história

Sami, queres ouvir uma história “tristi”?

Esta história não será tão “tristi” como aquela que Bruno Aleixo contava a Samuel Úria, num vídeo que dançou a internet, sobre a morte esfomeada de um bebé graúdo. Ainda assim, fala sobre despedidas e coisas tão angustiantes como saber se “no céu tem pão”. Gostava de perder uns minutos a escrever para ele – para o Sami de Tondela – e para todos vós. É sobre Cem Soldos e o Bons Sons. Vocês vão gostar.

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Para os mais experientes em matéria de festivais de verão, este é o “festival dos festivais”, o “que mais e melhor promove a cultura portuguesa” e o “mais genuíno de todos”. Para os mais novos, desde os 4 aos 24, é o “mais fixe”, o “melhor” e o “único que tem burros para passear”. Não sou eu quem o diz. São elas, as pessoas. Dos 4 aos 94, todos fazem parte desta família que se junta há vários anos, durante uma semana, em Cem Soldos.

Os nossos olhos atentam o descampado multicultural que se agiganta desde o palco Giacometti até ao Tarde ao Sol, e aí, nada feito. Somos derrotados por uma força vinda sabe-se lá de onde, mas que sabe tão bem. Largamos um sorriso involuntário e nem o cheiro a incêndio constante desvia a atenção daquilo que interessa: as pessoas.

“O que o nosso Bons Sons tem a mais que os outros é a humildade e a genuinidade. A humildade e a noção que precisamos de todos para que continue a existir”. Alexandre Santos, voluntário.

Há uma música neste novo álbum de Samuel Úria, o Carga De Ombro, que se chama É preciso que eu diminua e que retrata em parte, aquilo que Cem Soldos e que o Bons Sons significam. Eu explico: para se entrar neste festival de verão, é preciso que cada um de nós diminua. Um sentimento espontâneo que se expande a todos. Somos abalroados pela maior lição de humildade de todas: as pessoas.

Mas afinal, serão estas borrifadelas de modéstia e simplicidade que tornam o Bons Sons tão especial? Há quem ache que sim. “O que o nosso Bons Sons tem a mais que os outros é a humildade e a genuinidade”, refere Alexandre Santos, cem soldense de gema e voluntário do festival.

“A humildade e a noção de que precisamos de todos para que continue a existir. Precisamos dos nossos voluntários de fora, e dos da terra. São eles que nos disponibilizam os terrenos para estacionamentos, campismo, alojamentos ou até restaurantes”, acrescenta.

As pessoas, sempre as pessoas 

Há um livro que eu aprecio particularmente que se chama Desumanização. Nele, Valter Hugo Mãe, autor da obra, define – recorrendo à metáfora – o fim último da nossa existência. Diz ele que “a beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar (…) no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro”.

“Já ouvi dizer inúmeras vezes que estamos noutro espaço temporal e concordo a 100% com isso. Este é um factor de diferenciação. Não pensamos o festival para um público. Pensamo-lo para toda a gente”

A beleza do festival é sempre alguém. E acontece porque o posso partilhar com pessoas de todos os lados. O Bons Sons, o melhor festival em Portugal, é feito por quem lá vive e por quem o visita. Sim, é isso. O festival é a aldeia que o faz. Não são os artistas. Lamento, Sami. A ideia que fica, depois de voltar a encaixar as tendas, as mochilas e as arcas na mala do carro para regressar a casa, é que este festival tem tudo para durar até a eternidade. O jornal Público escreve isso mesmo aqui.

E ao falar em pessoas, estamos a falar de todas as pessoas. O festival é feito a pensar em miúdos e graúdos e até quem veja semelhanças com o “festival do Panda”. Os festivaleiros convivem com os locais, e numa dessas conversas com um festivaleiro – eu – e um habitante local – o Alexandre – o multiculturalismo surgiu como tema de conversa.

Dizia-me ele que não sou “o único a pensar assim”. “Já ouvi dizer inúmeras vezes que estamos noutro espaço temporal e concordo a 100% com isso. Há programação para os miúdos ficarem entretidos ao mesmo tempo que há concertos. Este é um factor de diferenciação. Não pensamos o festival para um público. Pensamo-lo para toda a gente”. 

Depois de termos sido albaroados em knock-out para o tapete com Barbarella e Barba Rala, as mesas ao fundo, longe do pó, eram o lugar ideal para empurrar as emoções lá para baixo com uns copos de cerveja. Chegou-se a nós um cem soldense que mostrava orgulhosamente a pulseira de habitante. Em conversa dizia-nos que: “A grande alma deste festival são as pessoas. A interação intergeracional, a boa disposição dos festivaleiros. Mas o essencial aqui são as pessoas que cá vivem”.

