Chega ao 24kitchen, a 24 de julho, Cozinha com Twist, o novo projeto de Filipa Gomes. É um programa que promete receitas saudáveis e descomplicadas, boa disposição e toda uma mistura de sabores.

O Espalha-Factos esteve à conversa com a anfitriã mais irreverente do mundo da cozinha e com o diretor de programação, Luís Fernambuco.

EF: Tu formaste-te na área de Marketing e Publicidade e chegaste a trabalhar como copywriter há uns tempos atrás. Qual foi o ponto de viragem ou plot twist que te fez vir parar ao mundo da cozinha?

Filipa: Trabalhei em Marketing e Publicidade durante sete anos, em agências boas, mas a verdade é que estava muito infeliz com o meu trabalho e frequentemente andava meio triste. Estava constantemente a apresentar projetos e ideias a uma comitiva e, no final, as coisas nunca eram como eu queria e eram sempre como eles queriam. A certo ponto também estava a trabalhar como freelancer numa agência e não estava a sentir que as minhas bases estivessem muito sólidas ali. A modos que, certo dia, o Jorge, o meu namorado, chegou a casa e disse-me que o 24kitchen (que na altura não fazia ideia do que era) estava à procura de um novo apresentador para um programa de cozinha, o Prato do Dia, e que devia tentar. Na altura disse-lhe “Nunca na vida, tu estás maluco.  Esquece lá isso, vamos jantar!”. Mas depois entretanto lá experimentámos. Era suposto enviar um vídeo de apresentação, então reunimos uns amigos nossos, fizemos um prato com uns legumes que ficou muito bom, enviámos e… aconteceu.

EF: Como te sentiste ao saber que eras a escolhida para estar à frente do programa?

Filipa: Não estava a achar aquilo muito real. Na verdade, o argumento que na altura dei ao Jorge foi que nunca iria ter um programa de culinária, porque cozinhava só há meia dúzia de anos, desde que fui viver com ele, e não tinha nada para dizer às pessoas. E de repente, percebi que afinal tinha.

“O meu momento de felicidade, quando ainda trabalhava em publicidade, era quando estava em casa à noite e fazia bolachas e cupcakes para depois vender aos meus colegas no dia seguinte.”

EF: Tiveste de fazer o teu estudo no processo?

Filipa:  Tive de fazer o meu estudo, sim. Investi algum dinheiro em livros de culinária, fiz muita, mas muita pesquisa, procurei inúmeras receitas, experimentei inúmeras receitas… investi mesmo muito na experimentação, acima de tudo. Até porque vou-vos dizer uma coisa: a Coca-Cola já foi inventada. Não é agora que outra pessoa a vai inventar. Se as minhas receitas são novas? São. Se não são iguais a mais nenhuma? À partida, não serão. Mas o facto de ter uma ideia para uma receita aqui não implica que um japonês até não tenha uma ideia bastante semelhante ao mesmo tempo. Pura e simplesmente por termos as mesmas referências ou referências bastante parecidas pelo menos, sei lá. Portanto, sim… estudei muito, testei muita coisa e, de certa forma, foi acontecendo. Não sei bem como… Mas gosto de contar a minha história às pessoas para lhes mostrar que realmente é possível.

Na verdade, eu há algum tempo, só fazia bolachas. O meu momento de felicidade, quando ainda trabalhava em publicidade, era quando estava em casa à noite e fazia bolachas e cupcakes para depois vender aos meus colegas no dia seguinte. Já estava lá o “bichinho” da cozinha. Até parece ser genético. O meu pai só começou a cozinhar de há dez anos para cá, por força de circunstâncias da vida, e o meu pai não cozinhava nada. E agora cozinha tudo. Se calhar, se tivesse descoberto a cozinha há uns bons anos atrás até teria aberto um restaurante, quem sabe? Eu acho que, nestas coisas, é fundamental encontrarmo-nos a nós próprios, encontrarmos a nossa verdade. Nós não temos de vestir a pele de ninguém. Há muita gente que me diz que vê os meus programas mas não tem jeito nenhum para cozinhar. Malta, nem toda a gente tem de ser um grande cozinheiro! Assim como nem toda a gente tem de perceber de mecânica, assim como nem toda a gente dá para modelo. Não é preciso sermos uns chefs para nos safarmos, nós temos de nos safar à nossa maneira! Cada um tem de fazer aquilo de que gosta, cada um tem de ser feliz com aquilo que faz e o resto é conversa.

