A série estreada no ano de 1990, êxito que se tornaria em cult, conta agora com a sua terceira temporada, intitulada Twin Peaks: O Regresso. Esta nova série, que arrancou a 21 de maio deste ano, é inteiramente realizada por David Lynch, trazendo também novamente Mark Frost para a escrita.

Na despedida, deixámos o Agente Cooper de testa ensanguentada, sorrindo descontroladamente. Agora reencontramo-lo, exceto que este não é ele. O enredo, guardado a sete chaves, revela-se lentamente, sendo que tudo se passa 26 anos depois do desaparecimento do agente, após a sua fuga do Black Lodge.

A antecipação, gerada durante mais de duas décadas, era mais que muita e quase impossível de se conter. Nessa noite de maio, o mundo conheceu a nova visão de Lynch (e Frost) e encontrou um Twin Peaks muito distinto daquele que tinha deixado.

Oito episódios depois, ouvem-se de um lado louvores ao brilhantismo do seu realizador, e do outro um coro de fãs desapontados com o novo tom que a série adotou.

 

A mais óbvia diferença será que Twin Peaks já não se restringe apenas à cidade de Twin Peaks. Já Fire Walk With Me (1992), por motivos bem distintos, descentralizava o seu foco da pequena cidade para outros cenários. O estilo telenovelesco que combinava com a investigação criminal é agora substituído por um novo modus operandi.

A série foi catapultada para a era moderna e tecnológica, para uma convivência à distância. As pistas, outrora deixadas no nosso quintal, estão agora espalhadas por múltiplas cidades, na forma de sujeitos, de vidas e de episódios. As implicações aqui não são as mesmas. O assassinato de Laura Palmer nunca foi só uma morte, mas é-nos dado agora espaço para o olhar sob perspetivas que rompem com o seu campo temporal.

A audiência estaria habituada aos diferentes sub-enredos, mas não a ser forçada a acompanhar uma “caravana em movimento” que até ao sexto episódio contava já com 130 personagens (fora a misteriosa voz de Phillip Jeffries).

Kyle MacLachlan como Dougie Jones

Kyle MacLachlan como Dougie Jones

O humor, sempre singelo e inocente, revela-se agora mais maduro. As peripécias de Lucy e Andy, que tanto faziam as delícias dos espectadores, são agora as crises de meia-idade de dois pais entristecidos por uma vida que não conhecemos ao certo. O agente do FBI, agora caído num limbo, volta mais uma vez para liderar o humor da série por entre balbuciares e divagações de alguém que tenta voltar ao contacto com a realidade.

Shelly Johnson (Mädchen Amick) e Norma Jennings (Peggy Lipton)

As personagens repetentes, prometidas em entrevistas e capas de revistas, apresentam uma presença fantasmagórica, aparecendo aqui e ali, seguindo a sua vida, mais ou menos distantes, mas nunca inteiramente absolvidas do seu papel. A ideia de que duas décadas depois voltaríamos para acompanhar o nosso agente favorito ao “Double R”, numa reunion nostálgica e sentimental, rapidamente se revela ilusória. A vida continuou nestas duas últimas décadas, e seria no mínimo injusto que pedíssemos o contrário a Twin Peaks.

Os temas amarelados e castanhos de lembrança rural, próximos da natureza, da madeira de serração foram também alvo de uma atualização. Já em 2006, ano de Inland Empire, Lynch confessou o seu amor pelo cinema digital e pelas suas possibilidades. Agora em Twin Peaks a evolução confirma-se, Cooper não se tornou apenas dramaticamente mais sombrio, mas é agora rodeado pelos tons escuros – totalmente digitais – e pelo CGI (Computer Generated Images), esse facilitador da visão distópica do seu realizador.

"A mulher sem olhos"

“A mulher sem olhos”

O espaço e a sua utilização são reinventados. Os concertos no “Roadhouse” funcionam como interregno, reflexo emocional, ou antes, musical da própria atmosfera de cada episódio. Por entre locais mundanos, encontramos outros tanto bem mais enigmáticos. Seja a fria residência rodeada de um mar de tons roxos em que a mulher sem olhos habita; ou o edifício monocromático vintage onde o nosso gigante se encontra, percebemos que percorremos locais que fogem às regras terrestres, físicas e empíricas.

“It is Happening Again”

Muitos têm sido aqueles que, olhando para esta nova obra, vislumbram marcas de Eraserhead (a primeira película de Lynch) ou que encontram até semelhanças entre short movies e quadros que o realizador desenvolveu nos últimos anos. Os livros relativos à série passam agora a ganhar um novo destaque, sendo que Twin Peaks: An Access Guide to the Town ou The Autobiography of FBI Special Agent Dale Cooper: My Life, My Tapes funcionam agora como enciclopédias para entender muitas das pistas que nos são dadas.

Lynch está definitivamente mais destemido, encontrando um espaço na televisão americana para desenvolver os seus mantras espirituais. Depois de se ter dedicado, nestes últimos anos, à música e pintura, volta agora combinando todos os elementos numa paleta artística que nos soa a revolução.

O mais recente episódio, número oito, mereceu toda a atenção que teve. A verdade é que podemos não ter desbloqueado a sua importância na totalidade para a série, mas certamente ninguém terá ficado indiferente ao espetáculo audiovisual que nos foi proporcionado. Esta não é televisão convencional, justamente como Twin Peaks não o foi em 1990.

Teste da bomba atómica em “Trinity” (episódio 8)

O motivo deste regresso será ainda incerto e qualquer tentativa de explicação será imprudente, porque se Lynch ensinou alguma coisa ao seu público em 1991 foi que há finais que são realmente impossíveis de prever. Claro que nada nos impede de, silenciosamente, formularmos as nossas próprias teias de conspiração, a nossa própria visão precipitada, incompleta e pessoal do que se passa neste universo de cortinas encarnadas e diálogos revertidos.

Perante toda esta incerteza Lynch permanece brilhantemente silencioso. Já lá vão 26 anos. Afinal o rio corre melhor sem uma barragem.