A música sempre esteve lá, mas nunca ninguém a tirou da garagem, até ao ano de 2012. Hugo Ferreira aproveitou a onda crescente de bandas em Leiria e montou uma editora musical com artistas da terra: a Omnichord Records. Cinco anos volvidos já lá vão uma dúzia de álbuns e muitos quilómetros de estrada corridos, naquele que promete ser apenas o começo da viagem.

Há várias maneiras de chegar à música. Hugo Ferreira, fundador da editora, optou pelo caminho da verdade e será sempre este o tom desta editora discográfica. Se os lugares comuns existem é porque, em grande parte, resultam. O sucesso da Omnichord resume-se por isso ao mais simples de tudo: ao amor. Pela música, pelas pessoas e pela cidade de Leiria que os vê crescer desde há cinco anos.

No início, era a rádio onde a sua paixão pela música foi impulsionada por nomes como Fausto ou Braga na Rádio Universidade de Coimbra. Se não fosse essa passagem por lá talvez a Omnichord “nunca existisse”, adianta Hugo Ferreira. A ânsia de querer fazer coisas fê-lo regressar à sua cidade de sempre. A entrada na Fade In – uma associação de ação cultural leiriense – deu o empurrãozinho final: fazer contactos e angariar parceiros para levar avante esta ideia.

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Da cidade dos estudantes para Leiria, onde gere uma fábrica de moldes, foi por isso um pequeno salto. Hugo Ferreira, para além de apaixonado por cantigas também o é pelas bandas que gere. Desde a pré-produção do disco, passando pela pós-produção e pelos videoclipes: tudo tem a mão deste intelectual da música que a “vive e a respira como ninguém”, confessaram os First Breath After Coma.

As comparações são inevitáveis e embora as afaste, rapidamente se fala na Omnichord como a Factory Records portuguesa e de Hugo Ferreira como o novo Tony Wilson. Para o fundador da Omnichord “as comparações estão erradas e nunca resultam”. O nome da editora surgiu precisamente em memória do instrumento da Suzuki – o Omnichord. Concebido para quem não saiba notas musicais e ainda assim queira fazer música, o instrumento é utilizado pelos Nice Weather For Ducks e foi por isso o nome escolhido para a editora. Afinal de contas foi com esta banda que tudo começou.

Corria o ano de 2012 quando Nuno Filipe (membro dos The AllStar Project, dos Phase e ainda dos Born a Lion),  João Santos  (produtor dos The AllStar Project) e Hugo Ferreira se juntaram para gravar o álbum Quack!, dos Nice Weather for Ducks. Desde então até aos dias de hoje já lá vão onze bandas e doze álbuns gravados com o selo da Omnichord Records.

Falar do panorama musical de Leiria é também falar dos Silence 4. No entanto, desde o desmembramento da banda, em 2001, nunca mais se voltou a ligar a cidade à música. Telmo Soares, um dos membros dos First Breath After Coma, defende que sem a presença desta editora a vida deles ficaria muito mais complicada e, provavelmente, ninguém saberia quem eles eram.

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No entanto, o clima musical irreverente mantinha-se, embora fechado em garagens ou  em pequenos concertos “porque não havia ninguém que tirasse as bandas de lá”, contou Gil Jerónimo, membro dos Les Crazy Coconuts. O artista não tem dúvidas de que com a editora o caminho para o sucesso será sempre “uma questão de tempo e persistência”. Telmo Soares, dos First Breath relembra que “só custou o início”.

O começo de tudo foi o mais difícil e após o surgimento de duas bandas jovens que puseram fim ao silêncio que persistia na era pós-Silence 4, o vocalista da banda leiriense justifica a tempestade de bandas recorrendo ao “efeito bola de neve”. Porém, esta onda positiva e quase orgástica a nível musical corre o risco de não se perpetuar no tempo uma vez que “assim como na vida”, também “a música é feita de ciclos”, refere Telmo Soares.

Débora Umbelino, ou Surma – para descomplicar -, revê-se nesta editora que “apostou e mudou a sua vida”. Primeiro foram as bandas de covers, depois as aulas de piano e guitarra e por fim uma tentativa fugaz na bateria. Mas foi enquanto Surma que Débora se sentiu mais confiante e realizada. O empurrão que a Omnichord deu à artista fez com que de uma aldeia pequena perto de Leiria “onde nunca se passa nada” Surma passasse a festivais europeus.

