Spotify
Fotografia: Divulgação

O Spotify está a ‘inventar’ artistas para pagar menos royalties?

Recentemente, o Spotify tem vindo a ser acusado de introduzir músicas de artistas alegadamente falsos, com o intuito de “encher” as playlists e contornar o sistema de royalties.

Desde o seu breakthrough, as plataformas de streaming estiveram sempre associadas a grandes discussões entre os envolvidos nas indústrias exploradas. E a indústria musical é um dos grandes exemplos disso. Os dois grandes lados das discussões, tanto os que estão a favor como os que são contra, sempre se basearam em dois pontos: os royalties, ou seja, a parte financeira paga ao artista, e o reconhecimento da arte em si.

Desta vez, a empresa sueca Spotify está sob o holofote da questão. Para aqueles que têm andado mais afastados das novidades sobre a indústria musical, o serviço de streaming de música está neste momento a ser acusado da invenção de alguns artistas para regular o seu sistema de royalties de forma mais benéfica para o próprio. Essas acusações são fundamentadas em várias investigações jornalísticas que têm vindo a denunciar o assunto.

Mas de onde surgiu a polémica?

No final de agosto de 2016, a Music Business Worldwide (MBW), um site fundado por Tim Ingham, dedicado à realização de análises e artigos extensivos sobre a indústria musical internacional, desencadeou a intriga.

“Spotify is starting to make its own records.” – MBW

Este foi o título e a frase que iniciaram a discussão. O artigo publicado pela MBW indicava que, segundo diversas fontes fiáveis, a empresa fundada por Daniel Ek e Martin Lorentzon tinha montado um esquema de financiamento para que produtores criassem músicas, de acordo com os desejos do Spotify.

Os direitos desses temas pertenciam ao Spotify e apareciam no serviço de streaming com nomes inventados, que corresponderiam aos supostos músicos criadores, certificados como possuidores dos master rights. Porém, a revista alega que não o são e que as músicas que lhes são associadas são apenas criadas por produtores pagos pela empresa sueca, que é quem, de facto, deteria os royalties.

O que é que, para os jornalistas, denunciou esta situação? O facto de os nomes dos artistas apenas aparecerem no Spotify. Não há registo dos seus trabalhos ou qualquer indicação do seu nome noutras plataformas online como, por exemplo, o YouTube. Para além disso, alguns deles contavam com mais de meio milhão de streamings nos seus perfis.

Essas canções seriam, posteriormente, inseridas em playlists tipicamente instrumentais. Pode não parecer, mas estas arrastam milhões de seguidores, contribuindo em grande escala para a balança financeira do Spotify.

A investigação revelou as evidências

No início de julho, a polémica voltou à superfície com um artigo da Vulture, que desmascarou inúmeros artistas e voltou a referir o caso do Spotify. Em resposta ao retomar das acusações, a empresa sueca revelou à Billboard:

“Nós não criámos ou vamos alguma vez criar artistas ‘falsos’ e introduzi-los nas nossas playlists. (…) Nós pagamos royalties – áudio e publicação – por todas as músicas no Spotify e por tudo o que está nas playlists. Nós não somos possuidores de direitos, não somos uma editora, toda a nossa música é licenciada pelos detentores dos direitos e nós pagamos-lhos.”

Em agosto do ano passado, a MBW não revelou o nome dos artistas e das músicas em questão. Apenas foram reveladas as playlists onde podiam ser encontrados vestígios da suposta fraude, nomeadamente, Peaceful Piano, Piano in the Background, Deep Focus, Sleep, Ambient Chill Music for Concentration. 

 

Agora, em resposta às declarações do Spotify, a MBW apresentou uma lista de cinquenta nomes que indicam encaixar-se no perfil de ‘fake’ artists. Estes cinquenta artistas, de acordo com os cálculos da MBW, totalizam 520 milhões de streams. Em termos monetários, esta quantia corresponderá a três milhões de dólares em royalties. Isto é, claro, se nos guiarmos pelas taxas comuns de pagamento.

Apesar de terem sido pedidas mais respostas ao serviço de streaming, as mesmas foram recusadas. No entanto, a MBW foi mais fundo e contactou indivíduos experientes e responsáveis por empresas estabelecidas na indústria musical. Em declarações anónimas, os entrevistados afirmaram já ter conhecimento do esquema e de que estava em funcionamento há vários anos.

“Soubemos que há terceiros envolvidos e que, pelo menos algumas das pessoas por trás dos artistas falsos, concordam com margens incrivelmente reduzidas, o que como é óbvio beneficia o Spotify financeiramente.” – Fonte anónima

Os ‘fake’ artists têm uma palavra a dizer

A plataforma multimédia online The Verge contribuiu também para o aprofundamento da questão. A equipa entrou em contacto com os artistas que se escondem por trás desses nomes e descobriu que são, na verdade, pseudónimos.

Muitos dos nomes incluídos na lista realizada pela Music Business Worldwide são pseudónimos usados por pessoas reais. Por vezes, o mesmo artista detém mais do que um, dois ou três nomes falsos. Estes indivíduos são músicos independentes, de estúdio, produtores, songwriters. Em certos casos, querem usar nomes inventados por não desejarem assumir uma carreira musical.

A verdade é que todos os direitos pertencem a essas pessoas e não ao serviço de streaming. Quando o The Verge perguntou o porquê de se cingirem ao Spotify, foi respondido que não existe outra plataforma onde o tipo de música das playlists já referidas obtenha tantos streams.

A Suécia é o novo epicentro de criação musical?

Muitos dos artistas estão associados à empresa sueca Epidemic Sound. Esta empresa ocupa-se de contratar músicos para criar conteúdo sonoro para as mais diversas ocasiões, desde anúncios a jogos. Este tipo de empresas está autorizado a comercializar essas criações sem um consentimento prévio dos autores, reservando todos os direitos para si.

Logo da empresa sueca
Logotipo da empresa sueca ‘Epidemic Sound’

Outra fração dos artistas mencionados na lista da MBW está relacionada com empresas como a Universal Music Group, de modo a poder ter acesso à partilha no serviço de streaming.

Algo que suscitou a curiosidade da The Verge foi o facto de muitos dos artistas referidos serem de origem sueca. Isto pode levar a pensar que, de facto, o Spotify pode estar a entrar em contacto direto com artistas para produção musical, evitando a perda de dinheiro em royalties.

A verdade porém, de acordo, com a The Verge é que essa ação não tem um lucro tão significativo que justifique a potencial fraude que está a ser cometida. De facto, os 3 milhões de dólares que o Spotify lucraria com os artistas mencionados na lista da MBW são uma pequena porção dos 3,3 mil milhões de dólares que a empresa gerou no último ano.

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