Hugo Lourenço tem 25 anos acabados de fazer. Licenciou-se em Tradução e Escrita Criativa e acabou, como muitos, operador de parque de estacionamento e assistente de self check-in no Aeroporto.

Por isso, o jovem autor escreve com conhecimento de causa. No seu romance de estreia, Ruínas, do qual falamos hoje no Espalha-Factos, a temática central é íntima a muitos de nós – as correntes que pesam em trabalhos precários e feitos de rotina. 

O enredo

A história abre com um narrador sem nome a revisitar as memórias de si, com oito anos, inebriado com a paz do cheiro da gasolina quando ia de férias para o Algarve com os pais.

Este narrador, que é também escritor, será os olhos, as mãos e o corpo pelo qual assistimos ao desenrolar do enredo.

Ricardo, Daniel e o Narrador são três amigos desde a escola primária. Ricardo e Daniel são radicalmente diferentes, numa relação tensa que parece ser moderada por este narrador, que na sua génese (e como um bom escritor) é um observador.

Ricardo, por sua vez, é o arquétipo do jovem cujo sucesso lhe está inscrito nos genes. Numa família carinhosa, aprecia a ordem e a disciplina e torna-se um exímio músico.

Daniel escapa de um lar conflituoso e de um pai duro, castrador e que lhe faz acreditar que a única ordem que existe é o caos. O seu futuro não se avizinha brilhante e Daniel não contraria as probabilidades.

“E, por esse motivo, o Daniel voltou um sem número de vezes para casa com as orelhas vermelhas e o Ricardo sempre foi tratado como o menino de ouro, que coleccionava elogios e a quem a professora apenas tocava para afagar o cabelo (…)”

São antónimos no seu âmago e são o mote à discussão sobre a nostalgia, sobre a família e sobre o trabalho.

Os entremeios entre os conceitos

Hugo Lourenço em Ruínas gravita em torno de oposições.

As personagens principais, Daniel e Ricardo configuram esta intenção e são a água e o azeite desta narrativa. Entre elas, surgem intervalos que vão sendo desenrolados pelo narrador.

Esta personagem, que inicialmente se propõe a escrever uma espécie de livro de memórias sobre os seus amigos, acaba por, sem querer, se tornar principal nestas recordações. A figura que assina as páginas deste livro purga-se ao longo do enredo.

Ainda assim, a nostalgia das memórias compõe a poética de Ruínas. É a inscrição de momentos de felicidade perdida, quase com o intuito de que as palavras transportem o narrador até elas.

“Creio que também terei sorrido nesse momento, porque, apesar de tudo, é reconfortante percepcionar que, independentemente das inquietações e tristezas que enchem o coração de um homem, a vida continua a acontecer sem que seja necessária a sua presença.”

No meio da monotonia, da constância e quase da indiferença com que o narrador se vê a si próprio, esta é uma jornada de redenção na procura  de identidade e de um papel para a sua existência.

O trabalho e o dinheiro: a crítica

O escritor, paralelamente à temática das memórias estrutura uma crítica à precariedade do trabalho e ao fim das promessas prometidas.

O narrador é licenciado em literatura, mas trabalha num cinema. Entre pipocas e bilhetes, adia o sonho de uma vida em prol de estabilidade.

Nesta discussão, colocam-se todos os “E se?…” em perspetiva e da insatisfação sente-se o crescendo até à revolta. Revolta com as promessas que foram feitas a uma geração de pessoas altamente formadas confinadas à ditadura do dinheiro.

E aqui, enceta-se outro rumo na crítica: a arte como produto. A reflexão nesta fase desconstrói a arte como arte e levanta o véu ao que é basilar nas criações de hoje – o lucro.

“É um problema do Mundo; o Mundo é que envenenou a Arte.”

Das Ruínas à reconciliação

No fundo, este livro (dentro de um livro) configura uma narrativa de renascimento. É a oportunidade de olhar a vida e aquilo que ela prometia de outra forma.

Hugo Lourenço termina Ruínas num cenário de possibilidades infinitas, algo se encerra para que algo melhor se inicie.

E assim, parece que o autor faz o que se propõe: deixar mensagens positivas no leitor, mensagens de esperança.

Ruínas é um retrato da contemporaneidade contaminada pelas promessas que foram feitas a uma geração e que não chegaram. Mas ainda assim, é uma história de recomeço, uma nova promessa que se enceta- vale sempre a pena querer mais.