Ser-se voluntário na própria aldeia

Alexandre Santos, de 24 anos, está de corpo e alma no festival. Tenta ao máximo levar o nome da aldeia o mais longe possível e o brilhozinho nos olhos – lugar comum preenchido – está lá assim que o nome de Cem Soldos vem à baila. Desde 2006, para comemorar a celebração dos 25 anos do SCOCS – associação de Cem Soldos -, “tudo mudou“. A partir dessa data foi “sempre a subir“.

Não precisamos de receber nada. Já ganhamos e muito por ver a imprensa deliciada e os festivaleiros felizes a curtirem o festival. Não há dinheiro que compre isso”

Conta-nos o Alexandre, entre uns quantos telefonemas para saber se estava tudo a correr dentro do previsto, que “as pessoas sentem-se integradas num projeto comunitário porque sabem que estão a trabalhar para a aldeia e para o seu futuro. Se quisermos manter as pessoas aqui, este é o caminho”.

Numa altura em que o interior só é notícia no verão, devido aos incêndios, a desertificação toma conta destas aldeias fechadas dentro do país. Mas não em Cem Soldos: “A escola esteve em risco de fechar e agora já temos mais uma turma. As pessoas querem vir para cá e isso enche-nos de orgulho. E ganham todos. Os cafés, mercearias, professores, pais, crianças. E tudo graças à associação e ao Bons Sons”.

No fim o que interessa é o “bem comum”. Para ele, e para os outros 349 voluntários, ganhar dinheiro com este trabalho nem lhes passa pela cabeça. Fazem-no sem “precisar de receber nada em troca”.

Em jeito de conclusão, e para acabar a nossa rápida conversa durante o pouco tempo livre, ele confirma com as palavras aquilo que os olhos já tinham dito desde o início da conversa: “Não me importava de passar por tudo novamente para voltar a ter a aldeia cheia. Não precisamos de receber nada. Já ganhamos e muito por ver a imprensa deliciada e os festivaleiros felizes a curtirem o festival. Não há dinheiro que compre isso”. 

A aldeia cultura

O Bons Sons existe graças a uma política de investimento na cultura na aldeia. Não só em agosto, mas também durante todo o ano há concertos, palestras e atividades culturais para todos os gostos. João Mourão, responsável pela mítica Adega de S. Pedro, um dos locais de passagem obrigatória no Bons Sons, diz-nos que o festival “abre portas a projetos com a escola e com o resto da população”.

Sempre numa ótica cultural. “Para a aldeia e para a cidade [de Tomar] traz uma panóplia de turistas com interesses diferentes, temos tido feedback de pessoas que vêm ao festival e acabam por voltar durante o ano para visitar a cidade. Todos ganhamos“, conclui.

O Bons Sons é cultural e inovador até, imagine-se, na pinga. Vou dizer só isto e saio: charolinha. A bebida tradicional do festival foi criada para que cada espaço tivesse uma bebida típica. Existem ” o Tixão e a Sangria de Cem Soldos”, outras bebidas típicas e agora, a Charolinha, que já existia antes da Adega de São Pedro foi adaptada para que no festival “tivéssemos um espaço típico e tradicional como a nossa conhecida Adega”.

Ao jornal Observador, Luís Ferreira dizia que o festival  “não tem uma empresa por detrás. A população de Cem Soldos participa e não apenas no acolhimento dos visitantes. Participa de raiz. Eu posso, como diretor, querer que haja Bons Sons. Se a aldeia decidir que não, não há”. E esse facto, de não ser gerido por marca alguma e do festival ter o suor e o brio de todos os cem soldenses, faz com que, ao contrário dos outros festivais, eu tenha a certeza que para o ano farei novamente parte da história desta grande família.

Há uma saudade típica de quem abala de Cem Soldos, no fim do festival. Uma saudade diferente daquela que sentimos por alguma pessoa ou outro qualquer lugar. Não há festival que nos marque tanto como este. O adeus ao Bons Sons, por tudo o que foi dito e escrito aqui em cima, é cada vez mais doloroso. Quem lá vai é dominado pela saudade do que fica. A caneca de todos os anos, o mesmo borrifador de água, as mesmas pessoas, os mesmo rituais. Tudo isso é agora recolhido no armário e na memória, mas sempre com a ideia de que será temporário.

Sami, canta lá esta bem alto,

Teremos para sempre Cem Soldos. Até já.

Fotografias gentilmente cedidas por Iolanda Pereira, João Duarte e pela organização do Bons Sons. 

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