Sabes que estás perante um bom filme de acção quando, dias depois de o veres, ainda estás a pensar em como é que a equipa conseguiu dar corpo a algumas das suas melhores cenas. Mas “valor técnico” nunca foi sinónimo absoluto de “sucesso de bilheteira”, muito menos em cinema de acção. Dredd (2012) e No Limite do Amanhã (2014) têm sequências repletas de adrenalina, mas acabaram por se tornar num desastre financeiro: foram (muito) bons exercícios e havia espaço para melhorar no capítulo seguinte, mas a bilheteira não deixou.

Entra em cena Atomic Blonde – Agente Especial. Realizado por David Leitch (John Wick), protagonizado e produzido por Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria) e adaptado por Kurt Johnstad (300) a partir da banda-desenhada de Antony Johnston e Sam Hart, The Coldest City.

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A agente do MI6 Lorraine Broughton (Theron) é enviada para Berlim, dias antes da queda do muro, na esperança de recuperar uma lista de agentes duplos. 10 dias depois, Broughton é interrogada pelos seus (não) superiores sobre o que se sucedeu na missão.

Este modelo de narrativa (duas linhas temporais, uma em que alguém narra a acção e outra a mostrar a acção) funciona em casos particulares: Os Suspeitos do Costume (1995), em que a história é contada por uma personagem secundária; Grand Budapest Hotel (2014), em que o interesse é perceber como o protagonista chegou onde chegou; e Forrest Gump (1994), onde se conhece a personagem titular.

Em Atomic Blonde nada disto acontece. Se fosse uma personagem secundária a narrar a ação, o suspense de não sabermos o destino de Lorraine seria mantido. Se ela estivesse incrivelmente diferente de um ponto da história para o outro, interessaria saber como ela lá chegou. A verdade é que chega o fim da longa-metragem e não se sabe muito mais sobre a protagonista do que no início.

A própria Theron admitiu, aquando da estreia do filme no festival SXSW, que lhe interessou muito o facto de sabermos pouco ou nada acerca da sua personagem. “Quisemos subverter as histórias que são atribuídas a mulheres de força. Não se sabe se a Lorraine perdeu um filho, um marido (…) Ela simplesmente é forte.” Foi um risco calculado, mas que, ainda assim, não nos permite preocupar com o destino da agente do MI6.

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Não obstante, Charlize, umas das melhores atrizes em atividade, consegue uma interpretação profunda e cheia de pormenores que, acredito, não estavam de todo estipulados no guião. Está tudo na linguagem corporal medida ao milímetro, na expressividade do seu olhar e na pessoa com quem contracena. Há várias camadas da personagem que nunca são reveladas, mas que a atriz nos permite vislumbrar através do seu trabalho.

James McAvoy, num papel semelhante ao que desempenhou em Filth (2013), deslumbra em cada cena através de um carisma sujo, próprio de quem fará tudo para sobreviver. Sofia Boutella, John Goodman, Toby Jones e Eddie Marsan completam um elenco que brilha com o pouco tempo e profundidade que lhes é dado.

Isto porque o destaque do filme é centrado, de forma absolutamente clara, nas cenas de ação. A maioria das personagens são espiões, por isso (e porque por vezes a edição não ajuda) é complicado compreender as suas motivações… exceto quando estão reduzidos ao instinto primitivo de pontapear alguém na boca. Leitch, que tem quase uma centena de títulos no currículo enquanto duplo de cinema, sabe perfeitamente como apresentar uma cena de ação da forma mais efectiva. O som é cru e a câmara dá espaço para que cada movimento seja discernível e a complexidade das técnicas de combate utilizadas seja apreciada em toda a sua gloriosa violência.

Existe um plano contínuo no princípio do terceiro ato do filme. Tal é a complexidade, brutalidade e habilidade na sua execução que vale o bilhete por si só.

Crédito, mais uma vez, a Theron, que se demonstra extremamente capaz de combater de forma realista. Este realismo significa que Lorraine vai (quase) sempre estar numa posição de desvantagem em relação aos seus adversários masculinos, o que confere ainda mais tensão a cada uma das lutas.

Pena o sentimento de repetição que se cria pelo meio: diria que em 90% das cenas sem ação, Charlize e McAvoy fumam ou bebem. Fica a ideia de que o realizador não se lembrou de mais nada para lhes preencher os momentos em que reflectem o seu próximo passo.

A fotografia, alicerçada na constante presença de néons vermelhos e azuis e numa composição altamente estilizada, pode provocar saturação nalguns, mas também deixar outros de boca aberta com a sua constante inventividade.

A banda-sonora, pontuada por algumas covers contemporâneas e originais de Depeche Mode, George Michael, Duran Duran e Public Enemy, tem uma espinha dorsal que vai de Bowie a Bowie. O músico britânico gravou três álbuns em Berlim, entre os anos de 1976 e 1979, sendo este filme, admitidamente, uma homenagem ao mesmo. David tinha sido até convidado para um pequeno papel, algo que nunca se veio a materializar.

Leitch quis usar a Guerra Fria como metáfora para as personagens e não apenas como cenário. Teve sucesso, muito devido ao talento dos seus atores e às cenas de pancadaria, mas ainda lhe falta alguma delicadeza, subtileza e bom senso nos momentos mais íntimos. Sendo este o seu primeiro esforço a solo, creio que está num bom caminho para evoluir enquanto realizador de ação. O seu próximo projeto é a sequela de Deadpool, que tem estreia marcada para 2018.

Há várias (boas) ideias que são apenas brevemente exploradas. A pior cena de ação do filme é gravada em contra-luz sobre uma projecção de um clássico de Andrei Tarkovsky. Cria-se, assim, um contraponto interessante para o sítio onde Lorraine está física e mentalmente. O niilismo, ostentando pela pouca informação do argumento, faz com que a protagonista seja o único ponto de sanidade num eixo este-oeste que nunca fica explicito.

E, apesar do seu valor técnico indiscutível, havia espaço e aptidão de todos os envolvidos para criar uma narrativa mais forte e não alicerçada no habitual MacGuffin e em relações vazias. Foi um bom exercício: se a bilheteira deixar, no próximo fazem melhor.

6.5/10

Título: Atomic Blonde – Agente Especial
Realizador: David Leitch
Argumento: Kurt Johnstad
Com: Charlize Theron, James McAvoy, Sofia Boutella, John Goodman.
Género: Acção.
Duração: 115 minutos