2011 foi o ano em que James Murphy decidiu anunciar publicamente o suposto fim dos LCD Soundsystem. A cerimónia fúnebre da banda realizou-se e, mesmo para os mais céticos, já tudo soava em jeito de despedida.
O ácido das músicas disco da banda começava a perder-se depois de This is Happening, no entanto, 2017 ditou o contrário. A chaminé da capela LCD Soundsystem começava a deitar fumo branco: habemus álbum.

Tudo é diferente, mas os LCD ainda são os mesmos

Desde o nosso último encontro com os nova-iorquinos, muito mudou na atmosfera musical e no mundo. O novo álbum American Dream mostra exatamente a metamorfose sonora da banda em concordância com o estado tenebroso da atualidade. A sonoridade dos LCD Soundsystem continua intocável apesar de uma maior escuridão se escutar nas novas músicas. Apesar do artwork de American Dream mostrar o contrário, os tons cinza predominam em praticamente todas as faixas.

Apertem os cintos porque a viagem vai ser nostálgica

O sistema de som está pronto e os LCD arrancam em primeira nesta jornada com Oh Baby sem receios ou preocupações de quem irá gostar do novo trabalho. Os velhos LCD Soundsystem são revisitados em Other Voices, com direito ao festim típico da banda: linhas de baixo invejáveis e a mesma vibe a que nos habituaram antigamente. I used to é uma chapada de luva branca de James Murphy a ele próprio quando reflete sobre algumas das maiores loucuras que já cometeu.

A banda que “acabou” a meio

Afinal, quem põe termo à sua banda quando está em pico de forma? É sobre este acontecimento que Change yr Mind incide e todas as polémicas com ele relacionadas. Foi um ato de cinismo por parte de Murphy? Não diria tanto, visto que o mesmo começou a carreira a escrever sobre o seu término.
How do you Sleep? é o tema mais obscuro do álbum, marcado por sintetizadores pesados e um ambiente tóxico, pelo qual desfila a voz de Murphy declamando sobre o desalento da sua própria vida. A pausa para café de American Dream chega com Tonite e as influências primordiais dos LCD Soundsystem voltam com os beats repetitivos, os synths contagiantes e a mensagem (bem importante) de James quase em “spoken word”.

A América aos olhos de James Murphy

Murphy prova que não pararam no tempo e faz questão de que os progressos (ou recuos) da Humanidade estejam patentes nos singles American Dream e Call the Police, que foram previamente lançados.

Não eram um aviso de politiquices vindo da banda norte-americana, mas sim de sinais de fumo que anunciavam a maturidade que este álbum vinha trazer. Não é que os LCD Soundsystem tenham apenas escrito sobre euforias na pista de dança, contudo a disforia e desânimo são os pilares de American Dream.

Se o Bowie te encoraja a fazer algo, fá-lo logo

Emotional Haircut é o “throwback thursday” de Murphy e companhia ao passado como banda e também uma abordagem ao passado pessoal de James, com os seus altos e baixos. Black Screen é o término mais do que perfeito com uma elegia a David Bowie. James Murphy e o Starman tinham uma relação que  próprio descreve como “fell between a friend / And a father” e essa mesma é descrita de forma penosa por Murphy. O fã e o ídolo, o filho e o pai, o admirador e o herói.
O músico, que na altura a convite de Bowie recusou produzir Blackstar, hoje lê os e-mails trocados com ele e tudo o que lhe resta é recordar. Sempre que Murphy olhar para aquele “black screen”, Bowie vai sorrir porque a reunião da banda sempre aconteceu. E nós também.

LCD Soundsystem, eu adoro-vos e vocês nunca me deixam em baixo

James Murphy provou que pode ser quem ele quiser com American Dream. Não há necessidade de agradar a toda a gente nem a todo o pé de dança. Um álbum mais sombrio tomou de assalto o legado que os LCD Soundsystem deixaram e impôs uma forma diferente de se fazer música dance-rock. Não se trata de hinos festivos como All My Friends ou I Can Change, mas sim de American Dream e Call the Police com uma maior carga emocional.
Os músicos envelhecem, as bandas amadurecem e os fãs acompanham o processo. Este é o statement dos LCD Soundsystem e nós esperamos que eles não se fiquem definitivamente por aqui, porque os nossos sapatos de dança no armário para nada servem.
7.8/10
https://open.spotify.com/album/4AF1M7bGCFL3LHCtXUUXw5