuais práticos. Por momentos, evoca-nos o muito próximo Baskin (presente na edição do ano passado), mas é injusto aproximá-lo imediatamente, visto que esta é uma fita com os seus próprios momentos de glória.

Ainda assim, sofre com um elenco relativamente fraco e uma progressão narrativa com os seus momentos menos consistentes. O seu desfecho enigmático é divisivo e a ausência de aplausos no final apenas o comprovou.

A obra de Jeremy Gillespie e Steven Kostanski é uma adição curiosa ao género, mas seria interessante ver o mesmo filme com um maior orçamento.

La Región Salvaje / The Untamed – 7/10

(Secção Serviço de Quarto)

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Está prestes a começar a sessão quando a organização do MOTELX avisa que o novo filme de Amat Escalante poderá gerar reações díspares na audiência. É verdade: nuns míseros 30 segundos, já perto do terceiro ato, são-nos dadas a ver imagens que vamos ter dificuldades em apagar da mente.

Até lá, La Región Salvaje é um filme que joga muito com a sugestão e antecipação, não passando, no entanto, de um drama arthouse competentíssimo, com uns toques de ficção científica. Ainda assim, é admirável a conjugação balançada dos dramas amorosos de três familiares e de uma desconhecida com a existência da criatura misteriosa.

Vencedor do Leão de Prata para Melhor Realizador no Festival de Cinema de Veneza no ano passado, La Región Salvaje é uma mescla bem-sucedida de dois géneros  que certamente deixou a sua marca nesta 11.ª edição do MOTELX.

The Endless – 5/10

(Secção Serviço de Quarto)

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À semelhança de The Void, The Endless é mais um filme com uma ideia interessante, mas uma execução muito limitada pelo orçamento. Infelizmente, a obra realizada e protagonizada por Justin Benson e Aaron Moorhead tem mais ainda onde falhar, diga-se, na progressão da trama.

O destino final do enredo é fascinante, mas o caminho para lá chegar é um falhanço. Até metade do filme desenvolve-se como um drama aceitável, mas quando a fantasia aparece em cena a qualidade desce a pico; as tentativas – intencionais ou não, é indecifrável – de introduzir comic relief eram escusadas e a quantidade de revelações é um exagero que gera a confusão.

Ainda assim, ficamos desejosos de ver mais de Benson e Moorhead. O par de amigos revela nesta obra uma imaginação galopante e quem sabe qual teria sido o resultado final com um pouco mais de calma na ânsia de surpreender a audiência.

Rökkur / Rift – 7/10

(Secção Prémio Melhor Longa de Terror Europeia)

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Vindo do frio da Islândia, Rökkur é um thriller psicológico que oscila com precisão entre o drama romântico e o terror sobrenatural. Há talento na maneira como Erlingur Thoroddsen dirige a atmosfera desta história que, ora dentro duma cabana, ora na paisagem gelada que a rodeia, parece sempre um mundo isolado de qualquer contacto exterior, transportando-se a bela cinematografia para o centro do cenário.

Os protagonistas, Bjorn Stefánsson e Sigurður Þór Óskarsson, entendem o arco dos seus personagens e convencem-nos tal como se fosse o seu, em duas performances que sustentam o filme.

Infelizmente, Rökkur não é isento de falhas. Há momentos em que determinada estética e dinâmica de telefilme se impõem e muitas das mensagens mais ambíguas não parecem ter muito contributo para a história.

É de destacar, no entanto, as múltiplas interpretações a que a obra de Thoroddsen conduz, o que acaba por ser o que, findado o terceiro ato, a eleva verdadeiramente.

Hounds of Love – 10/10

(Secção Serviço de Quarto)

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A Austrália tem vindo a ganhar boa reputação com thrillers negros ao longo da presente década. Aplaudido no Festival de Cinema de Veneza do ano passado, Hounds of Love chega um ano depois ao MOTELX, à meia-noite. E chega com um estrondo.

É a primeira longa-metragem realizada e escrita por Ben Young, mas jamais o diríamos se não o soubéssemos. O que o realizador consegue com Hounds of Love é um feito digno de mérito. Em toda a sua escuridão, esta obra perturbadora é a experiência cinematográfica por excelência.

Visualmente, tem uma cinematografia aflitiva, que nos corta a respiração com os seus inquietantes slow motions. O pânico reina num enredo asfixiante em que antecipamos constantemente o pior, quer pelos olhos desesperados de Ashleigh Cummings, quer pela devassidão e instabilidade de Emma Booth, em dois desempenhos extraordinários que se complementam. As atrizes são a força motriz duma fita negra como poucas, em que o que se passa detrás de portas fechadas choca mais que qualquer imagem.

Chega o final e, já esgotados de tanto sofrimento, toca Atmosphere dos Joy Division; é o derradeiro grito de liberdade, o verdadeiro expurgar de tensão. Tememos pela nossa protagonista até aí, mas chegado aquele tão esperado desfecho, ouvem-se suspiros, há lágrimas a correr, existe verdadeira apoteose. Os aplausos fortes não teimam em chegar para a nova obra-prima do cinema australiano.

Houve verdadeira e crua emoção na Sala Manoel de Oliveira durante Hounds of Love. Foi para isso que nasceu o MOTELX. Foi para isso que nasceu o cinema.