Escrito na Água é o mais recente livro da escritora bestsellerPaula Hawkins. 

A antiga jornalista estreou-se na ficção com A Rapariga no Comboio, um êxito arrebatador de vendas, chegando até a ser adaptado para cinema.

Escrito na Água é o segundo thriller da autora e já é um sucesso. Mas será que o burburinho que se gerou, quer em torno da autora quer em torno do livro, é justificado?

O enredo

Escrito na Água gira em torno da investigação da morte de Nel Abbot. Esta foi encontrada sem vida, no rio que perpassa a pequena vila inglesa onde a narrativa decorre.

Ao que tudo indica, e uma vez que não existem vestígios de crime, Nel ter-se-á suicidado. Este rio, também conhecido como Poço das Afogadasjá havia sido palco para outros suicídios.

O enredo, ainda que se foque no desaparecimento de Nel, mergulha também nos passados incidentes que decorreram naquele rio.

A aura que Hawkins pretende construir com Escrito na Água parece alternar entre o crime/investigação policial e toda uma vertente místico/espiritual que envolve o rio.

“Há quem diga que as mulheres deixaram algo de si próprias na água; há quem diga que esta conserva o seu poder, porque, desde então, tem atraído para as suas margens as desafortunadas, as desesperadas, as infelizes, as perdidas. Vêm até cá para nadarem com as suas irmãs.”

Mas, se por um lado, a escritora dedica várias páginas a criar este ambiente paranormal, de atração cósmica com o rio, dos espíritos das afogadas vaguearem pela vila, por outro, na oportunidade seguinte descredibiliza-o.

As personagens sentem espíritos e algumas até falam com eles… Mas esta acaba por ser uma ponta solta que nunca é mais explorada, para além de ser apresentada.

Ainda assim, as descrições mitológicas e enigmáticas são talvez dos pontos mais positivos deste thriller.

O melhor: o suspense

Um livro deste género que se preze tem de ser exímio em manter o leitor agarrado às páginas.

Paula Hawkins fá-lo até bastante bem. Escrito na Água lê-se num trago quase exclusivamente devido ao suspense.

Em primeiro lugar, a escritora intercala os capítulos com as diferentes versões e visões dos personagens. Quase como uma espécie de fluxo de pensamento.

“Não sei se estava a mentir ou a dizer a verdade, mas, seja como for, merecia o que eu lhe disse, o que lhe fiz. Merecia tudo o que lhe aconteceu.”

Paralelamente, e para contextualizar o enredo vai mostrando também excertos de um livro Poço das Afogadas, de Nel Abbot, a personagem morta no começo.

O restante vem da sensibilidade de Hawkins e como resultado final, parece resultar muito bem. O leitor fica preso à história e vai-se criando um ambiente que parece anteceder um final brutal e intenso… Só que não.

Escrito na Água

Fonte: Wook

O pior: o restante

O que está mal com Escrito na Água podem ser muitas coisas, mas de grosso modo e no meu parecer, é tudo o resto para além do que elenquei acima.

Começando com as personagens. A maioria delas roça o cliché, especialmente no que toca aos adolescentes deste enredo: a rapariga problemática, a ‘boazinha’ que se perde em maus caminhos e o miúdo perturbado.

“Katie Whittaker, uma estrela da escola, uma estudante aplicada, uma criança sem problemas- foi chocante, inexplicável.”

Ainda que o rol de personagens-tipo não se fique por aí, a sua caraterização fica muito aquém. Isso resulta num conteúdo muito previsível e insípido.

Ainda que este género de livros já tenha sido escrito e reescrito (o que admito possa tornar difícil a inovação), já perto do final, Hawkins vai sugerindo de forma forçada um culpado- aquele culpado típico que claramente não cometeu o crime.

E o pior é que a história acaba por gravitar entre este jogo habitual até chegar a um culpado.

Este, ainda que inesperado, justifica o crime em sustentações muito ténues e insuficientes.

No fundo, Escrito na Água é uma fórmula já gasta mas que ainda assim parece resultar (pelo menos no que toca a vendas).

Ainda assim, não é um livro absolutamente desagradável de ler e talvez seja isso que o torne tão popular. A escrita é simples, a história tem segmentos interessantes, mas tudo isto é ‘embrulhado’ em muita psicologia barata, muito cliché e pouca originalidade.