A originalidade, a verdadeira originalidade, já mal dá sinais de vida em Hollywood. Entre os trezentos blockbusters, sequelas, spin-offs, e universos cinematográficos com que somos bombardeados o ano todo, todas as semanas, damos por nós a perguntar onde é que isto irá parar – e a ascensão da televisão face ao descrédito do cinema só confirma este impasse. É no meio disto tudo que nos aparece este verão Emoji: O Filme. A obra mais oportunista da década, o filme que ninguém pediu e ainda assim tivemos, provando que já tudo conta para fazer dinheiro nas bilheteiras. E que ideia mestra está por detrás deste conceito tão “original”?

Dentro da app de texto do smartphone de Alex está Textopolis, uma cidade onde todos os emojis vivem, à espera de ser selecionados para integrar uma mensagem. Num mundo onde cada emoji tem apenas uma expressão facial, Gene é um emoji que, nascido para ser sempre “bah”, não tem filtro, e multiplica-se pelas mais variadas expressões. Apanhado em falso no seu primeiro dia a ser scaneado para compor uma mensagem, Gene torna-se uma ameaça à estabilidade de Textopolis, governada pela instável Sorridente, e acaba por se tornar um fugitivo. Determinado a ser “normal”, vai contar com a ajuda do seu amigo, Hi-5, e com a famosa hacker emoji, Rebelde. Juntos, embarcam numa aventura em fuga, através das apps do telemóvel, a fim de chegar à cloud e poder corrigir Gene – antes que seja tarde de mais.

emoji o filme

À partida, a premissa de Emoji: O Filme nem aparenta ser totalmente aberrante. Não o é; a preguiça de fazer algo digno de nota, com este ponto de partida caricato, é que o é. Emoji: O Filme é total e demasiadamente fácil para todas as suas possibilidades.

A fita de Tony Leondis é daquelas que se serve de caminhos narrativos despropositadamente complicados para encher a bobine e criar efeitos dramáticos – e ainda assim o resultado final são uns anémicos 86 minutos, a contar com os créditos. Quer-nos passar um atestado de burrice, mas só a facepalms nos obriga. O facto de que inventa este smartphone completamente irreal, do ponto de vista mais infantil (sim, a meio de uma formatação seria mesmo possível parar e recuperar tudo, claro…), noutra ocasião até nos levaria a desculpar a ingenuidade, mas esta obra é tão pouco ingénua dum ponto de vista comercial que nos obriga ao cinismo.

No campo do moralismo barato, a mensagem do “devemos ser nós próprios”, vista em quase todos os filmes de animação desde o início da história do cinema, já cansa, ainda para mais quando exposta desta forma tão oca, sem mais propósito que não o de ser o foco deste conto tão básico. Algures ainda tentam introduzir o feminismo, mas, só com uma frase de uma personagem, nem chega a fazer ondas.

O humor do guião também nunca chega a levantar voo. Faz-nos rir por vezes, mas é mais de vergonha alheia e do ridículo, do que propriamente por ter alguma piada verdadeiramente elaborada. Ninguém devia ter que pagar para ver um emoji high five falar constantemente de dedos e ingerir gomas já previamente engolidas (gomas, sim, o Candy Crush também é um local de paragem aqui), ou emojis de cocó a congratularem-se por serem… cocó.

emoji o filme

O mais revoltante de tudo, no entanto, é o facto de que Emoji: O Filme nunca chega a ser o filme que verdadeiramente quer ser. O pior é que talvez nem saiba que filme quer ser. Há aqui potencial para acidez do estilo Salsicha Party (2016), mas essa rota talvez fosse demasiado arriscada para um conceito que foi logo encarado com tanto descrédito. A fim de fazer render o peixe, fica-se por um meio-termo entre isso e a infantilidade total, um tom mais do estilo de O Filme LEGO (2014) – o problema é que falta a astúcia e inteligência para chegar a bom porto.

“maravilhas” piores em sala atualmente (como A Múmia e Baywatch – Marés Vivas, em si também grandes pérolas…), portanto, não, Emoji: O Filme não é o pior filme que já vimos. Mas entre um conceito, à partida original, tratado com desleixo, a aliar a uma crise de identidade tão forte quanto a do protagonista, Emoji: O Filme é um dos piores filmes-evento que já chegaram aos ecrãs, e uma das animações de Hollywood mais fracas de sempre – é que nem o 3D se safa aqui, por incrível que pareça.

Parece mentira, mas havia forma de fazer algo bom a partir daqui. Mas isto… isto são só 86 minutos de puro “bah”.

 

💩/10

Título original: The Emoji Movie
Realização: Tony Leondis
Argumento: Tony Leondis, Eric Siegel, Mike White
Vozes (versão portuguesa): Vasco Palmeirim, César Mourão, Mafalda Luís de Castro, Ana Guiomar, Pedro Ribeiro, Claudia Cadima, Diogo Beja, Joana Azevedo, Luísa Barbosa, Ana Isabel Arroja, João Vaz, Ana Martins, Wilson Honrado
Género: Animação, Aventura, Comédia
Duração: 86 minutos