A seguinte análise contém spoilers.

Há muito tempo que Hollywood procura a receita perfeita para adaptar a cultura japonesa. Os nipónicos têm criado sucessivos produtos de sucesso ao longo das décadas. Não só criam Manga inesquecível como são depois capazes de a converter em Anime de sucesso superior. As Anime’s japonesas atravessam o mundo e dão-se a conhecer à Europa e América. Mas as suas adaptações ocidentais de carne e osso à 7.ª Arte estão longe de tal estatuto. Dragon Ball: Evolution e o recente Ghost in the Shell são exemplos disto mesmo. Infelizmente, esta adaptação de Death Note insere-se na mesma senda, falhando em aproveitar até o crédito que o nome Netflix tem atualmente. Mas vamos por partes.

Death Note conta-nos a história de Light Turner (Nat Wolff), um estudante que um dia encontra um estranho caderno. Folheando-o, Light repara no nome, “Caderno da Morte” e num conjunto de regras invulgares. A primeira delas é inescapável: “o humano cujo nome for escrito neste caderno, morre”. Quando é interceptado por Ryuk (Willem Dafoe), um Deus da morte, Light percebe que o caderno é genuíno e decide purgar o mundo de todos os criminosos. Mas estará Light no direito de exercer tal julgamento e, sobretudo, execução?

O pecado capital

Não obstante as reservas perante uma adaptação do género, Death Note consegue surpreender pela negativa. O realizador Adam Wingard adopta a previsível opção de se desviar da história original, impossível de adaptar em duas horas. As licencias criativas que toma são o principal problema desta adaptação.

Death Note comete o pecado capital pelo total desvirtuar dos seus protagonistas. Light não é um estudante manipulador, calculista, arrogante e um passo à frente de todos. Light é aqui um adolescente inseguro, precipitado e sem fibra. L (Keith Stanfield) não é o detetive discreto, audaz e cheio de recursos que conhecemos na história original. É, sim, pouco perspicaz, impulsivo e altamente incoerente. Misa (Margaret Qualley) não é um fantoche nas mãos de Light, mas a real fonte de perigo para a humanidade. Ryuk não assume a sua indispensável posição neutra, mas antes mata usando o caderno consoante a sua vontade.

Torna-se assim claro que todos os protagonistas estão despidos das suas características mais nucleares. Deste modo, estão ausentes todos os elementos que tornam o anime tão memorável. Não existem duelos verbais entre os protagonistas. Não existe a componente intelectual e filosófica nem a complexificação da história.

O que existe são um conjunto de cenas ridículas e deslocadas de tudo o que conhecemos: Light a confessar ser o dono do caderno a uma rapariga que mal conhece; Light a pedir a L que o ajude a livrar-se do caderno; Ryuk a matar indiscriminadamente por impaciência; L a tentar matar Light apenas com base em suspeitas.

Toda a história decorre de forma previsível, lenta e incoerente. Os laivos de gore escusados e forçados tornam o filme ainda pior.

Um insulto

O que sobra a este Death Note? Muito pouco. O elenco é competente, dentro do limitado desenvolvimento de personagens. Willem Dafoe, único nome sonante, está presente apenas num punhado de cenas. Fica, também aqui, a ideia clara de desperdício de um ator que parece ter nascido para o papel. Um destaque final para a cenografia e fotografia do filme, que reflete o orçamento e dá algum alento ao espetador.

No final de contas, a natureza de Death Note é explícita. Não, não é uma adaptação da Manga. É, sim, um mero teen movie de escrita preguiçosa e sub-desenvolvida, uma tentativa de sucesso à custa do produto original. Se para o espetador comum, Death Note será mau, para um fã empedernido da série, é um insulto.

 

2/10

Título original: Death Note
Realização: Adam Wingard
Argumento: Charles Parlapanides, Vlas ParlapanidesJeremy Slater.
Elenco: Nat Wolff, Margaret Qualley, Keith Stanfield e Willem Dafoe
Género: Ação, suspense
Duração: 100 minutos