A noite de sexta-feira no Vodafone Paredes de Coura ficou marcada pela voracidade dos BadBadNotGood e pela indolência dos Beach House.

O terceiro dia do Vodafone Paredes de Coura começou de forma caliente com os sons tropicais de Bruno Pernadas. Com dois discos lançados de uma penada, o músico português embalou o público que se foi juntando no Palco Vodafone para um fim de tarde pintalgado de improviso jazz e rock. Ótima entrada para o que se seguiria um pouco depois com os BadBadNotGood.

Com este concerto dos canadianos podemos dizer, como aliás ouvimos, que aconteceu Coura. O espaço paradisíaco onde uma banda sem frontman (embora Alexander Sowinski, o baterista, fizesse as mesmas vezes), sem vozes, com o som a basear-se no jazz, conseguiu por todo o anfiteatro boquiaberto, agitado e em euforia completa. Um daqueles concertos quase irrepetíveis, talvez não completamente surpreendentes tal era a expetativa após o muito bem sucedido disco, IV.

“Mãe, agora não posso falar, estou a tocar em Paredes de Coura”, foram as primeiras palavras de Alexander, que logo colocaram a plateia em alvoroço, pela forma carinhosa como a banda entrava em palco. O que se sucedeu foi uma hora de completa comunhão entre público e a banda que tem piano (tocado pelo quase nosso primo Tavares), baixo e saxofone que dificultam essa coisa de colocar rótulos na música. O que aconteceu foi, efetivamente, Coura: amor eterno entre mais de 20 mil almas e uma banda cuja entrega se traduziu, por exemplo, na distribuição de abraços pelas filas da frente no final do concerto.

Antes, o mesmo palco tinha recebido os Young Fathers, que no ano passado estiveram com os Massive Attack no Super Bock Super Rock (um dos melhores concertos de 2016). Apesar de escoceses, a influência de Bristol está presente na forma como o trio revê o hip hop, quer ao vivo, quer no registo de estúdio  White Men Are Black Men Too. Dali vieram Feasting, Rain or Shine e Shame já a terminar, temas que ganham ainda mais poder ao vivo tal a energia que a banda imprime ao concerto.

O palco Vodafone.Fm, que começara a jornada com os portugueses Cave Story, encerrava com Octa Push e a sua mescla de géneros musicais que compôs bem a tenda um pouco antes da debandada para receber os Japandroids. E a descarga elétrica do duo canadiano sentiu-se bem no anfiteatro courense, logo a abrir com Near to the Heart of Life do disco homónimo lançado o ano passado.

A parede de amplificação e a energia emanada por apenas dois homens em palco foi suficiente para a agitação profunda nas primeiras filas com muito mosh e crowdsurf. Os ânimos aumentam ainda mais com as palavras de carinho de Brian King, que recorda o quanto gostam de Portugal e o videoclip gravado recentemente no Porto (onde atuaram em maio, no NOS Primavera Sound).O rock com laivos punk foi recebido e ovacionado pela multidão de Paredes de Coura que de seguida haveria de quase dormir ao som dos Beach House.

O que se seguiu foi muito tempo de espera. Devido a problemas técnicos não especificados, segundo se desculpou Alex Scally, guitarrista dos Beach House, a banda entrou em palco com mais de meia hora de atraso para um concerto quase na penumbra, pontuada pelas estrelas projetadas em pano de fundo.

É óbvio que a voz de Victoria Legrand é um bálsamo e temas como Walk in the Park, Silver Soul, Take Care ou Myth, que encerrou o concerto, não perdem a beleza. Mas é também verdade que ao terceiro dia de um festival e perto das duas da manhã, essa candura não foi suficiente para aquecer nem a alma nem o coração. Já lhes vimos muito, mesmo muito melhor. Se calhar temos de dar um tempo nesta relação que, apesar de tudo, se mantém de amor.

A festa fez-se no Palco After-Hours com Roosevelt a compensar de alguma forma o sossego que Beach House haviam trazido. A tenda foi pequena para a eletrónica inquieta do alemão que aqueceu a terceira e mais fria noite desta edição do Vodafone Paredes de Coura.

Fotografias de Inês Lopes da Costa