Adaptar teatro ao cinema é, acima de tudo, uma boa oportunidade. Uma boa oportunidade para fazer chegar ao grande público histórias fortes de potencial fílmico e, com o elenco certo, ancorado no diálogo por excelência, levá-lo ao cúmulo do que é ser ator – vejam-se exemplos recentes, como Vedações e o último vencedor do Oscar para Melhor Filme, Moonlight.

Adaptado de Blackbird, do dramaturgo David Harrower, Una – Negra Sedução é a mais recente peça a chegar ao cinema, um duelo de dois grandes atores com um ponto de partida delicado que promete não deixar ninguém sair da sala ileso.

Aos 13 anos, Una (Rooney Mara) fugiu com Ray (Ben Mendelsohn), um adulto da vizinhança. Por abusar de menores, Ray serviu pena de prisão, mas, terminado o cárcere, desaparece do mapa. Mais de uma década depois, Una leva uma existência ferida; pesa-lhe a vontade com que na infância se deixou levar pela tentação e angustia-lhe que Ray a tenha abandonado, mas sobretudo que nunca tenha tido o discernimento de lhe dar um não. Ao deparar-se com uma foto de Ray – aparentemente refeito e com uma nova identidade – numa revista, Una vai ter ao seu local de trabalho. Decidida a obter respostas para o porquê da dor que desde a pré-adolescência a consome, segredos escondidos e memórias enterradas vêm à tona, numa viagem a um passado que ainda a ambos atormenta.

una negra seduçao

Filme de estreia do encenador Benedict Andrews, Una – Negra Sedução é, desde início, uma narrativa asfixiante. Não há aqui um crescendo de tensão entre os protagonistas: o problema está lá desde o começo e a dinâmica entre ambos, ora invasiva e opressiva, ora condescendente e compreensiva, vai-se mutando entre os dois polos. O argumento de Harrower tem a mestria de opor os intervenientes num conflito moral onde se sabe quem é a vítima e dá pena vê-la cair numa espiral autodestrutiva sem fim à vista, manipulando e deixando-se manipular numa situação em que nenhuma saída se antevê fácil.

A transição para a tela não é perfeita, ainda assim. Um enredo secundário relacionado com o cargo de Ray na fábrica não encaixa totalmente, mas estas imperfeições ignoram-se pela boa oportunidade que dão à progressão da narrativa dentro do complexo de betão.

Esse complexo tem o seu bom tamanho, mas numa fuga entre salas e esconderijos mais ou menos iluminados sente-se asfixiante, o que ainda é mais evidente pelos planos de Thimios Bakatakis (de A Lagosta). No meio de cada cena na frieza do ambiente laboral estão Una e Ray, ambos à procura de redenção, numa sensação de isolamento emocional que lhes dá espaço para eles, e só eles, se confrontarem.

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Mara e Mendelsohn têm indiscutivelmente as suas melhores performances até à data, naquele que é um conflito incessante em crueza. Una pode não ter todas as peculiaridades da Lisbeth de Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres (2011) ou da Therese de Carol (2015), mas o âmago da sua penitência fala mais alto, numa oportunidade poderosa para Mara vociferar a raiva e autocomiseração que consomem a mulher que interpreta, despida de medos e perdão. Já Mendelsohn, como Ray, faz por merecer a indignação de Una, com a sua expressão torpe que não oculta um sentimento de culpa que, à partida, pensaríamos não existir. Depois de A Febre do Mississípi (2015), é este um novo ponto alto na carreira do australiano, exímio na arte de encarnar protagonistas perturbados.

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Una – Negra Sedução é um dos filmes mais desconfortáveis a chegar às salas este ano. A sua dupla exploração da mágoa humana perfaz um ensaio incisivo sobre desejo, maturidade, responsabilidade e consentimento. É cinema grande pelo quanto nos quer distanciar em toda a repulsividade do seu drama e no quanto nos agarra com a crueza magnética de cada grito e sussurro dos seus sensíveis protagonistas.

Nunca estamos menos que presos à demanda de Una, vidrados na sua urgência em expurgar o sentimento de expiação que sente. Na ira pela procura de algo que nem a mesma sabe como – ou se irá – obter.

Embaraçosamente fascinante.

9/10

Título original: Una
Realização: Benedict Andrews
Argumento: David Harrower
Elenco: Rooney Mara, Ben Mendelsohn, Riz Ahmed, Ruby Stokes, Tara Fitzgerald, Natasha Little
Género: Drama
Duração: 94 minutos.