Cozinha com Twist

EF: Referes como uma das tuas grandes inspirações um dos rostos mais conhecidos do 24kitchen, o Jamie Oliver. Podemos considerar que ele encorajou o teu percurso?

Filipa: Sim, sem dúvida. Gosto muito do Jamie, admiro muito o trabalho dele, assim como admiro outros chefs que, atualmente, se encontram nas bocas do mundo, como é o caso do Gordon Ramsay, também. Gosto muito do que eles fazem sobretudo porque conseguiram transformar a culinária em entretenimento e, dessa forma, levaram a cozinha a muito mais gente, a um público muito mais amplo. Até existir toda esta proliferação dos programas de cozinha parecia que as pessoas mantinham uma certa distância desta área. Parecia que a deixavam só para os “entendidos”, não havia muito interesse. Assim, chefs como o Oliver e o Ramsay tornaram a cozinha algo descomplexado, algo simples, algo que as pessoas gostavam de ver e conseguiram mesmo captar o interesse do público. Admiro muito o que eles conseguiram fazer.

EF: Muitos dos espectadores que seguiam o programa faziam-no por gostarem do teu estilo mais irreverente e da tua maneira de ser. O público acha-te “simpática”, “autêntica” e “cheia de energia”. Como te sentes ao saber que conseguiste cativar as pessoas?

Filipa: É super gratificante. Quando apresento estes programas, eu tento sempre ser tão autêntica quanto seja possível. Sou simplesmente eu própria, sem filtros, sem acréscimos, sem nada. Eu acho que o público sente isso, o público sabe identificar quando há autenticidade e quando não há. Eu gosto de me aproximar das pessoas e, desde que entrei neste mundo, tenho tentado ao máximo fazê-lo, chegar a todos, sem complexos. E saber que o público sente essa empatia e que consegui cativá-lo de alguma forma para mim é incrível.

“Eu acho que não tem mal nenhum em ser-se vaidoso, em gostar-se de si mesmo e em marcar pela diferença.”

EF: Consideras que o teu estilo reflete aquilo que és no dia-a-dia?

Filipa:  Sim, sem dúvida. Acho que o nosso estilo, os nossos gostos, a nossa maneira de vestir, assim como a nossa atitude perante os outros e a nossa maneira de estar são um reflexo bastante direto daquilo que nós somos e da nossa personalidade. É quase como uma forma de expressão pessoal e, no meu caso, eu sou mesmo assim. Eu gosto de coisas exuberantes, gosto do exagero. Às vezes parece que em certos meios as pessoas não podem ser vaidosas. Porque não? Eu acho que não tem mal nenhum em ser-se vaidoso, em gostar-se de si mesmo e em marcar pela diferença. Às vezes perguntam porque uso batom vermelho enquanto cozinho. Por que não? É aquilo de que gosto! Acho que todos nós podíamos ser um pouco mais excêntricos, não termos medo de mostrar quem somos. Eu, pessoalmente, adoro excentricidade.

EF: Já mostraste ser uma fã de música. Adoras cozinhar com música, com uma predileção para Elvis Presley e para o universo dos blues e do rock de antigamente. Consideras que a música tem um papel fundamental no teu “processo criativo” enquanto cozinhas?

