Dunkirk, estreado no passado dia 20 de julho em Portugal, além de ter sido o primeiro filme de Christopher Nolan num cenário de guerra, marcou aquela que foi a sexta colaboração entre o realizador inglês e o compositor alemão Hans Zimmer. Por muitas críticas que os filmes de Nolan recebam, merecidas ou não, a verdade é que é raro ouvir ou ler alguém que arranje defeitos na área da concriação em que Zimmer é mestre e senhor: as bandas sonoras.

Desde 2005, O Terceiro Passo foi a única obra de Christopher Nolan que não foi musicada por Hans Zimmer. A trilogia Batman, passando por A Origem, Interstellar e agora Dunkirk; todos têm tido o cunho do alemão. Desde os anos 70, Steven Spielberg tem trabalhado com John Williams – outro mestre com um currículo vastíssimo, bem mais clássico – para o ajudar na iconicidade dos seus muitos filmes, mas nem ele espera pelo compositor para os editar.

Nolan espera. A colaboração entre ambos é tão organicamente interdependente que nenhuma cena sua começa a ser editada sem estar feita a música que a levará ao sítio que ele sabe a que vão chegar. O realizador encontrou em Zimmer o seu Williams.

Ao contrário de bandas sonoras anteriores, a de Dunkirk nunca se sobrepõe ao que vemos no filme, complementando-o, sem grandes protagonismos. Há muitas ocasiões em que é praticamente impossível discernir o que é a música orquestrada ou o som de um cenário de guerra que não deixa terra, mar ou ar em paz. Naquele que diz ter sido o seu projeto mais íntimo até à data, Hans Zimmer trouxe para as suas composições a tensão e suspense que sentiu ao ler o argumento e as histórias de Dunquerque.

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Não é por acaso que é referido o “Shepard Tone” quando se fala desta banda sonora. Quem vir e ouvir o filme percebe porquê. Essa técnica de ilusão auditiva dá-nos a sensação de um aumento constante de um tom que não pára por nada, dando-nos descanso precisamente apenas quando os soldados com quem estamos ao longo de 100 minutos o conseguem ter. Foi inspirado nessa técnica que Nolan, também argumentista do filme, o escreveu.

“De qualquer um dos filmes que já fiz, este foi o que teve a maior fusão entre música, imagem e efeitos de som”, confirma o realizador.

Mas Hans Zimmer já trabalhava muito antes de Christopher Nolan existir como criador, e o que não lhe falta no repertório são músicas e bandas sonoras emblemáticas feitas para filmes de outros realizadores. É, porventura, um daqueles exemplos de compositores que muitos conhecem apenas pelas suas obras, mas nem farão ideia que são dele ou simplesmente nunca estabeleceram ligação entre arte e o nome do artista. E a sua arte revela o quão eclético consegue ser o alemão que ainda hoje tem crises existenciais quando começa trabalhar num novo projeto.

Hans Zimmer na sua “fábrica de música”, retratado pela Variety

É atribuída ao compositor e músico de jazz Duke Ellington a máxima “há dois tipos de música: a boa e a má”. Sendo impraticável definir ambos os tipos – diz-se que os gostos não se discutem, não é? – podemos pelo menos afirmar que a boa costuma sobreviver com maior facilidade ao teste do tempo que a má.

Navegando por vários géneros e estilos musicais, goste-se ou não do seu trabalho, Zimmer é um dos compositores que tem sobrevivido a esse teste, à passagem dos realizadores com quem trabalha e dos públicos para quem trabalha. Ainda hoje, quase ano após ano, são inúmeros os exemplos de bandas sonoras feitas por si que marcaram e que nos continuam a marcar.

Filmes, séries, mas também videojogos

Desde os anos 80, são mais de 120 as produções que tem no currículo enquanto compositor e músico. Como se já não bastassem os filmes e séries, trabalhou ainda em vários videojogos porque nunca fugiu do que é diferente, tentando sempre inovar, desde criança: os sons que agora são os computadores a fazer por nós, Zimmer tentou em criança criá-los ao transformar o seu piano com serras e outros adereços menos ortodoxos, para gáudio do pai inventor e terror da mãe pianista.

Como nunca aprendeu música, o compositor alemão diz que tem sempre de escrever “de coração” e ser “completamente honesto” no seu ofício. Segundo Hans, é esta a vantagem que tem como artista. Aprendeu a tocar piano sozinho muito novo porque queria exteriorizar à sua maneira tudo aquilo que sentia, sem tocar as músicas dos outros. Aos seis anos, quando perdeu o pai, tocar piano para a mãe era a única coisa que a fazia sorrir e amenizava a sua dor, confessa. Antes de trabalho, a música tornou-se o seu refúgio, mesmo sem o saber.

Décadas mais tarde, em 1994, acabaria por trabalhar num filme em que a morte de um pai marca a história shakespeariana do protagonista. Mais de vinte anos depois, a morte de Mufasa ainda é traumática – para Simba e para nós –, e a culpa também é da música de Zimmer, que ganhou um Oscar por isso.

