Após mais de um ano praticamente em reclusão, lá aparece o single e o vídeo da cantora pop mais reconhecida pelos seus atritos e atrações. Em quatro  minutinhos, Taylor Swift deixa mais cadáveres para trás do que o último episódio de Game of Thrones (emitido em simultâneo com a estreia do clip nos VMA, curiosamente). Mas há, de entre os falecidos, um corpo que salta mais à vista: o da própria Taylor. 

 

Taylor Swift, a antiga “namoradinha da América”, morreu. Não sou eu quem o diz, é a própria, no novo single, Look What You Made Me Do, com direito a clip divulgado na cerimónia dos MTV Video Music Awards.

De garras de fora, manicure feita, maquilhagem reforçada e dentes gélidos, Swift senta-se num trono de cobras, diz que não gosta de palcos inclinados (Kanye, nunca mais faças tour com um desses), deita-se numa banheira de diamantes, espoja-se e cava a sua própria campa, embate com um carro dourado por causa dos paparazzis e ainda tem tempo para pisar no seu legado.

Reunindo várias versões de si mesma, a cantora já bateu vários recordes de visualizações, mostrando que continua a provocar alarido…pelo menos, nas narrativas em que ela ainda se deixa incluir.

Playlist para compressão deste… plot (opcional e +info aqui

 

Taylor deixou para trás as baladas e as letras poéticas para servir um electro-pop muito fragmentado, pouco melódico e uma vingança desvelada em prato frio. A subtileza (que pouco tem pautado o modus operandi de Swift na sua arte) está completamente deixada para trás e isso está muito na moda, ultimamente.

Muitos são os que consideram que a deriva agressiva da cantora segue o padrão de Beyoncé em Lemonade e isto torna-se muito mais plausível se observarmos as referências (bem mais superficiais, particulares e questionáveis do que em Lemonade, mas já lá vamos) que Taylor expõe na tétrica criação que dir-se-ia de inspiração de Tim Burton ou Luhrmann.

No início do vídeo, a imagem escura preconiza a citação que lhe sucede: “Aqui jaz a reputação de Taylor Swift”. Após esta introdução lá aparece a própria com o mesmo vestido do vídeo de Out of The Woods (música alegadamente escrita para Harry Styles) só que em versão white walker/zombie, assomada da sua própria cova, a cavar sepultura para uma Taylor viva, no vestido da Met Gala de 2014.

Jaz junto a ela, curiosamente, Nils Sjöberg, o pseudónimo usado pela própria para os créditos de This is What You Came For, êxito do ex-namorado, Calvin Harris, com a participação de Rihanna.

- "Quando eu cheguei já estava assim"

Foto: Captura Youtube – “Quando eu cheguei já estava assim, Gatsby”

Avançando para a casa de banho (renascida das cinzas), um eco do assalto a Kim Kardashian em Paris que envolve quase tudo o que se pode ver no vídeo: uma banheira, uma arma e… jóias dispendiosas. Há também a ideia de que Swift é a mulher que “chora as mágoas numa banheira de diamantes”, por conta do dinheiro que faz com a sua música. Se assim for, a piada tem mais bom gosto.

Mas há mais e tudo isso assenta no valor de um dólar. Um dólar fui tudo o que Taylor pediu ao processar um DJ que a assediou sexualmente em 2013. Caso vencido, dólar na banheira.

Na sua sala do trono, TS é a rainha das cobras (e até tem uma que lhe serve um chá – tea, da expressão spilling the tea; fofoca), animal usado pela supracitada Kim para a categorizar e possui uma inscrição shakespeariana no braço do seu alto cadeirão: Et Tu Brute (Até tu, Brutus).

Parece ser um mau ano para ter acidentes de carro fictícios provocados por paparazzis, mas a princesa do pov…do country, perdão, não fornece sinais de ter a mesma opinião: estampa-se com um Maserati mascarada de…Katy Perry.

Os problemas com Katy Perry parecem não acabar e usar um casaco tigresa, pentear o cabelo como ela e ainda andar com um Grammy na mão (Grammy que Perry é “famosa” por nunca ter ganho) é uma forma estranha de enterrar problemas passados, não? (Podes ver aqui o Carpool Karaoke em que Katy explica o que se passou com Taylor.)

Foto: Captura Youtube
“Ok, ladies, now let’s get in Formation”

Taylor Swift continua a conjuntura, passa por um festim e depois aparece com uns gatos à sua volta, balouçando um taco de basebol que faz lembrar qualquer coisa.  Será que o “Hot Sauce” de Beyoncé foi banhado a ouro? As supostas beliscadelas à Queen B não ficam por aqui.