Filipa: Sim, sim, eu gosto bastante de música. Nem sempre a música que passam nos programas bate certo com o meu gosto pessoal, mas falando especificamente do meu espaço pessoal, quando cozinho em casa e em família, adoro ter a música como companhia. Ajuda-me bastante, deixa-me com boa disposição e acaba por ser o acompanhamento perfeito quando estou a experimentar novas receitas, novas ideias… Se bem que há momentos para tudo. Assim como a música é a minha melhor amiga quando estou a cozinhar, há outros momentos do meu “processo criativo”, digamos assim, nos quais prefiro estar em silêncio, para conseguir concentrar-me mais naquilo que estou a fazer. Quando escrevo os meus guiões para os programas, por exemplo.

EF: Além do Elvis, tens mais algum cantor/banda de referência que gostes de ter como “acompanhamento” dos teus cozinhados? Por mera curiosidade.

Filipa: Eu adoro os oldies, como já foi dito. Sou uma grande fã de rock’n’roll. Adoro o Elvis, por exemplo. Mas também gosto de variar, oiço muitos estilos de música, não apenas um. Também gosto muito de jazz, por exemplo. Aprecio bastante a música do Miles Davis. Mas rapidamente também dou por mim a ouvir Amy Winehouse, Arctic Monkeys e até mesmo música brasileira, de que gosto imenso. Gosto de variar.

EF: Doces ou salgados?

Filipa: Adoro doces. Sou muito gulosa e adoro fazer bolos, bolachas, tudo o que seja doce. Contudo, também gosto muito da liberdade que sinto ao pôr em prática receitas para pratos salgados.

EF: Quando cozinhavas no Prato do Dia, preocupavas-te em escolher ingredientes frescos e biológicos e davas bastante atenção à confeção de receitas saudáveis. Sempre seguiste esse mantra ou é algo que começaste a adaptar aos teus pratos posteriormente?

Filipa: De certa forma. Se calhar antes, como não cozinho assim há tanto tempo quanto isso, podia não ter tanto conhecimento da matéria, mas mesmo não conhecendo tantas receitas, sempre tive uma alimentação saudável e sempre tive uma grande predileção por comida saudável. Eu venho de uma família de agricultores. Vivi sempre muito perto do campo, a minha família tinha uma horta, então sempre nos habituámos a trazer alimentos biológicos, legumes e fruta fresca para os nossos pratos. Hoje procuro manter esse hábito em tudo o que cozinho.

EF: Consideras que, atualmente, a generalidade das pessoas está mais sensibilizada para a importância de uma alimentação saudável quando cozinham para elas próprias ou para as suas famílias?

Filipa: Penso que as pessoas se preocupam com a saúde e com a segurança alimentar, mas às vezes há muito a ideia errada de que fazer comida saudável é difícil. Que é trabalhoso. Que demora mais. E não é verdade. Há pratos saudáveis, vegetarianos e não só, que são incrivelmente simples. Por isso, talvez o que as pessoas têm de fazer para terem uma alimentação mais saudável e equilibrada seja só desmistificar esta ideia. De resto, é apenas criar hábitos.

EF: Cozinha com Twist promete traduzir-se numa verdadeira “experiência de sabores”. De que forma é que vão levar essa experiência até ao espetador?

Filipa: Vamos experimentar um pouco de tudo. Comida mexicana, comida italiana, comida tradicional portuguesa. Até podemos misturar diversos tipos de gastronomia, ir buscar ideias aqui e ali e juntar tudo. Por que não? Como já referi, sou muito apologista da ideia de que parte tudo da experimentação. Podemos sempre inovar um pouco, até mesmo nas pequenas coisas, basta sermos criativos. Não gosto de fazer sempre as mesmas coisas, por isso tenciono dar às pessoas coisas novas.

EF: O que é que podemos esperar do programa?

