A ausência de transmissão pela RTP dos Mundiais de Atletismo em Londres, entre 4 e 13 de agosto, gerou polémica e reações de desagrado de espectadores, atletas e entidades desportivas. Foi entretanto noticiado, pelo Correio da Manhã, que os direitos até 2030 dos Mundiais teriam custado 500 mil euros à RTP, mas o Espalha-Factos apurou que esses valores podem estar errados.

A competição, onde Nelson Évora e Inês Henriques venceram medalhas, foi transmitida em Portugal apenas no cabo, através dos canais Eurosport. Os Campeonatos do Mundo de Atletismo eram tradicionalmente emitidos na RTP2, que ainda no passado mês de março emitiu os Europeus em Pista Coberta. No ano passado, a RTP já não transmitiu os Mundiais de Pista Coberta realizados em Portland, nos Estados Unidos.

Jorge Vieira, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), considerou “humilhante” a não transmissão da competição na estação pública. “Não é só pena a RTP, canal público, não transmitir um campeonato destes, como não transmite de outras modalidades e que também é um motivo de grande desconsolo, de grande desespero até, de algumas modalidades que não têm visibilidade. Para nós, é altamente criticável“, condenou Jorge Vieira.

Também o Comité Olímpico Português (COP) reagiu em comunicado, criticando o “progressivo afastamento do desporto, nas suas mais diversas modalidades, do espaço público televisivo“. José Manuel Constantino, o presidente do organismo, pediu mesmo “esclarecimentos” e “apuramento de responsabilidades“, relembrando que a participação de atletas portugueses em fases finais de Mundiais ou Europeus está incluída na lista de acontecimentos de interesse generalizado do público emitida anualmente por despacho do Ministério da Cultura.

Em reação aos protestos, a RTP esclareceu que não conseguiria suportar os custos de transmissão dos Mundiais de atletismo. “As ambições financeiras da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), no que diz respeito aos direitos de transmissão televisiva dos Mundiais de atletismo, tornaram-se incomportáveis para a RTP”, lê-se num comunicado enviado pela estação pública na passada segunda-feira. A empresa pública diz também que em 2013 alertou a FPA da impossibilidade de transmitir os Mundiais.

A RTP defendeu-se das acusações de que foi alvo, relembrando o “enorme esforço financeiro” feito para adquirir os Europeus de atletismo até 2019, e acrescentando que prevê emitir este ano “mais de 400 horas” dedicada às modalidades. A televisão pública relembra também a “transmissão inédita dos campeonatos nacionais de estrada” neste ano, e o “retomar da exibição dos campeonatos nacionais de corta-mato, algo que não acontecia há mais de uma década“.

nelsonevora

Nelson Évora conseguiu uma medalha de bronze nestes Mundiais de atletismo, com 17,19 metros.

Quanto custam afinal os direitos dos Mundiais?

A empresa pública qualificou os valores pedidos pela IAAF como “incomportáveis“, mas não os quantificou. Segundo a edição desta quarta-feira do Correio da Manhã, o valor em causa seria de 500 mil euros referentes ao período até 2030. Ou seja, meio milhão de euros seria o custo para a RTP para transmitir sete edições dos Campeonatos do Mundo, que se realizam de dois em dois anos. O jornal diz também ter apurado que a RTP recebeu 30 mil euros como contrapartida da FPA pela transmissão de cada uma das provas nacionais de atletismo.

Contudo, e segundo apurou o Espalha-Factos, os valores poderão ser bastante diferentes dos citados pelo Correio da Manhã (CM). Os 500 mil euros que são referidos na notícia do periódico não seriam sequer suficientes para adquirir os Mundiais por quatro anos, período pelo qual são negociados com a IAAF os direitos de transmissão. Este período de quatro anos corresponde a duas competições, uma vez que a prova é bienal.

Segundo fonte ligada à negociação, os direitos de transmissão para o próximo ciclo de quatro anos, que inclui os Mundiais de 2021 e 2023, ainda nem sequer foram disponibilizados para aquisição.

Relativamente aos pagamentos feitos pela FPA à RTP relativos à transmissão das provas nacionais, o Espalha-Factos apurou que alguns custos de produção poderão recair sobre a federação, mas em valor inferior aos 30 mil euros referidos na notícia do CM.