A 23.ª edição do Festival Super Bock Super Rock arrancou ontem no Parque das Nações, em Lisboa. Da poesia à garagem, passando pelo psicadélico, fomos completamente arrebatados com o melhor do rock’n’roll de Portugal e de fora.

Os relógios marcam as 15 horas e é altura de abrir as portas do recinto pela primeira vez este ano. Está um dia de verão radiante e já dezenas de festivaleiros esperam à entrada para poderem começar a sua aventura. É possível ver uma multidão de fãs de Red Hot Chili Peppers a correr para a frontline do Palco Super Bock,  onde o grupo iria atuar mais tarde, no fim desta noite. Mas calma, antes de chegarmos ao ponto alto do primeiro dia do festival, e provavelmente o mais esperado desta edição, há mais, muito mais.

Os restantes festivaleiros que entraram atempadamente, aproveitam para explorar o recinto, relaxar e conviver, enquanto esperam pelo primeiro concerto do desta edição.

São 17h30 e é o Palco EDP que recebe o primeiro concerto do dia, Alexander Search, o novo projeto de Júlio Resende e Salvador Sobral. Alexander Search (heterónimo de Fernando Pessoa) é um grupo maravilhosamente capaz de combinar o jazz, o rock, o indie-pop e a música eletrónica, ao interpretar os poemas do poeta.

Cada músico assume uma personagem fictícia na banda, que representam os vários heterónimos ingleses do poeta: Augustus Search (composição, direção musical, piano e teclados), Benjamin Cymbra (voz), Marvel K. (guitarra), Sgt. William Byng (eletrónica) e Mr. Tagus (bateria) são os cinco elementos dos Alexander Search, e foi assim mesmo que se apresentaram em concerto.

Sempre bem dispostos e com muita energia em palco, deliciam-nos com um concerto repleto de musicalidades diferentes, que resultam numa harmonia sedutora e envolvente. O público rende-se, sorrindo, dançando, assobiando e aplaudindo vigorosamente, tornando este concerto num dos mais bonitos momentos do dia.

Pelas 18h40, no mesmo palco, apresentam-se os Boogarins, a banda brasileira de rock psicadélico que, entre energéticas batidas e guitarradas, conseguiu deixar o público completamente alucinado.

Passamos para o primeiro concerto no Palco LG by SBSR.fm, com Minta & The Brook Trout, onde a voz doce e a melodia envolvente se sente, se canta e se dança.

Às 20 horas é altura de voltar ao Palco EDP, para o concerto da banda americana The Orwells. Sobem a palco para apresentar o novo álbum Terrible Human Beings e mostrar que o rock’n’roll de garagem está vivo e bom de saúde, com uma energia frenética e contagiante que faz desafiar os tímpanos, mas num bom sentido, claro. Demonstram amor e cumplicidade ao público, e o público responde imparável com sorrisos autênticos, pés fora do chão, gritos, cabelos ao vento e até mosh.

Pelas 20h40 começa o primeiro concerto do Palco Super Bock, o palco principal, no Meo Arena. The New Power Generation (banda de Prince) sobem a palco com o o músico americano Bilal. A fadista Ana Moura, que em 2010 atuou com Prince neste festival, ainda no Meco, foi convidada a subir a palco para fazer um remake desse célebre momento, que recorda com carinho. Só faltou mesmo Prince.

Pouco depois, às 20h50, Manuel Fúria e Os Náufragos sobem ao Palco LG by SBSR.fm com um rock português super dançante, perfeito para um fim de tarde magnífico.

Às 21h20, o Palco EDP volta a receber outro grande artista, desta vez Kevin Morby, com o seu indie-rock americano irresistível aos ouvidos dos portugueses.

Uma hora mais tarde é a vez dos Capitão Fausto regressarem ao festival, mas pela primeira vez no maior palco de todos: o Palco Super Bock. Já com a Meo Arena bem composta, quer na plateia, quer nos balcões, a banda apresenta canções de todos os álbuns.