Filipa: Vocês sabem que eu adoro comer, eu adoro gulodices. No primeiro episódio eu explico precisamente como é que vai ser a minha cozinha, que eu quero que seja sempre uma cozinha polivalente, que seja muito inclusiva. Eu vou ter programas em que eu se calhar vou fazer receitas vegan, assim como vou ter outros em que vou fazer as coisas mais gulosas e açucaradas que existem. Não é de todo minha intenção fazer um “monotema” e acho que uma parte interessante do programa é precisamente essa, a de chegar a toda a gente. Num dia estamos a ver cozinha para crianças, como no outro dia já estamos a ver cozinha italiana, como no outro já misturamos umas coisas da cozinha portuguesa. É isso que eu gosto de fazer e é isso que podem esperar deste programa. Até porque eu própria em casa também gosto de fazer receitas saudáveis para equilibrar as coisas mais “doces” que comemos, mas no fundo nós também temos de experimentar e ser felizes. Eu até podia ter ido ter com a FOX ou vice-versa e ter dito especificamente que gostava de fazer um programa SÓ com este tipo de receitas… E eu até não digo que não o faça no futuro! Só que, neste momento, identificava-me mais com uma coisa assim, mais abrangente, por isso continuámos com esta premissa de fazer uma cozinha que chegasse a toda a gente.

EF: Qual é a principal diferença entre o Cozinha com Twist e o Prato do Dia?

Filipa: Essa é uma pergunta difícil…(risos) Essencialmente a produção. Em ambos os casos, são processos muito longos e dolorosos. Pode parecer fácil, chegar ali e simplesmente apresentar o programa, mas não é! Quem me conhece sabe que, ainda hoje, eu fico em nervos quando estou prestes a entrar, por isso é muito importante ter uma equipa que me suporta e que me apoia, que gosta daquilo que eu estou a fazer. As pessoas que estão a trabalhar comigo têm de gostar daquilo que estão a fazer, caso contrário ninguém é feliz e a coisa não resulta. Eu agora estou a trabalhar com uma equipa que corresponde a todas as expetativas e isso, para mim, é mesmo muito bom e é o que faz toda a diferença. E depois houve outras mudanças em termos de look, o genérico também está diferente.

EF: Quantos episódios terá o Cozinha com Twist?

Filipa: Vão ser 22.

Luís: Na verdade o número de episódios será menor porque este é um formato de programa que exige todo um complexo processo de produção e preparação bastante abrangente. Estas receitas não podem ser feitas à primeira. A Filipa tem de inventar as receitas, tem de inovar, tem de testá-las para ver se funcionam, nenhuma receita vem para o ar sem ter sido testada antes. E, além disso, também há muito trabalho da parte não só da Filipa como de toda a equipa. Parece simples, mas na verdade não é. É de facto um processo bastante longo. E depois temos outro aspeto, que é o de a comida ser perecível, o que também interfere de certa forma na preparação do programa.

EF: Os programas da Filipa têm transmissão fora de Portugal?

Luís: Têm. Por acaso é uma das coisas interessantes e que me agrada bastante no 24kitchen é que nós temos, de facto, programas que são exclusivamente nossos, que são originais, mas nunca fica de lado a possibilidade de serem exportados para outros países, com tradução para outras línguas também, ou seja, estes programas chegam mesmo a toda a parte. Sei lá, nós exportamos para a Holanda, para os PALOP e é, realmente, um grande prazer podermos exportar aquilo que fazemos para lá.

Filipa: Por acaso, nesse sentido, recebo um feedback mesmo muito fixe. Recebo ocasionalmente mensagens de famílias portuguesas a viverem no estrangeiro, de emigrantes que me dizem que realmente gostam mesmo muito de ver o programa, até porque sentem que é uma forma de se aproximarem de Portugal porque, sendo de produção nacional, de certa forma aproxima-os do nosso país, mesmo estando longe. Nós até podemos ver o Jamie (Oliver) a fazer uns pastéis de nata, mas é seguramente muito diferente de ver um português a fazer uns pastéis de nata.

EF: Nos últimos anos, tem havido um verdadeiro boom no que respeita ao surgimento de programas de culinária. O que é que diferencia o teu programa face a outros?

