Em 1963, ao publicar Le Planète des singes (O Planeta dos Macacos), Pierre Boulle estaria longe de imaginar o impacto que o seu romance acabaria por ter ao longo das décadas no mundo do cinema. Cinco anos depois da referida publicação chega ao grande ecrã Planet of the Apes (O Homem que veio do Futuro), tornando-se num dos filmes mais memoráveis de sempre. Após quatro sequelas fracassadas do mesmo filme e um remake no mínimo risível em 2001 pelas mãos de Tim Burton, coube a Rupert Wyatt, dez anos mais tarde, restaurar a grandiosidade da obra de Schaffner com Planeta dos Macacos: A Origem (2011). A este filme seguiram-se Planeta dos Macacos: A Revolta (2014) e, finalmente, Planeta dos Macacos: A Guerra (2017), ambos realizados por Matt Reeves.

O terceiro capítulo da versão moderna do livro de Boulle começa uma cena de rastreamento a macacos levando o espetador a acreditar que a película se trata, efetivamente, de uma guerra entre os humanos e macacos. Não tivessem já passados seis anos desde os eventos do primeiro filme da trilogia e as tensões com a diminuição da população humana cada vez mais desesperada com o recrudescimento da população de macacos nunca foram maiores. Um coronel militar carismático, sedento de sangue e poder, interpretado por Woody Harrelson, vê os macacos como uma ameaça existencial e como é urgente a sua exterminação, liderando um exército destinado a aniquilar a comunidade liderada por Caesar. Estão reunidas, então, as condições necessárias para que as próximas duas horas e meia de filme sejam repletas de uma guerra incessante entre as duas espécies.

Porém, a premissa de um conflito que previamente parecia ser, pelo decorrer da narrativa, entre humanos e macacos, acaba por não surtir efeito. A guerra (se é que lhe possamos chamar mesmo guerra) padece de um argumento apressado e de certa forma desigual e vazio. Somos constantemente assaltados pela ideia de que há algo em falta neste terceiro volume da saga. Aquilo que deveria dar lugar a um conflito onde o agudizar de tensões entre as duas façōes fosse o fio condutor de toda a trama, acaba por ceder o lugar a uma luta pessoal de Caesar (Andy Serkis), numa recriação do Holocausto em ambiente futurista.

Woody Harrelson como O Coronel

Todos sabemos o quão tecnicamente bem conseguidos são os filmes do género e Planeta dos Macacos: A Guerra acaba por surpreender precisamente por isso, registando uma grande evolução desde A Origem. O espetador nem questiona duas vezes a tecnologia utilizada de modo a dar vida aos macacos, graças ao excelente trabalho do diretor de fotografia Michael Seresin que nos oferece uma estética visual muito para além da sociedade moderna a que assistimos no primeiro filme da saga.

Se os macacos parecem mais humanos que nunca, o mesmo não acontece com os humanos que restam neste ‘ape-pocalipse’ que parecem menos dinâmicos que nunca. De facto, conhecemos apenas dois personagens humanos de primeiro plano e nenhum dos dois é suficientemente bem construído: o coronel de Harrelson, uma imitação barata do coronel Walter Kurtz de Apocalyspse Now, de Francis Ford Coppola; e uma rapariga muda encontrada por Caesar e o seu pequeno grupo que não chega a ter o destaque merecido. O certo é que nenhuma das duas personagens humanas consegue fazer frente face à complexidade de Caesar, uma vez ser este e os seus conflitos internos o motor de todo filme. Destarte, as restantes personagens pré-fabricadas e consequentes linhas narrativas acabam por parecer ainda mais fracas e insuficientes.

Andy Serkis como ‘Caesar’

Se em Planeta dos Macacos: A Revolta tivemos a oportunidade de assistir ao desenvolvimento das suas personagens e lidar com as complexidades societais e pessoais entre as duas espécies, chegando mesmo a estabelecer uma certa conexão com a personagem mais sombria, Koba, em A Guerra notamos uma maior superficialidade das mesmas. Enquanto espetáculo visual e continuação da história de Caesar, o filme satisfaz qualquer pessoa que o assista. Porém, e infelizmente, enquanto continuação dos dois volumes que lhe antecedem, não tem a força necessária para suplantar o trabalho que já fora conseguido. No fundo, era o que se pedia!

5/10

Ficha Técnica

Título: War for the Planet of the Apes

Realizador: Matt Reeves

Argumento: Matt Reeves, Mark Bomback

Género: Ação, Aventura, Drama

Duração: 240 minutos