Passou quase um ano e meio desde a última vez que voámos até Westeros. A expectativa para voltarmos a ver as nossas personagens favoritas é grande. E grande foi também a transmissão que a NOS fez, no cinema, deste primeiro episódio da sétima temporada de Game of Thrones.

Atenção: O conteúdo que se segue pode conter revelações sobre o enredo do episódio e desenvolvimento das personagens. Aquilo que vulgarmente designamos por… spoilers.

O arranque é de alto impacto. Walder Frey (David Bradley) parece regressado – não seria o primeiro a voltar do mundo dos mortos – e convida os seus cúmplices para um banquete. O segundo em duas semanas. Regressado e mudado.

Durante o banquete, convida os comensais, aqueles que o ajudaram a fazer o brutal Red Wedding, para um brinde. Um brinde do qual não bebe. E é aí que percebemos que algo está diferente.

Por debaixo de uma face Frey, a vingadora Arya (Maisie Williams). Depois de sucessivos massacres e traições contra a família Stark, surge a demonstração de que o Norte não esquece e que a pequena – cada vez maior – Arya não está disposta a perdoar.

“Deixem um lobo vivo e as ovelhas nunca estarão a salvo. O Norte lembra-se”.

E, numa decisão inesperada, a mais nova do clã de lobos demonstra que não vai regressar a casa. Vai até Kings’ Landing. Para matar a rainha, afirma. E há quem ria, até o Ed Sheeran, ao vê-la dizer algo assim. No entanto, não nos parece que Cersei (Lena Headey) vá ter motivos para ficar contente.

Ganhou o trono e perdeu a majestade?

Depois de explodir a inimiga Margaery Tyrell (Natalie Dormer), pelo caminho levar o High Sparrow (Jonathan Pryce) e ainda conseguir que o filho Tommen (Dean-Charles Chapman) se suicidasse, Cersei Lannister está cada vez mais sozinha.

Surge, lado a lado com o irmão e amado Jaime (Nicolaj Coster-Waldau), numa sala onde um trabalhador pinta os Sete Reinos de que agora é soberana. Fala em como aquele momento lhe esteve sempre destinado. E é lembrada pelo incestuoso parceiro de que, no máximo, manda em três reinos e não tem uma dinastia para deixar a ninguém.

A frieza com que parece lidar com a morte do filho mais novo contrasta com a crescente humanização de Jaime. Também em progressivo avanço está o evidente diagnóstico, pelo mais velho dos irmãos Lannister, de que está perante uma nova Rainha Louca. Será obrigado a usar novamente o seu cognome de Regicida?

Euron Greyjoy (Pilou Asbeak) junta-se aos clube dos vilões do sul. Perante a deserção dos sobrinhos, que se unem a Daenerys (Emilia Clarke) mais a norte, o novo rei das Ilhas de Ferro quer casar-se com Cersei. Porque sempre sonhou unir-se à mais bonita mulher do mundo. E, antevemos nós, porque serão uma perfeita e dinâmica dupla de sociopatas. O que tem tudo para nos oferecer um grande conjunto de mortes indesejadas e inesperadas entre as personagens que mais estimamos.

Gelo e Fogo no regresso a casa

Jon Snow (Kit Harington) e Sansa Stark (Sophie Turner) voltam a controlar em Winterfell e começam a ter os primeiros desentendimentos entre irmãos, muito alimentados pelo perigoso Littlefinger (Aidan Gillan).

Esta personagem, uma das mais ardilosas e resistentes de todo o enredo, alimenta secretamente o desejo de ser soberano dos Sete Reinos. E Snow é, claramente, um obstáculo para este seu caminho. Como Ned, a quem traiu sem qualquer remorso, o foi.

Não sabemos se, entre os peixes graúdos que se defrontam neste tenso desfecho, a manhosice de Petyr Baelish será suficiente para voltar a perseverar. Brienne (Gwendoline Christie) está de olho. E todos sabemos como ela é determinada na sua missão de proteger Sansa.

Quem também continua na crista da onda é Lyanna Marmont, que relembra: não precisa da autorização de nenhum homem para proteger o Norte. Um dos momentos de maior inspiração feminista do episódio.

Também de regresso a onde os Targaryen foram felizes, esteve Daenerys. Depois de algumas temporadas em que, de forma a manterem ativa a sua participação no enredo, os guionistas tiveram de inventar pequenas batalhas com muito pouco interesse para a população em geral, parece que finalmente agora irá começar a caminhada da loira platinada no regresso ao poder.

Luta difícil, perante os poderes que se erguem: os Caminhantes Brancos a norte da Muralha e a implacável Cersei disposta a tudo para manter a sua dinastia estéril em andamento.

Warm-up de luxo

No cumprimento daquela que é uma tradição habitual em Game of Thrones, o primeiro episódio da temporada foi essencialmente o alinhamento, na mesa de xadrez, dos vários campos em disputa.

A Norte, uma muralha à beira da queda perante o avanço do Night King (e dos seus zombies gigantes!), e a reestruturação do domínio Stark e as suas novas geometrias. No centro, a reocupação de Dragonstone – também uma mina de vidro do dragão – pela sua legítima soberana. A sul, uma capital esvaziada de prestígio e importância, o reino decadente dos Lannister, a aliarem-se aos menores Greyjoy para tentarem ficar à tona.

O episódio, que pode ser criticado por não trazer muita ação, é um exercício bem demonstrativo da grandiosidade que Game of Thrones trouxe ao pequeno ecrã. E esta magnitude está bem afirmada também na verosimilhança das personagens, na coerência dos seus percursos, bem manifesta nas suas reações traumáticas a uma vida que foi quase sempre demasiado cruel.

No entanto, no meio de tanta coisa séria, ainda houve espaço para ser bom também a fazer rir. A boa montagem na sequência de planos em que Samwell Tarly (John Bradley-West) assume o papel de ‘estagiário’, é outra forma de demonstrar o bom nível criativo de quem produz “a maior produção televisiva da atualidade“.

É amargo este início, porque só faltam 12 episódios para que tudo acabe. Para, depois de tantas mortes que nos marcaram, termos também nós o desfecho que menos queremos. A despedida.