Filipa: Assim muito rapidamente, eu. Na verdade sou mesmo eu que diferencio. Não sei, pareceu arrogante? Não era o objetivo. O que eu queria dizer era que, se calhar, tal como há muita gente que gosta de seguir os programas do chef Avillez porque é o Avillez, se calhar também há muita gente que vê os meus porque sou eu. Eu tento muito fazer o meu melhor para chegar às pessoas, tento fazer acima de tudo aquilo que eu gosto e aquilo em que eu acredito. Essa por acaso é uma pergunta muito frequente, o que é que diferencia os meus programas. Eu acho que é precisamente o facto de eu não ser uma chef profissional. É um bocado isso: se eu consigo, as outras pessoas também conseguem. E o meu objetivo também é um pouco esse: mostrar às pessoas que elas conseguem fazer estas receitas, explicar-lhes como as fazerem tim tim por tim tim para que lhes corra tão bem como me corre a mim, ou melhor! (se quiserem até acrescentar algum toque um pouco diferente)

EF: Para ti, que és mãe, e tendo em conta que há muitas mulheres a seguirem os teus programas que também são mães, que truques é que tu utilizas na cozinha ou achas que uma mãe pode utilizar para concretizar a “missão impossível” que é fazer os miúdos pequenos comerem as verduras?

Filipa: É assim, eu acho que parte muito do hábito. Os miúdos têm de ir pegando nos legumes desde pequenos, têm de se ir habituando a ter isso na alimentação. A minha filha, por exemplo, é pequenina e já vai pegando nos bróculos. É claro, eu percebo, nem sempre é uma tarefa assim tão fácil, sobretudo quando eles vão ficando mais crescidos e quando “retaliam” mais. Mas nesse caso, há-que “brincar” um bocado com a situação. Se um miúdo não quer comer cenouras laranjas porque não gosta de laranja, por que não experimentar cenouras roxas? Ou pimento amarelo, e dizer-lhe que é uma cena “bué” fixe e que veio do espaço, não sei. Há-que jogar um pouco com as cores, brincar um pouco com os legumes, para lhes criar o gosto. Por exemplo, há uma sopa que eu faço, a que lá em casa chamamos “a sopa extraterrestre”, que é uma sopa de couve roxa que leva três ovinhos que parecem uns olhos. É uma coisa gira.

EF: Actualmente, o Luís é o diretor de conteúdos e programação dos canais de entretenimento pertencentes à FOX (FOX, FOX Life, FOX Comedy, claro, o 24Kitchen, entre outros…). Para muitos, escolher as séries e os conteúdos que passam num determinado canal pode parecer o “emprego ideal”. Contudo, o seu trabalho tem muito que se lhe diga. O que é que abrange o processo pelo qual “gere” os conteúdos destes canais?

Luís: É acima de tudo estatística. Há muita estatística e muita análise de dados envolvidas. Para decidirmos, por exemplo, se pomos ou não uma determinada série no ar, analisamos dados de séries do mesmo género ou com algumas semelhanças estruturais lançadas anteriormente. Temos de olhar primordialmente para os números. Temos de olhar para as audiências. Se uma série semelhante tiver resultado no passado, se calhar é um indicador de que a série em questão tem mais probabilidades de resultar. Se, pelo contrário, uma série semelhante tiver ficado aquém das expetativas no passado, tendo pouca adesão do público, talvez fiquemos mais hesitantes em lançar a série em questão. Depois, também tem um pouco a ver com intuição. Por vezes há formatos absolutamente inovadores em que decidimos apostar por pura intuição, porque achamos que vão render. E, por fim, também se trata de ter um pouco de sorte. Às vezes um determinado programa reúne todas as condições que, à partida, fariam dele um sucesso, mas na prática simplesmente a coisa não resulta. Há-que estar preparado para isso também. Portanto, reduzindo isto a números, eu diria que este trabalho é 80% estatística, 10% intuição e 10% sorte. Quando o fazemos, no entanto, é absolutamente fundamental mantermos alguma imparcialidade: temos de pôr de parte gostos pessoais e dar ao público o que ele gosta.

EF: No 24kitchen, quais são os critérios que tem em conta para escolher investir num determinado formato/programa? E nos restantes canais?