Mais à frente no vídeo, Tay Tay aparece com uma armada de homens num outfit e estilo demasiado parecidos com Formation e numa coreografia um tanto ou quanto reminescente daquele que não foi o Melhor Vídeo Feminino de 2009: Single Ladies. 

Entretanto, a cantora ainda tem tempo para assaltar uma companhia de streaming (Spotify, reforça a segurança, sim?) e para fazer um discurso, vestida num fato de látex muito promissor e com um chicote na mão, para uma plateia de bonecas brancas e passadas a cera com a palavra SQUAD a aparecer nos televisores laterais (uma referência ao seu esquadrão de amigas famosas, brancas e ricas que Demi Lovato já tinha apontado numa entrevista).

Foto: Facebook de “Taylor for a Fascist Europe” – A letra gótica usada na capa do seu álbum não ajuda…

Em suma, uma loucura que fez de Taylor o novo símbolo da supremacia branca e a coroou deusa da raça ariana em alguns websites americanos nacionalistas, sobretudo, tendo em conta que a frase “olha bem o que me obrigaste a fazer” é, por norma, utilizada em situações de abuso perpetuadas por este tipo de grupo. Swift terá um sério trabalho em distanciar-se…se assim desejar.

Fica tudo mais ou menos embrulhado com as várias versões de Taylor Swift (a do seu primeiro álbum, a de You Belong With Me, a pobrezinha com o Grammy na mão, a Katy “Swift” com outro Grammy na mão, a que não sabia dançar de Shake It Off, uma maluca que apareceu de mota e a rainha dos Sonserina [seria demasiado doloroso assumir Slytherin nesta frase]) a trocarem galhardetes.

Conclusão final?

Este vídeo/música devia refrescar e sair da caixa. Mas não o faz. É apenas mais do mesmo.

Depois de se ter embaraçado nos tapetes das etiquetas, Swift volta a vitimizar-se mesmo que pelas suas próprias atitudes. Ela continua a esquivar-se da culpa e, talvez por isso, tenha encontrado uma aceitação muito fraca por parte da crítica.

Infelizmente, pouco ou nada há a dizer de LWYMMD enquanto peça musical isolada: é um tema frágil com alarmes dissonantes, com uma construção repetitiva e toques de synth-pop. É inquestionável que fica na cabeça, mas não existe narrativa: é apenas Taylor Swift contra o mundo e Taylor contra Taylor, uma após outra. 

No fundo, este é o culminar possível da sua vilipendiação própria, odiar-se a si mesma pelo mal que lhe foi infligido por outros.

Estranho ainda é Swift esquecer-se das suas tendências apolíticas que tanto foram usadas como arma de arremesso pela crítica. Do seu alegado “falso feminismo” à sua “colorblindness”, a cantora não fez a purga da única personagem que talvez mudasse mesmo as coisas de figura. A catarse de Taylor nunca a responsabiliza. Omite, até, a Taylor Swift polémica e colonial de Wildest Dreams.

Esta é a Taylor Swift que nós conhecemos…a que vende.

LER TAMBÉM: POLÍTICA, CAUSAS SOCIAIS E KING KENDRICK: ASSIM FORAM OS MTV VMA 2017

Numa era em que os Estados Unidos clamam por posicionamentos, a cantautora mantém-se neutra, ausente do coração pulsante do país e do mundo, sacudindo a água do capote e agredindo quase todas as figuras centrais da indústria que alguma vez se cruzaram no seu caminho. Para voltar aos olhares do público, exuma (sem trazer à luz) todas as ocorrências possíveis, mesmo que tenham passado sete anos do incidente com Katy Perry.

Taylor pode até repetir as frases já usadas pelo público em geral para a descrever, mas isso não salpica a sua reputação, não acerta em cheio na sua consciência íntima. Swift é a mesma mulher (pungentemente branca) que em Better Than Revenge procurava vingança nas suas letras e condenava as atividades de alcova da sua nemésis (num slut shamming vulgar).

Seria uma verdade de La Palice admitir que do Country, pelo Punk Pop e chegando ao Pop Eletrónico não existia uma evolução…no sentido de se comercializar. Nada de novo debaixo do sol, mais uma vez.

Contudo, Reputation promete ser um álbum que  trará mais lenha para a fogueira e recordes para bater.

Como as provocações não acabam, segundo o jornal online Vulture, há rumores de participações de Kesha (após outro finca pé com Demi Lovato sobre o seu apoio pouco empenhado à cantora de Tick Tock) e Drake (o ex-namorado e companheiro musical de Rihanna, a cantora de This is What You Came For).

Reputation será lançado a 10 de Novembro.