Chega aos cinemas o mais recente filme de Christopher Nolan. Dunkirk é um épico de guerra que fala da não guerra, ao centrar a sua ação na evacuação das tropas aliadas sitiadas em Dunquerque. É um filme que não só nos faz escapar da mediocridade que normalmente reina no box office de verão, como se destaca na carreira de Nolan.

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Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Nazi avança rumo à França e cerca as tropas aliadas nas praias de Dunquerque. Sob cobertura aérea e terrestre das forças britânicas e francesas, as tropas são lentamente evacuadas da praia enquanto tentam manter, a todo o custo, o cerco do inimigo controlado.

Depois de viajar por sonhos, memórias, linhas espaciotemporais diferentes e de fazer de Gotham a sua “casa”, Christopher Nolan decide revisitar um dos momentos mais graves e críticos da história da Humanidade no século XX, a II Guerra Mundial.

Para um realizador como Nolan, habituado a fazer filmes-puzzle (criando desde muito cedo na sua carreira a sua própria imagem de marca, em Memento) que normalmente rebentavam com as bilheteiras, deve ter sido difícil de explicar aos produtores que o seu próximo desafio seria um filme de guerra, que não filmasse a guerra, sobre soldados, que não mostrasse protagonistas e sobre a evacuação, que não fosse melodramático.

Dunkirk é isso tudo. É uma genuína entrega de Nolan, uma homenagem não só a gerações passadas da sua própria pátria como a todos os indivíduos afetados pela guerra. É o ignorar da máquina cinematográfica de embelezamento da guerra, aliás, Nolan rejeita essa mesma máquina.

É o desprover as personagens de protagonismo e o montar de uma narrativa coletiva que produz também uma memória coletiva, não só dos britânicos, dos franceses ou dos europeus, mas de todos nós enquanto seres humanos. É um aviso do realizador, a máxima do “aqueles que se esquecem do passado, estão condenados a repetí-lo“.

Ora, e posto isto, um dos principais pontos fortes na construção da narrativa fílmica de Dunkirk é como Christopher Nolan colmata erros que se sentiram em quase todos os outros filmes da sua carreira. Retirando o protagonismo da personagem, entregando antes ao indivíduo (soldado), quase eliminando o diálogo, dando espaço aos ruídos e sons que vão construindo eles o seu próprio diálogo, e dividindo a ação em três palcos (aqui a lembrar os próprios palcos de conflito da II Guerra: Europa, Pacífico e África), Nolan consegue afastar-se e manter o seu próprio puzzle. Evita os “plot holes”, mas continua uma estrutura de peças soltas que se interligam nas cenas finais.

Tudo em Dunkirk parece ter sido pensado ao mais ínfimo pormenor. Parece que existe uma obrigação que o próprio realizador sente ao transportar este monumental acontecimento histórico para o grande ecrã (lembremo-nos que Joe Wright em Expiação – 2007 – também sentiu essa mesma obrigação ao filmar este belíssimo plano sequência).

Desde o set, à fotografia, da mistura de som à banda sonora, dos planos aéreos aos marítimos, Christopher Nolan consegue montar aqui um sentimento de uncanny que se prolonga até ao final do filme, até ao momento em que o incessante tic tac tic tac tic tac subitamente pára numa carruagem de comboio, onde o nosso coração também parece parar, ou antes, voltar a um ritmo mais normalizado.

Esta é uma experiência algo interessante que Nolan consegue atingir na perfeição em Dunkirk. Esta ânsia constante e alerta a que o espetador é submetido é causa direta da irrepreensível banda-sonora de Hans Zimmer. O compositor regular do realizador, uma vez mais, compôs para um dos seus filmes, mas aqui o seu trabalho não serve como música de fundo.

O som tem um papel fundamental na construção de Dunkirk e assume-se ele também como uma personagem que vai construindo a sua narrativa. Ao faltar diálogos, são os sons de Zimmer que passam para primeiro plano, numa montagem e mistura que embebe influências do cinema sonoro narrativo, ou seja, o som visto como um novo elemento da montagem e não como seu discípulo.

A fotografia de Hoyte van Hoytema (Intersteller, Her, The Fighter) é também outro ponto fulcral na construção deste filme, quando aliado à visão do realizador. Desde logo as cores, os planos, as escalas. Desde a imensidão azul do céu, ao turbulento Canal da Mancha, passando pela cinzenta praia de Dunquerque, o trabalho feito por Hoytema esmaga o espectador com a sua beleza e estranheza. E não há planos de Nolan nem cores de Hoytema deixadas ao acaso, prova disso é aparição da costa inglesa nas cenas finais do filme. Um regresso ao paraíso, de rochedos brancos banhados pelo mar.

O pacifismo de Nolan não se diverte no sangue e entranhas de outros

Em suma, Dunkirk deixa-nos atónitos quando acaba. Assume-se como uma experiência cinematográfica completamente diferente daquelas que nos são proporcionadas ao longo do resto do verão, numa infindável lista de blockbusters medíocres. Destaca-se também na própria carreira de Christopher Nolan por ser o seu filme mais intimo e com menos artifício. É um não-género que se admite como tal, que recusa o sensacionalismo mas que emociona, que fala sem diálogos e homenageia sem criar heróis.

É o pacifismo de Nolan, que ao contrário de títulos recentes como Hackaw Ridge, não se diverte nas entranhas e no sangue de outros para passar uma mensagem anti-guerra.

9/10

Título: Dunkirk
Realizador: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan
Com: Fionn WhiteheadHarry StylesTom Hardy e Mark Rylance
Género: Ação, Drama
Duração: 110 minutos