O público rende-se e acompanha todas as letras em coro, complementadas com muitos aplausos e assobios de todo o lado. Perto do fim, o grupo agradece e pede ao público uma salva de palmas para celebrar a amizade, não estivéssemos nós no Super Bock Super Rock, não é verdade?

Definitvamente um  momento importante para a banda e para a música portuguesa, afinal de contas, estamos todos a aquecer para o regresso tão esperado dos cabeça de cartaz desta noite, já a seguir.

21h50 e passamos rapidamente para o Palco EDP, onde está já a atuar The Legendary Tigerman, o “homem-orquestra” responsável por alguma da melhor música portuguesa dos últimos tempos.

Desta vez apresenta-nos um registo diferente, e único: Misfit, uma antevisão muito especial do seu próximo disco que sai no início de 2018, gravado pela primeira vez gravado fora do seu habitual formato one-man-band. A irresistível voz de Paulo Furtado é acompanhada de Paulo Segadães na bateria, João Cabrita no saxofone e Filipe Rocha no baixo, resultando numa melodia forte, fantasiosa e extremamente cativante, que deixou o público do primeiro ao último minuto.

É meia noite e está tudo pronto para o momento mais aguardado desta edição: sim, o concerto dos Red Hot Chili Peppers. Passados 11 anos, esta icónica banda regressa a Portugal com a sua tão característica sonoridade de rock,com influências do punk e do psicadelismo.

Faltam 15 minutos para subirem ao Palco Super Bock e o público está ao rubro, ecoam gritos e assobios frenéticos de ansiedade e excitação. Não há espaço para mais ninguém: quer na plateia, quer nos balcões, quer nas escadas, quer em todo o lado – o Meo Arena está completamente lotado, e o melhor é que está toda a gente de pé, como se estivessem frontline.

A intensidade com que o público evoca a banda aumenta, e de repente, começamos a ouvir uma sonoridade fascinante, sem percebermos de onde vem. Dois ou três minutos depois, a sonoridade continua, as luzes apagam por completo, e vemo-los entrar subtilmente em palco.

O público entra em êxtase e a banda começa a presentear-nos com as suas incríveis guitarradas de Josh Klinghoffer, acompanhadas pela frenética bateria de Chad Smith, e claro, o fantástico baixo de Flea. As luzes regressam, agora acompanhadas de projeções psicadélicas. Os solos instrumentais continuam, puxando cada vez mais pelo público, ainda que não desse para perceber o que aí vem.

E eis que começamos a reconhecer certas sonoridades a desenvolver: é a Can’t StopO público acompanha com toda a força e entusiasmo, resultando numa harmonia perfeita com a voz de Anthony Kieds.

Após a primeira música, cumprimentam o público e arrancam com a Snow (Hey Oh), seguida do single do novo álbum, a Dark Necessities. Começam então a apresentar temas do novo álbum, intercalados pelos êxitos de sempre, como a Californication ou a By The Way, com a qual saem de palco agradecendo ao público por estarem ali a incentivar a música ao vivo, depois de uma hora de concerto.

O público não pára de aplaudir, gritar, assobiar, e pedir mais. Entretanto, este encore, que durou quase 5 minutos, é finalmente quebrado pela Goodbye Angels do novo álbum. Esta segue-se pelo single de 16 anos, a Give It Away, com a qual terminam definitivamente o espetáculo e se despedem com um “Peace and Love, always”.

Um concerto muito intenso, marcado por um público completamente frenético, pelas incríveis e energéticas prolongações instrumentais, pelo jogo de luzes ridiculamente bom, articulado com grafismos sensacionais, e claro, por uma banda que fica eternamente no coração de todos.

Sem dúvida que os Red Hot Chili Peppers não cederam às altas espectativas e deram provavelmente um dos concertos mais empolgantes de sempre.

A noite continua no Palco Carlsberg com Tuxedo, e por fim, a dupla eletrónica mais irrequieta e criativa do panorama musical português, Moullinex + Xinobi.

Afinal, o primeiro dia do Super Bock Super Rock não esgotou por acaso. Hoje há mais, e amanhã estamos cá para vos contar tudo!

Imagens de João Marcelino.