Vodafone paredes de coura 2017
Vodafone Paredes de Coura/Hugo Lima

Vodafone Paredes de Coura: a música é para sempre (I)

Começou ontem a 25.ª edição do Vodafone Paredes de Coura, debaixo de uma chuva de parabéns e algumas palavras de ordem. O habitat natural da música está de novo preenchido com a sua espécie favorita: os amantes da música.Diz-se que não há amor como o primeiro e Paredes de Coura foi, para esta que vos escreve, o primeiro festival de sempre. O calendário estava parado noutro milénio e o bilhete custara apenas cinco contos mas Suede, Bush ou Lamb mais o rio e o anfiteatro natural fizeram com que este fosse o sítio onde regularmente haveria de voltar.

A comemorar as bodas de prata, com edições regulares, o festival Paredes de Coura veio-se assumindo como um festival com uma aura especial, não só pelo ambiente proporcionado pelo Alto Minho mas sobretudo pela oferta musical, que procura escapar ao mainstream e demarcar-se – apesar do amplo crescimento nos últimos anos – dos cartazes que os diversos festivais oferecem.

A prova disso é que a edição que ontem arrancou ao fim da tarde iniciou com a Escola de Rock, coletivo de courenses que tem semeado e propagado o prazer da música alternativa, constituindo uma orquestra. Se, por um lado, mostra os valores musicais locais, por outro, promove a literacia musical. Honras de abertura do palco principal dadas e bandas que já passaram por Coura foram homenageadas – Arcade Fire, dEUS, Queens of the Stone Age, Pixies ou  PJ Harvey – e o festival iniciava-se da melhor forma.

De seguida, os The Wedding Present presenteavam-nos com George Best, disco a cumprir os 30 anos e a fazer as delícias da velha guarda. Uma espécie de jogo de velhas glórias que durante a tarde se mostrou nos balneários do Praia Fluvial no primeiro concerto inserido nas Vodafone Music Sessions.

Mantendo o relógio parado lá atrás, foi hora de os Mão Morta oferecerem Mutantes S. 21 ao largo conjunto de indefetíveis que desde sempre acompanha a banda. Adolfo Luxúria Canibal não abandonou nunca os elogios profundos ao festival, pedindo mesmo que se cantassem os parabéns.

Interpretou vocal e fisicamente cada tema, com o empenho e quase agonia que se lhe conhece; viajou por outros temas como Velocidade Escaldante, marcando este como um dos concertos mais bem falados desta noite de arranque.

As viagens além-Coura

Se com os Mão Morta viajámos de Paris a Barcelona, passando por Istambul e Budapeste, com os Beak fixámo-nos em Bristol, banda do compositor que acompanhou os Portishead, Geoff Barrow. Com uma notável carreira às costas a música oferecida pelos Beak é, claramente, de imensa qualidade e demonstra uma inquietação permanente. A crítica à sociedade atual não é descurada, não faltando algum humor nem distorção q.b. Só o som é que poderia estar mais alto.

Depois da prestação interessante mas tranquila dos Beak, chegaram os Future Islands para partir a loiça toda, culpa (claro!) de Sam T. Herring, fera de palco, dono da voz mais sensual e cavernosa, de olhar sedutor e assassino, que bate no peito com a energia com que faz uma lapdance.

É assim desde Ran, logo a abrir, com A Dream of You and Me ou na muito aplaudida Seasons (Waiting on You). Muitos dos temas, sabemo-lo, parecem iguais: “Já não tocaram esta?”, comenta alguém ao nosso lado, mas a entrega em palco de Sam faz esquecer essas construções mais repetitivas e a sensação, no fim do concerto, é de termos estado presente um animal de palco que se entrega à interpretação de corpo e alma. Foi assim desde a primeira vez que passaram em Portugal, no Musicbox.

E para não destoar eis que Kate Tempest entra discretamente em palco e agarra no microfone, começando por explicar que se sente muito honrada de estar no Vodafone Paredes de Coura, apresentando desde logo a banda que a acompanha.

A inglesa explica ainda que está ali para contar Let Them Eat Chaos, a história-disco que lançou no fim do ano passado e que tem levado a inúmeros palcos. Um exercício performativo que ultrapassa qualquer barreira do hip hop, que é spoken word mas que é sobretudo uma arma. Que nos põe os dedos nas feridas enquanto cidadãos, pessoas e seres minúsculos e mesquinhos num universo tão maior e mais complexo, diz.

Que nos lembra que a Europa está perdida e que só haverá justiça, recompensa, humildade, confiança, quando o amor for incondicional. Entre a prestação sentida das palavras e o balanço das batidas eletrónicas (banda fabulosa a acompanhar Kate, sublinhe-se) fica sobretudo a mensagem que não nos sai da cabeça desde ontem. A música é amor e o amor deve ser incondicional.

O Vodafone Paredes de Coura continua hoje já com dois palcos e tocam, entre outros, You Can’t Win Charlie Brown, Car Seat Headrest e At The Drive In.

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