É no verão que temos tempo para descansar mas, também, para nos cultivarmos por nossa conta e risco. A menos de duas semanas do fim do mês de agosto, não é despropositado sugerir que se inicie uma obra de peso: seja para voltar a encarrilhar o cérebro na leitura, seja para a abrir a mente. Aqui fica uma sugestão de alguns clássicos para ler na reta final deste verão ou para acabar de ler… no próximo verão.

A Bíblia

Fonte: Wook

O primeiro dos livros de cabeceira e a mais replicada das histórias. Com mais de 40 autores, 1500 anos de compilações e com relevância sagrada para as correntes judaico-cristãs, a Bíblia tem uma dimensão e uma importância incontornáveis na sociedade ocidental. Motivos mais que suficientes para ser o primeiro dos livros que tentamos ler, mal temos tempo disponível.

Existe ainda uma nova edição, traduzida do grego por Frederico Lourenço e vencedora do Prémio Pessoa 2016 que pode aguçar a curiosidade dos mais alheios.

Wook |

Odisseia, Homero

Fonte: Wook

A IlÍada e a Odisseia permanecem duas das histórias mais lidas e celebradas do imaginário ocidental (a seguir à Bíblia, claro) e quem nunca teve de ler, ou tentou, ou quis ler a Odisseia?

Ulisses tem uma demanda de dez anos envolto em personagens míticas e deuses coléricos. Telémaco e Penélope tentam afastar os pretendentes ao trono e à mão da “viúva” do guerreiro perdido na Guerra de Tróia. Será que Ulisses conseguirá voltar para casa a tempo? Será a sua identidade ainda reconhecida?

Wook| Tradução do grego de Frederico Lourenço

 

 

Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust

Fonte: Wook

São apenas sete os volumes que compõem esta obra maior da literatura mundial. E que melhor altura para começar do que ontem? Publicada entre 1913 e 1927, na recherche (alcunha da obra), Proust fala de guerra, de arte, da memória e até de homossexualidade.
Terminar um volume já seria um marco digno de nota.

Wook | Tradução de Pedro Tamen

 

 

 

Os Miseráveis, Victor Hugo

Fonte: Wook

Aparentemente é um hábito francês dar alcunhas às obras: Les Mis já foi musical, filme, série, filme musical, enfim… Mas tudo começa nos cinco gloriosos volumes e na tristíssima história de Fantine (ou Fantina).

Cerca de 655 478 palavras (no original francês). Dispensa que nos estendamos mais em apresentações.

Wook|

 

 

Guerra e Paz, Liev Tolstoi

Fonte: Wook

Война и мир no original. Uma ótima obra para se ler ao mesmo tempo (ou antes) da referida imediatamente antes nesta lista.

O impacto da era Napoleónica é um tema comum aos dois títulos, embora os pontos do globo sejam distantes e, para falar verdade, os autores não sejam assim tão semelhantes.

Enquanto desafio, não deixaria de ser interessante.
Esta obra do séc. XIX foi parcialmente publicada por uma revista da época e acabou por ter um sucesso tremendo. Tolstoi acabou por reescrever a história e por classificar a primeira versão de “repugnante”.

Embora Virginia Wolf tenha apelidado Guerra e Paz de “maior romance de todos os tempos”, esta história pioneira rompe com o género do romance e nega sucessivamente o livre arbítrio às personagens.

Wook | Tradução do russo de António Pescada

 

A Divina Comédia, Dante Alighieri

Fonte: Wook

“Lasciate ogni speranza, voi che entrate.”

“Deixai qualquer esperança, vós que entrais!”

Acabou-se! Não há portas, não há cadeados, só um portal a avisar que se deve abandonar toda a esperança de ir parar ao céu.

O poema épico do séc. XIV é uma jornada além da vida feita pelo personagem principal, Dante. A primeira parte desta obra, O Inferno, é a mais conhecida da alegoria. A trama está embrenhada em crítica social, nomeadamente com referências a duas famílias importantes da época (os Guelfi e os Ghibellini) e a varíadissimos Papas (pelos crimes de simonia, heresia etc…).

Dante atravessa o Inferno com o seu guia espiritual, Virgílio, passando pelos vários círculos de malfeitores que lá foram parar, enquanto come o pão que o diabo amassou.

Wook | Tradução de Vasco Graça Moura

 

Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski

Fonte: Wook

A obra começa num dia muito quente de inícios de Julho. Verão, Verão, já cá estamos…e se há quem se atrase a pagar as contas [spoiler de primeira página], certamente nós também podemos atrasar-nos a começar a ler.