Quanto ao estilo musical, Hugo Ferreira não revela preferências. A Omnichord é uma editora independente que preza a liberdade mais do que tudo e nessa perspetiva “todos os estilos musicais são bem-vindos”. Existe apenas uma importante premissa: “A música tem que ser boa”. A cidade, apesar de todo o hype que a envolve, tem ainda que colmatar muitas falhas a nível cultural e musical. Leiria não é Lisboa, nem é o Porto.

Talvez esse fator a impeça de fazer algo maior, ou talvez não. Talvez este seja o ambiente indicado para a Omnichord. Gil Jerónimo, membro dos audazes Les Crazy Coconuts, explica porquê: “Leiria é uma cidade, mas com a ideia de aldeia bem presente. Todos se conhecem e acabam por partilhar instrumentos, ideias e até bandas. A amizade que se vai criando com outros músicos faz com que mais projetos apareçam e mais bandas possam surgir”. Aqui, o que se perde em centralização ganha-se em liberdade individual.

Desde o pós-rock romântico dos First Breath After Coma, à eletrónica ternurenta da Surma, passando pela elegância de André Barros, pela irreverência dos Les Crazy Coconuts e pela leveza dos Nice Weather For Ducks, até à força dos Born a Lion: tudo nesta editora foge aos padrões ocos que as grandes marcas das músicas querem impor à força. E isto tem a sua explicação. Diz-nos Hugo Ferreira que “em Leiria sempre existiu uma contracultura. Nunca houve Pop. Sempre se respirou um ambiente independente e alternativo nesta cidade”.

Talvez seja também isso que torna Leiria e a Omnichord tão especiais, ou não. Hugo Ferreira rejeita esta ideia de que a cidade “é um poço de criatividade”. No entanto, Telmo Soares, dos First Breath After Coma, em tom de brincadeira pôs a hipótese de em Leiria “a água do cano ter um PH diferente”.

A Família Omnichord

Da Covilhã para Leiria foi um saltinho. Na rádio do carro onde seguia lá estavam eles com The Misadventures of Anthony Knivet e com o Drifter. O último, nomeado pela IMPALA, para um dos álbuns independentes do ano (ao lado dos Radiohead, por exemplo), é um belo exemplo de como a vida pode ser festejada com a música. Que beleza dos First Breath After Coma. Quarenta e cinco minutos numa catarse que me obrigava a viajar em (quase) piloto automático. Chegados a Leiria, o festival A Porta, era já ali mesmo no centro do parque da cidade.

A família reunia-se para ouvir um novo projeto daquilo que eles melhor sabem fazer: música. “O pai”, orgulhoso do percurso dos mais novos, convencia-nos fervorosamente a ficar até ao fim para ouvir os Jerónimo. E ainda bem. Ficámos e fomos confrontados com a ainda experimental eletrónica dos três irmãos que se juntaram, finalmente, para fazer música.

Nuno, Gil e Luís partilham o apelido e não só: também partilham família. Os irmãos Jerónimo são a personificação ideal da Omnichord Records. Nuno, o mais velho, influenciou os mais novos a entrarem nisto da música. Foi o primeiro a ter bandas e neste momento segue um legado folk nos Few Fingers. Luís Jerónimo, pertence aos Nice Weather for Ducks graças aos instrumentos do irmão e ao jeito para criar melodias – talvez o primeiro fator tenha tido “mais preponderância”, disse o mais velho. O terceiro elemento da família Jerónimo pertence aos Les Crazys Coconuts.

A banda da qual Gil faz parte alia um ritmado sapateado de Adriana Jaulino a uma batida eletrónica e rockeira introduzida pelo irmão Jerónimo e por Tiago Domingues. Uma família que se alastra com a entrada das restantes bandas e elementos que as compõem. Quem o diz são Nuno Jerónimo, Surma e Hugo Ferreira.

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A Omnichord pretende continuar por muitos e bons anos e mesmo que o aparecimento diligente de bandas se esgote, o final da canção será sempre adiado até à eternidade. Alguma coisa esta malta andará a fazer bem para que em Leiria se viva, se toque, se respire e se partilhe música desde sempre. Apesar do longo caminho que falta percorrer para tornar este projeto financeiramente autónomo, o mais bonito da música – a poesia – está lá desde o início. Alguma coisa esta gente andará a fazer bem para que, cinco anos volvidos, a única verdade continue a ser a música.

 

 

Reportagem elaborada no âmbito da cadeira de Atelier de Jornalismo, na Universidade da  Beira Interior.