Luís: No fundo, a tarefa é simples. Temos de corresponder às expetativas do público-alvo daquele canal e dar ao público que se liga ao canal em questão precisamente o tipo de conteúdos que procura encontrar ali. No fundo, trata-se um pouco de “organizar” aquilo que temos. No 24kitchen, as pessoas querem conteúdos relacionados com cozinha, então damos-lhes isso. Além do mais, os programas de cozinha têm vindo a ascender a olhos vistos em termos de popularidade, o que tem feito o sucesso deste canal. Na FOX, tínhamos e sempre tivemos uma grande diversidade de conteúdos e géneros de séries/programas. Por isso criámos a FOX Comedy para os que gostam de ver comédia, a FOX Crime para os que gostam de séries policiais, a FOX Life para séries como o This Is Us (que tem estado a ser um sucesso) e mantivemos na FOX fenómenos como o The Walking Dead e por aí diante. É assim  que funciona.

EF: Há um investimento em estratégias de Marketing para promover os diversos programas abrangidos pela FOX? Se sim, de que forma fazem o vosso “apelo” ao espetador?

Luís: Fazemos a nossa estratégia de Marketing de formas bastante variadas. A publicidade e o Marketing são de uma extrema importância sobretudo quando está em causa o lançamento de uma nova série ou programa. Regra geral, no que diz respeito a séries, as pessoas “agarram-se” muito àquilo que já conhecem. Fenómenos como The Walking Dead já têm uma base de fãs solidificada que, com certeza, quererá acompanhar a série até ao fim, ou pelo menos continuar a seguir os episódios vindouros. O problema verifica-se quando queremos pôr no ar algo novo: como lançar um “nome” que ninguém conhece ainda? E é aí que entram o Marketing e a Publicidade. Temos de fazer essa série chegar às pessoas, temos de chamar a atenção com todos os nossos esforços, temos de captar o interesse do espetador para o levar a ver a série quando esta é lançada. Não que a publicidade não seja importante para os fenómenos também, nada disso. É bastante. É o que “mantém” o interesse e o que capta novos fãs. Por exemplo, nós erguemos um muro no meio da rua quando lançámos a nova temporada do Prison Break. Há uns tempos, pusemos zombies do The Walking Dead a passearem na Avenida da Liberdade. São coisas assim que dão nas vistas, que chamam o público.

EF: Acredito que, para si, seja extremamente gratificante quando uma série/programa que escolhem transmitir efetivamente dá resultado: o público gosta, a série rende, etc. Contudo, quando as coisas não correm tão bem, qual é a resolução mais comum para o problema?

Luís: Quando uma série vai para o ar mas, por motivos variados, fica aquém das expetativas, tentamos sempre ao máximo evitar desistir logo à partida, não baixamos os braços e tentamos dar a volta à situação. Reunimos os nossos esforços para salvar a série e recuperar audiências e, para o efeito, recorremos a diversas estratégias. Ou reforçamos a publicidade, ou tentamos colocar a série num horário mais favorável para ser vista pelo espetador comum (ironicamente, muitas das vezes o problema é esse). Tentamos ser criativos para solucionar o problema. Só em último caso, quando vemos que não é, de todo, um formato viável e que, pondo as coisas desta forma, não há muito que possamos fazer, é que optamos por cancelar.

EF: Por que é que optou por investir num formato como o Cozinha com Twist? O que é que considera que traz de novo ao 24kitchen?

Luís: Essencialmente, diversidade. Inovação nas receitas. É um formato novo, interessante, leve e descomplexado que vai continuar a dar ao público aquilo que o público mais gosta de ver nos programas da Filipa. E depois claro, tem a Filipa. A Filipa é uma comunicadora excelente, consegue mesmo chegar ao público e as pessoas gostam genuinamente dela. Gostam da irreverência, gostam da personalidade, gostam da naturalidade e da descontração. A Filipa consegue mesmo criar empatia nos espetadores e simplificar a tarefa da cozinha, que, além dela, é evidentemente o foco central do programa. Por isso, faz todo o sentido apostarmos nela e no Cozinha com Twist.