O cinema português é, por vezes, fonte de discórdia no nosso país. Aplaudido por muitos, denegrido por tantos outros. Os filmes nacionais mais mediáticos raramente são os melhores. Portugal procura há anos a receita para “o” filme português. A colagem a Hollywood ou o preservar da nossa identidade? Qual a melhor resposta? Os Imortais, de António Pedro Vasconcelos, faz ambos. Hollywood não tem disto, não como este Os Imortais.

Corria o ano de 2003 quando António Pedro Vasconcelos trouxe ao público Os Imortais. O realizador, esse, dispensa apresentações. Vasconcelos é um dos mais mediáticos realizadores portugueses, responsável por filmes como Jaime e, posteriormente, Call Girl ou A Bela e o Paparazzo. Dificilmente podemos acusar Vasconcelos de rigidez na escolha de projetos.

Também em Os Imortais, Vasconcelos arriscou. O filme conta-nos a história de um grupo de ex-comandos (Joaquim de Almeida, Rogério Samora, Rui Unas e Joaquim Nicolau) da guerra colonial, que se reúne todos os anos. O simples convívio parece não ser suficiente, a dada altura, e alguém decide, tal como Vasconcelos, pensar fora da caixa: assaltar um banco. Entra em cena um inspetor da polícia judiciária (Nicolau Breyner) à beira da reforma, que faz deste o seu último caso.

O maior mérito de Os Imortais é precisamente a sua imprevisibilidade. Não na história, essa é banal. A premissa pertinente cedo cai por terra, revelando uma trama previsível e com um desfecho medíocre. As sequências de ação, às quais o filme recorre com excessiva frequência, são datadas. Os Imortais arrisca na aproximação ao modelo Hollywoodesco, na tentativa de ser bigger than life. E falha.

Futebol, fado e…torradas

É na retenção dos valores e cultura portuguesa, que Os Imortais sai a ganhar. Na recriação história, nos carros, nos noticiários, nas conversas sobre futebol e serões a ouvir fado. E no investimento nas personagens. O Joaquim Malarrenha de Nicolau Breyner não é apenas um detetive genérico, é um polícia português, de carne e osso. Um polícia que não usa computadores, que gosta de futebol e de fado, e que não sabe fazer torradas.

É o elo de ligação do espetador, é o elemento fora da caixa em Os Imortais.  Não se enquadra na trama protagonizada por Joaquim de Almeida e Rogério Samora, está num mundo à parte a tentar integrar-se. É simples, genuíno e é sobretudo português. E este é o maior trunfo de Os Imortais.

E Nicolau Breyner agarra com unhas e dentes um papel promissor, devolvendo uma magnífica interpretação. Tocando com igual mestria a comédia e o drama, Breyner dá-nos uma das melhores interpretações da sua carreira.

Destaque-se ainda Rui Unas, no seu primeiro papel em cinema. O improvável narrador da história consegue fazer muito com o seu limitado papel, provando-se uma lufada de ar fresco. Já Joaquim de Almeida e Rogério Samora não destoam de um registo previsível e estereotipado.

Os Imortais não é uma obra-prima nem o quis ser. Mas poderá ser a resposta para a questão colocada em cima. É na genuinidade e no aproximar a Portugal que está a chave para o sucesso. Porque a cena no final desta publicação é bem mais memorável do que qualquer troca de tiros. E isso, Hollywood não tem.

 

Ficha Técnica:
Realizador: António Pedro Vasconcelos
Argumento: António-Pedro Vasconcelos, António Tavares Teles, Claire Downs e Vicente Alves do Ó.
Elenco: Nicolau Breyner, Joaquim de Almeida, Rogério Samora, Rui Unas, Emmanuelle Seigner, Joaquim Nicolau, Ana Padrão, Alexandra Lencastre e Maria Rueff.
Duração:  130 minutos

7/10