Damon Albarn: o versátil génio que foi além do britpop

Existem performers, existem músicos completos e existe Damon Albarn. De Leytonstone para o mundo, há mais de vinte e cinco anos que o artista inglês é música para os nossos ouvidos – literalmente. É, na verdade, um pequeno Einstein da esfera musical que vive entre nós e nunca sucumbe à cultura do ócio (nem do óbvio).  

O interesse pela música começou muito cedo e a vontade de compor sempre esteve presente. Não era popular na escola, mas lá conheceu o cool kid Graham Coxon com quem viria a fundar os Blur. Nos dourados anos de faculdade, Dave Rowntree e Alex James juntaram-se ao duo e nasceram oficialmente os Blur, a banda de uma geração.

Blur: britpop e os loucos anos 90

Não é apenas a banda de Song 2 nem o cantor com aquele sotaque britânico inigualável: Damon Albarn desde cedo provou ser capaz de fugir ao habitual. Apesar de ter sido incluído na cena do britpop e nas guerrilhas com os rivais Oasis, Albarn foi crescendo e o seu songwriting amadurecendo.

O recém-nascido Leisure foi o ponto de partida, seguiu-se o pouco amado Modern Life is Rubbish e o pináculo da banda Parklife, que definiu a era do britpop. 13, lançado em 1999, foi o auge criativo de Albarn e companhia: um álbum inovador, mais ambicioso e emocional que os restantes. A nova era experimental fazia dos Blur uma banda finalmente adulta e fora das crises de identidade.

Think Tank foi a promoção de Damon Albarn a chefe da banda e, em finais dos anos 90, em parceria com o artista plástico Jamie Hewlett, criou os Gorillaz. O novo projeto dos britânicos era totalmente original aos olhos do mundo: uma banda de cartoons em início de milénio? A ideia era promissora.

O génio criativo de Damon conquistou tudo e todos com as novas influências hip-hop e eletrónica num mix nunca antes visto. O músico poderia ter sido só “o cantor dos Blur”, contudo a resiliência venceu e lançou-se em projetos peculiares.

Música no coração e projetos em ação

The Good, The Bad & The Queen é uma parceria de Damon com Paul Sinomon (The Clash), Tony Allen e Simon Tong (The Verve); Rocket Juice & the Moon com Flea (Red Hot Chilli Peppers); algumas colaborações frequentes com músicos africanos no projeto Africa Express e outros tantos. “Abrandar” é palavra sem significado no dicionário de Albarn.

Sempre com a música no coração e o teatro no bolso, juntou o útil ao agradável com a produção Monkey: Journey to the West, uma ópera chinesa com o inglês responsável pela composição musical. Em 2015, wonder.land, um musical adaptado de Alice no País das Maravilhas, teve novamente Albarn como responsável na música. A diversidade e complementaridade das áreas em que Damon Albarn trabalha surpreende-nos cada vez mais, embora tenha sempre a música como o âmago da sua criação artística.

A nostalgia, a transformação e a solidão

Everyday Robots chegou tarde, como muitos dizem, mas também o vinho do Porto demora a maturar. Um álbum intrinsecamente pessoal e sem grandes apetrechos, é o livro de recortes de Damon.

Faltam palavras para descrever Damon como compositor, músico e, principalmente, como humano. Melancolia, alienação e solidão – a Santíssima Trindade que compõe a narrativa pessoal do britânico. As memórias, a vida, a idade adulta, o mundo e a mudança inspiraram Albarn a, mais uma vez, se transcender. Aparenta ser easy-going, no entanto é um artista taciturno daqueles que nos transtornam e viram a alma do avesso.

Há algum tempo tivemos David Bowie como o maior criativo no mundo da música e, mesmo sem termos de comparação, é inegável alguma semelhança de Damon com o compatriota, na multiplicidade de projetos e vertentes. Albarn almeja sempre mais e melhor e é por isso que é considerado um dos artistas mais “fora da caixa” das últimas décadas.

O extraordinário caso do génio escondido

Nos últimos dois anos, um novo álbum dos Blur saiu e inúmeras reuniões aconteceram. As relações restabeleceram-se na banda e fora dela, com Hewlett nos Gorillaz, tal como a vida adulta dá e tira. Este ano, o tão esperado regresso da banda virtual aconteceu com Humanz e já conspiramos acerca do próximo projeto do incansável Damon.

Todos conhecem o seu nome, a banda ou já lhe viram a cara algures. Não é nenhuma jovem promessa na música. Os ossos do ofício já pesam e os quase trinta anos de produção artística fazem dele um veterano. É um génio underrated e com uma capacidade camaleónica que poucos conseguem trazer às costas. Posto isto, Damon Albarn é o homem dos sete ofícios que, no dobrar do milénio, multiplicou o génio. A verdade é que, quando finalmente rolarem os créditos, o nome Albarn vai lá sempre estar.

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