Rei Leão é, por isso, um dos grandes marcos da carreira do alemão, mas não foi o único filme de animação em que trabalhou. Ainda nos anos 90, o bíblico O Príncipe do Egipto contou com as suas orquestrações, mas é já neste século que surgem no seu currículo filmes como Spirit – Espírito Selvagem, O Gang dos Tubarões, Os Simpsons: O Filme, Madagáscar, Megamind, O Panda do Kung Fu e Rango. Para quem musicou os filmes oscarizados Miss Daisy, em 1989, e 12 Anos Escravo, em 2013, não se pode dizer que o compositor tenha objeções em trabalhar seja em que meio for.

Mesmo do outro lado do espectro de filmes acarinhados pela crítica e pelo circuito de prémios, Hans Zimmer nunca deixou de ser aclamado pela sua arte. Num desses casos em que a música é superior ao filme, a banda sonora de Pearl Harbor é porventura uma das melhores que o alemão já criou, juntamente com a de A Barreira Invisível ou The Pacific, ambas também em cenários de guerra. Como Dunkirk, poderão nem ser das que nos ficam na memória o suficiente para as conseguirmos entoar – como o são as do Piratas das Caraíbas, Sherlock Holmes ou ainda de O Código Da Vinci –, mas nem por isso deixam de conseguir tocar quem as escuta, com ou sem imagens a acompanhar.

Na sua carreira, ao redefinir aquilo que percecionamos como música e cinema contemporâneo, Hans Zimmer tem também redefinido a maneira como experienciamos o heroísmo e até mesmo a vilania no grande e pequeno ecrã. Veja-se o exemplo de Gladiador, em que os sons do épico criados por Zimmer são tão importantes como a terra do Coliseu que Maximus espalha nas suas mãos antes de lutar, ou como as pétalas que caem sobre si antes de alcançar a glória eterna. Por Portugal, houve até uma dessas músicas que entrou (porém, remixada) nos ouvidos de muitos através da política.

Mas nem só em filmes de época ou nos de guerra referidos há pouco Hans tem moldado o espírito da bravura; também o tem feito noutros géneros como o de super-heróis. Até hoje, é o único compositor que orquestrou temas para dois Batmans diferentes (o de Christian Bale e de Ben Affleck), para o Super-Homem de Henry Cavill e para a Mulher-Maravilha de Gal Gadot.

Mesmo depois de, em 2016, dizer que não voltaria a fazer mais nenhum filme de super-heróis, o seu carimbo nestas produções ainda perdura: Mulher-Maravilha, estreado este ano, ainda tem a sua marca através do tema marcante que criou para ela, e que deverá continuar a marcar o percurso da personagem nas próximas películas da DC, dado o enorme sucesso da mesma e da música.

Compasso a compasso, Hans Zimmer tornou-se num dos mais idolatrados compositores contemporâneos. E, tão ou mais importante que isso, é conseguir ser um dos mais intergeracionais artistas do século XXI, cativando públicos tão diferentes como o dos filmes em que participa.

O compositor de bandas sonoras que enche salas de espetáculos

Olhando para a história do cinema ao longo das últimas décadas, seriam muito poucos os seus colegas de profissão que conseguiriam encher arenas com concertos apenas da sua música, orquestrada para ser ouvida numa sala de cinema ou numa sala de estar, e não em palco.

Hans Zimmer Live on Tour é o nome do espetáculo que já navegou por sítios como Seul, Paris, Budapeste, Zurique, Sidnei, Chicago, Milão, uma mini-tour pelo Reino Unido e, ainda, dois concertos no festival Coachella“provando que o corpo humano pode dançar ao som de tudo”, segundo a The Verge.

Entre a sua música e o público que gosta de a ouvir, Zimmer retirou os filmes da equação e há mais de um ano que a toca diretamente para os seus admiradores e seguidores, esgotando grandes salas por toda a parte. Toda? Não! Mesmo depois de dezenas de concertos, o compositor ainda não tem nenhum agendado em terras lusitanas, que parecem ainda resistir à sua vinda.

O que nos traz, enfim, à questão que deu título a este texto: porque é que não trazem Hans Zimmer a Portugal? É verdade que, há poucos dias, foi anunciado que será editado e lançado um DVD/Blu-ray em novembro com a gravação de um concerto seu. No entanto, tal como os bons filmes merecem ser vistos no grande ecrã – já sei, “gostos não se discutem” –, também a boa música deve ser ouvida ao vivo e a cores, no grande espetáculo musical e visual criado por Zimmer em colaboração com dezenas de artistas e técnicos.

Por este país adentro, haverá de certeza espaços que consigam receber os muitos interessados em ver ao vivo um dos mais influentes e criativos mestres da nossa época. Para quem já brincou tanto com o tempo (e com a falta dele) nas suas composições, de certeza de que ele será bondoso o suficiente para não esquecer o compositor alemão tão cedo. Nós não esqueceremos, especialmente se o trouxerem cá.