Vodafone Paredes de Coura: a música é para sempre (IV)

Fez-se história na 25.ª edição do Vodafone Paredes de Coura. Benjamin Clementine entrou no altar dos deuses do festival e os Foals encerraram a festa com chave de ouro.

Não será certamente fácil manter um festival com a regularidade e a identidade que Paredes de Coura tem conseguido, desde que um grupo de amigos decidiu fazer nas margens do Taboão um festival para jovens. Mais fácil será certamente fazer dele um festival especial pela ambiência natural que o envolve: as boas gentes do Minho, a atmosfera pura e fresca do Gerês, a belíssima praia fluvial e o anfiteatro natural fazem com que o Couraíso seja um festival efetivamente especial.

Mas sem a música, ingrediente principal, tudo isto não seria suficiente. E foi pois, o cartaz mais coeso das últimas edições que contribuiu para mais um ano de sucesso que ficará na memória e coração tanto de festivaleiros como de melómanos.

Isso mesmo sublinhou Manel Cruz, o primeiro nome do dia, que cantou os parabéns ao festival e apresentou novos temas com roupagens frescas, mas nunca abandonando o estilo que o caracteriza desde os Ornatos Violeta: letras e olhar astuto, tronco nu para o que der e vier, uma sinceridade plena na voz e nos arranjos musicais. Um por de sol perfeito num dos mais bonitos e compostos entardeceres de Coura.

De seguida chegaram os Foxygen que atuaram para uma boa moldura humana. Apesar de serem um duo (Sam France  e Jonathan Rado) apresentaram um palco cheio, com sopros a gosto e os coros e coreografias de apoio de Jackie Cullen, tudo sob uma ambiência colorida por glitter e purpurinas.

A figura excêntrica de Sam France – um Mick Jagger gingão que trocou de farpela duas vezes -, a crítica mordaz – “vocês são tão bonitos que parece que estamos em Hollywood” – e os bons singles de que dispõem – San Francisco, Follow the Leader ou Upon a Hill – proporcionaram um bom concerto.

Mas a noite haveria de ser ganha um pouco depois com a entrada em palco de Benjamin Clementine. O músico que durante a tarde falou à imprensa sobre I Tell a Fly (o próximo disco a editar a 15 de setembro) entrou em palco descalço, como é hábito, e desde logo agradeceu o calor humano atirando-se ao piano e à crítica social.

By the Ports of Europe marcou o início do concerto e resume as toadas do novo disco, repleto de som de cravo e letras que expõem a frágil situação vivida por muitas pessoas no mundo atual, desde a selva onde morrem inocentes (assombrosamente evocadas em Phantom of Aleppoville) até à América visitada por um alien (Jupiter). Pelo meio das novas músicas cantaram-se as condolências ao medo e à insegurança, um anfiteatro inteiro, cerca de 25 mil almas em uníssono, Clementine conduzindo uma orquestra de sentimentos.

Acompanhado por um coro de cinco vozes femininas que ajudaram a encorpar ainda mais a sua voz, Clementine revelou estar finalmente a ajustar-se a este carinho e fama que o tiraram das ruas de Paris e lhe reconheceram o infinito talento aos 28 anos de idade. Em Coura, foi ovacionado até à exaustão por uma plateia completamente rendida à beleza, intimismo e humildade deste enorme ser humano.

Para algo bem diferente (mas dispondo também da mestria musical em tenra idade) chegou Ty Segall para, literalmente, partir tudo. Arrancou logo com Break a Guitar e de facto ao longo do concerto contámos pelo menos três cordas partidas.

Com Fried Shallots e Sentimental Goblin acabados de editar o profícuo compositor e multi-instrumentista regressou a Paredes de Coura com The Freedom Band (já passara por lá enquanto Fuzz e com os The Muggers) e arrancou a maior nuvem de pó que o bonito relvado do anfiteatro viu esta edição.

A agitação nas filas da frente foi de facto uma constante, num concerto onde o pé nunca saiu do acelerador. Só Ty Segall – cada vez em melhor forma, e com a voz um pouco rouca, como o próprio fez notar – tirou o pé do pedal da guitarra para dar a perninha na bateria e continuar a incendiar o público. Muito do qual, note-se, vinha já com o corpo dormente da sova que os Lightning Bolt deram no Palco Vodafone.Fm.

Um baixo que serve de guitarra e uma bateria contundente (com Jack Bevan dos Foals a assistir a todo o concerto) espalharam o caos e fizeram o público suar debaixo de descargas noise.

A cama estava feita e os Foals entram em palco debaixo da euforia típica de último dia de festival e de felicidade para ver uma das melhores bandas que o início do milénio trouxe. Encerrando aqui a tour de What Went Down, o quinteto de Oxford começou com Mountain at My Gates e Snake Oil para depressa se atirar a Olympic Airways de Antidotes, o álbum de estreia lançado em 2008.

Em My Number o anfiteatro inteiro pula, muita gente se abraça, há quem faça acrobacias nas costas dos amigos. Um pouco depois, Spanish Sahara coloca as emoções em altas e revela os prodígios musicais que são estes meninos. Yannis Philippakis desce várias vezes até às filas da frente e sobe às colunas o delírio é total; Jack Bevan (que toca descalço) ergue-se da bateria para marcar o ritmo e de lá atira baquetas.

O mosh não para e há alguém que consegue mesmo subir ao palco; uma bandeira de Portugal é atirada e a banda termina o encore – com What Went Down e a incrível Two Steps, Twice – enrolada nela.

Os Foals parecem não querer ir embora e nós também não queremos que eles vão. Acabaram de fechar da melhor maneira o palco principal do festival, terminando da melhor maneira a festa dos 25 anos.

Logo de seguida a organização haveria de passar um vídeo comemorativo e lançar confetis ao som de LCD Soundsystem. É arrepiante isto que a música faz pelos sentimentos, e pela cultura, como disse Philippakis por duas vezes.

O Vodafone Paredes de Coura regressa de 15 a 18 de agosto de 2018.

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