Sem dar mais revelações sobre o enredo, tudo o que se pode dizer é que é um livro psicologizante, entre religião, moral e existencialismo…um exemplo puro de um Dostoiévski.

Wook| Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

 

 

Anna Karenina, Liev Tolstoi

Fonte: Wook

Tolstoi aparece aqui duas vezes, porém, “se não fosse Tolstoi, a literatura seria um rebanho sem pastor ou um caos incompreensível” disse Tchékov.

De Karenina houve curtas mudas em 1910 e filmes dinamarqueses em 1911. Seguiram-se todo o tipo de adaptações na Hungria, na Suécia e nos Estados Unidos (com Greta Garbo).

Depois, Viven Leigh, Claire Bloom,  Maya Plisetskaya no Bolshoi, (até adaptações egípcias com jovens desfavorecidos foram feitas!) Jacqueline Bisset, mini-séries, filmes para televisão e, a última versão, teatral e com um Vronski louro, em que brilha Keira Knightley.

Não é um romance muito animador, mas nem tudo o que é edificante nos encoraja. Tem também a vantagem de criar uns biceps dignos de qualquer veraneante que se preze. Para quem não conhece o história ou só viu o último filme, revelo, somente, que perdeu alguns dos pormenores mais importantes desta traição centenária.  Para um Verão completo aconselha-se não esquecer o prefácio de Nabokov.

Wook | Tradução de António Pescada

 

As Vinhas da Ira, John Steinbeck

Fonte: Wook

A Grande Depressão e o êxodo para a Califórnia são o pano de fundo do romance dos Joads. The Battle Hymn of the Republic, canção patriótica e uma passagem do Apocalipse são fontes para o título do clássico. A dignidade é posta à prova e o confronto impõe-se entre o indivíduo e a sociedade e as repetições de cenas bíblicas em plenos Estados Unidos recheiam o enredo da obra.

Para comparar o calor do momento com um momento de calor, ocupar o tempo com uma obra-prima da literatura norte-americana só é bom para o cultivo da mente.

Wook | Livros do Brasil

 

Leal Conselheiro, Rei D. Duarte

Fonte: Wook

Entre 1433 e 1438 (ano da sua morte) D. Duarte I, Sua Majestade, El-Rei de Portugal e do Algarves e Senhor de Ceuta, o Eloquente, o Rei Filósofo (rói-te Daenerys) escreveu um livro sobre ética e moral destinado aos membros da Corte. Segundo consta no prólogo do livro, compilou apontamentos pessoais realizados ao longo da sua vida, a pedido da Rainha, sua esposa, Leonor de Aragão.

É uma obra simples e intimista, mas pela sua antiguidade, pode ficar tempo demais à espera do “próximo Verão”. Curiosamente, o único manuscrito completo desta obra, encontra-se na Biblioteca Nacional de Paris. O Rei escreveu ainda um manual de equitação renomado Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela, calcula-se que, na mesma data que a obra supracitada. Ambos os livros estão disponíveis digital e gratuitamente.

O Livro do Desassossego, Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Fonte: Wook

O único livro português que integra a lista dos 100 melhores livros do mundo feita pelo The Guardian.

Introspetivo e fragmentário, este é um livro que se pode começar onde se quiser, continuar para onde se nos der no espírito e terminar no ponto final mais distante. A ordem é o caos e são vulgares as edições onde a disposição dos textos é completamente alterada. O encadeamento das folhas, segundo alguns amantes puristas da obra, devia ser mesmo à revelia da edição para que se deixasse a cargo do leitor a sequência da leitura “histérico-neurasténica” da obra do ajudante do guarda-livros da cidade de Lisboa.

Wook

As Mil e Uma Noites

Fonte: Wook

Não é assim tão comum como clássico de Verão, é certo, mas há coisas que se tornam inolvidáveis e ouvir uma pessoa dizer que quer ler este livro “durante as mil e uma noites de Verão” é uma coisa que marca qualquer ser humano.

Não se sabe ao certo quando é que o Verão dessa pessoa terminará, mas posso afirmar que Xerazade adiou algumas coisas ao longo da sua narrativa ao sultão Xariar, rei da Pérsia. A obra tem várias origens, tais como, persa, árabe e folclore indiano. Desta coletânea faz parte Aladin, uma das histórias mais conhecidas de todos nós.

Wook | Tradução de Hugo Maia