O Espalha-Factos esteve presente na ante-estreia VIP de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, o novo filme do lendário realizador francês Luc Besson. Caras conhecidas do público nacional, como Rui Unas, André Nunes, Luís Esparteiro, Carlão e o youtuber SirKazzio, reuniram-se nos cinemas NOS do Colombo para testemunhar, em primeira mão, esta extravagante ficção científica.

E extravagante é um dos adjectivos que melhor descreve esta montanha-russa de efeitos especiais, alienígenas, dimensões extra-sensoriais e… pouco mais.

Algures no século 28, Valerian (Dane DeHaan) e a sua parceira de combate ao crime, Laureline (Cara Delevingne), são incumbidos de resgatar um Conversor: um bichinho fofo com a capacidade de multiplicar infindavelmente tudo o que come. Mas, como seria de esperar, não há apenas uma pessoa interessada neste poderoso ser.

O filme cedo se revela como uma sopa de referências cinematográficas. O próprio realizador admitiu, em entrevista, que este foi o projeto a que desejou dar vida desde criança, mas que só sentiu que a tecnologia o permitiria depois de ver Avatar (2009). A ponte entre ambos os filmes é reforçada através do povo do planeta Mül, muito semelhantes aos Na’vi do supramencionado filme de James Cameron.

Existe uma (inevitável) sequência de naves espaciais, ao som de David Bowie, a fazer lembrar 2001: Odisseia no Espaço (1968) e uma troca de diálogos retirada palavra por palavra de Taken: Busca Implacável (do qual o próprio Besson foi co-argumentista). O impressionante trabalho em torno da criação visual de sociedades únicas, cujo demorado processo incluiu artistas de diferentes países, faz lembrar Guerra das Estrelas. No entanto, foi a banda-desenhada francesa, Valérian e Laureline, publicada entre 1967 e 2010, que forneceu muitas fontes de inspiração para a famosa saga de George Lucas. 

A clássica BD escrita por Pierre Christin e desenhada por Jean-Claude Mézières (que colaborou com Luc na criação de O 5º Elemento) utiliza a ficção científica para comentar temas de índole político-sociais. O realizador apresenta esse comentário, nomeadamente à crise dos refugiados, mas nunca o explora nem aborda de forma estimulante: é meramente um ponto da narrativa ao qual os protagonistas têm de reagir.

DeHaan, que já tinha dado provas do seu talento em Como Um Trovão (2012) e Dos Homens Sem Lei (2012), foi aqui escolhido para um papel diametralmente oposto ao que tem para oferecer. É o sarcasmo e não a força moral que sobressai; a tentativa de afirmação e não o heroísmo. O diálogo estabelece algo sobre a personagem, mas as suas acções e a interpretação do ator contradizem-no: não há coerência.

Delevingne é precisamente o oposto. Ainda que as suas capacidades enquanto atriz estejam ainda por confirmar, o seu carisma e expressividade natural encaixam perfeitamente no universo mais cartoonesco do filme. Aliás, é este elemento que se destaca ao longo de toda a (previsível) narrativa: diferentes tipos de aliens, tiroteios entre dimensões (a sequência do mercado é particularmente inventiva e divertida), as personagens secundárias bem concretizadas (especialmente a metamórfica Rihanna e o chulo Ethan Hawke), os pequenos  e coloridos vislumbres que temos de outros mundos e a subtil promessa da sua exploração.

Valerian foi feito numa era em que todos os filmes de orçamento elevado têm de estar a apontar para as suas sequelas e, naturalmente, o produto final sofre com isso. Gravado na íntegra em estúdios na cidade de Paris, esta é a maior produção europeia de todos os tempos,  registando um valor orçamental a rondar os 200 milhões de euros. Curiosamente, vários problemas deste filme prendem-se com algo que não implica custos megalómanos para ser melhorado: o argumento.

Há uma enorme quantidade de exposição, tentando “dizer ao público o que deve sentir e pensar em vez de o “fazer” sentir e pensar. O diálogo é muitas vezes incoerente e pouco natural, acabando quase sempre com uma ironia tão forçada como o romance entre DeHaan e Delevingne. As sequências finais são um excelente exemplo de como um final moralista alicerçado em conversas rebuscadas podem afundar um filme de forma definitiva.

Existem inúmeras pontas soltas no argumento sobre a forma de histórias secundárias. Muitas delas, embora entretidas, são inconsequentes e nada acrescentam quer à acção principal, quer ao âmago emocional dos protagonistas. Exemplo: há uma missão em que todos os envolvidos, excepto Valerian e Laureline, são mortos. Este evento em nada altera as personagens, nem tão pouco lhes é dado espaço para reflectirem no que acabou de se passar. A cena acaba, mais uma vez, com uma piada.

Se a ideia era agradar à demografia alvo, cumpriu-se o objetivo à custa da credibilidade da narrativa. Fica ainda a ideia de que muitas destas cenas foram gravadas para encaixar, lá está, uma potencial sequela.

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Existem ainda alguns problemas de edição (principalmente nas cenas de combate corpo-a-corpo), o ADR (processo de regravação de diálogo em pós-produção) está indesculpavelmente mau para um filme com este orçamento e o 3D nada acrescenta senão alguma (pouca) profundidade e dores nos olhos. O que acrescenta é sim a banda-sonora: a original, composta pelo sempre fiável Alexander Desplat, e títulos clássicos, alguns deles “mixados” para se encaixarem mais fielmente no estilo da longa-metragem.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um filme inofensivamente divertido. Como a BD que lhe dá origem, tem uma imaginação visual fantástica e que pode inspirar muitos dos seus espetadores. A narrativa é fácil de acompanhar, a acção ruidosa e as personagens secundárias positivamente distintas. No entanto, não vale a pena embarcar nesta viagem à espera de encontrar pérolas de emoção, profundidade filosófica ou coesão cinematográfica.

Luc Besson admitiu em entrevista que se pudesse falar com o seu “eu” de 10 anos dir-lhe-ia: “Toma! Fiz este filme para ti!”. E, tendo-o testemunhando, fica sem dúvida a ideia de que foi uma criança grande que o criou, com tudo de bom e mau que isso implica.

4/10

Título: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
Realizador: Luc Besson
Argumento: Luc Besson
Com: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Rihanna, Clive Owen.
Género: Ficção Científica, Acção
Duração: 137 minutos