9/11o novo filme do realizador e produtor musical Martin Guigui, acompanha o drama de cinco indivíduos enclausurados dentro de um elevador na torre norte do World Trade Center durante o atentado terrorista de 2001. A película é baseada na peça teatral Elevator e conta com Charlie Sheen e Whoopi Goldberg nos principais papéis.

Antes do lançamento 9/11 gerou polémica na divulgação do seu trailer, sendo descrito como “manipulativo” e “para lá de ofensivo”. O tom sobe quando Sheenassumido defensor do “9/11 Truth Movement” e céptico em relação aos eventos do 11 de setembro, se assume como principal elemento do filme.

Qualquer ato de benefício da dúvida começa, mesmo assim, a ser desmantelado desde logo. A película inicia-se apressadamente, saltando entre imagens de Nova Iorque como que tentando dar a conhecer o cenário da tragédia. A caracterização histórica enquanto tentativa de nos transportar para 2001 nem sequer se coloca. É esperado que o espectador preencha pela arte da imaginação os espaços vazios. A introdução às personagens segue esta mesma lógica, gerando tal inutilidade que se torna quase opcional assistir aos primeiros minutos do filme. Não existe tema de conversa, portanto iremos envergar num extenso texto de small talk. O filme eleva apenas o texto para disponibilizar a si mesmo um adjetivo para a autocaracterização do seu processo de formação: desinteressante.

Ao chegarmos ao dito elevador o “piloto automático” é imediatamente acionado. A função de criar um espaço dramático é deixada para a própria tragédia em si. A realização, a produção e os próprios atores excluem-se desse mesmo espaço, como se a função de gerar emoção fosse exclusiva a tudo aquilo que se passa fora do seu espaço de representação. A verdade é que este objetivo é de facto bem-sucedido: 9/11 resulta num exercício dramático absolutamente vazio. O filme de Guigui utiliza abertamente um dos acontecimentos mais devastadores do século XXI como pano de fundo – para não dizer “adereço” – do seu trama de sobrevivência.

Michael (Wood Harris), Tina (Olga Fonda), Jeffrey Cage (Charlie Sheen) e Eve (Gina Gershon)

Se existe algo que choca ou comove a audiência são sem dúvida as imagens reais, as emissões televisas, os comentários dos seus pivôs, a neblina de fumo e as ondas de fogo que estas imagens de 2001 nos contam. Se subtrairmos estes momentos somos deixados com cinco indivíduos dentro de um elevador que tentam desesperadamente relacionar-se com qualquer sentimento que consigam detetar no seu espectador. Na esperança que a nossa retina sofra um atraso processual é embaraçoso observar um grupo de atores adultos fingir pertencer a um espaço que nunca fora deles. À medida que a tragédia avança a tentativa é cada vez mais desesperada. A certa altura, soa-nos até que estes estejam a competir com o próprio cenário, quando na verdade mal se conseguem manter à tona da água.

As personagens estão repletas de erros morais, de descrenças de valores e de irritantes repetições amálgamas de uma qualquer outra personagem que não a sua. São produtos genéricos, sem conteúdo ou profundidade; é-nos até difícil imaginar uma vida para estes fora deste elevador. Jeffrey (Sheen) é o típico protótipo de anti-herói que nos deveria conquistar pelos seus defeitos, mas que simplesmente nos deixa indiferente. Já as restantes personagens parecem apenas existir para nos ocupar, perpetuando um ambiente de submissão perante o que Jeffrey deveria ser. Olga Fonda é especialmente perturbadora na sua aparição fantasmagórica que apenas lhe concede uns quantos tremores e choros.

Também a intenção de juntar a este elenco Luiz Guzmán é revelada logo nas suas primeiras intervenções. Não será então que Carson Guigui vislumbram um alivio cómico no único latino da película? Isto sim é oportunismo! Whoopi Goldberg tenta também disputar este lugar, mas claro que neste caso a sua relevância fica-se pelo trailer e pelo cartaz: juntar o título “Vencedora de um Prémio da Academia” é uma receita já conhecida de Hollywood.  A sua aparição é até constante, mas sabe a quem vem apenas “picar o ponto”.

Metzie (Whoopi Goldberg)

É de fácil entendimento que esta tenha sido um peça teatral que funcione. O isolamento, a oportunidade de aprofundamento das personagens, tudo isto deverá funcionar quando o elenco coopera. Porém, na transição para o cinema o próprio valor imagético, a imersão do virtual, subverte muitos dos seus aspetos.

A imagem lembrará a muitos não a produção de Hollywood que esta trama se faz parecer, mas sim um telefilme. Os tons são excessivamente claros, pálidos e possivelmente nauseantes. O elevador, num mármore falso, espelha, irritantemente, uma e outra vez a sua luz na testa de Sheen. Este que encontra no seu esforço nada mais que suor. O desfecho é drasticamente simbólico, procurando níveis extremos de comoção, mas apenas apressa qualquer um para saída mais próxima.

9/11 pode até funcionar como um tributo às vitimas do World Trade Center (ainda que o seu grau deva ser medido por cada um), no entanto não funciona da mesma forma como película, aspeto primário da sua existência.

Talvez o objetivo tenha sido desde início uma homenagem no grande ecrã, pena que neste ramo de flores todas as rosas estejam secas.

1/10

FICHA TÉCNICA

Título: 9/11
Realizador: Martin Guigui
Argumento: Patrick James Carson, Steven J. Golebiowski e Martin Guigui
Com: Charlie Sheen, Whoopi Goldberg, Gina Gershon e Luiz Guzmán
Género: Ação e drama
Duração: 90 minutos