NOS Alive
Fotografia: Beatriz Silva

NOS Alive: A selva de The Kills antecipou o rock frenético de Foo Fighters

Pisamos a relva sintética do Passeio Marítimo de Algés para segundo dia de NOS Alive, aquele dia que viria a ser o do rock e onde o preto foi dominante. Foo Fighters, The Kills, Savages, The Cult, Courteeners e Warpaint coloriram esta sexta-feira e deram música que chegue para abanar as ancas.

Início de tarde à portuguesa com visita à cena indie de Manchester

Tiago Bettencourt foi o primeiro a ser atirado às feras num dia em que a maioria estava claramente desinteressada em ouvir outra coisa que não Foo Fighters. O português não desiludiu e tentou, dentro do possível, ir aquecendo a plateia com a boa música portuguesa que sabe fazer. Entre clássicos, uma coisa ou outra dos Toranja e algumas canções mais recentes, quando olhamos para o relógio já ele estava a acabar o set e era tempo de receber os britânicos Courteeners.

Os naturais de Manchester continuaram com as dificuldades com que todos se depararam ao longo da tarde: o público era bem massificado e não se deixava domar pela música das outras bandas que tocaram antes dos cabeças de cartaz. O público britânico, que ali se encontrava em força, vibrou muito com os Courteeners, mas apenas Not Nineteen Forever foi capaz de animar o palco NOS.

The Cult mostram o porquê de serem uma banda de culto

Não é por acaso que os The Cult se chamam assim, muito menos quando é realmente verdade que a banda britânica foi definitiva para aquela geração entre os anos 80 e 90.

A programação deste dia de NOS Alive não foi a melhor e a hora a que os The Cult tocaram foi pouco favorável à banda de hard-rock. Ian Astbury, o vocalista, bem tentou e gritou “motherfuckers! Wake up”. Não tiveram um início de concerto propriamente fácil, no entanto, a certo momento, começaram a lançar hits para o público português como quem lança amor e lá foi melhorando.

Sweet Soul Sister vendeu bem, She Sells Sanctuary esgotou e aí se uniram as vozes no Passeio Marítimo de Algés. A atitude rock star de Ian e o som viril que lhes escapava das guitarras aqueceram bem os corpos e vozes dos que esperavam ansiosamente Foo Fighters.

Bem-vindos à selva dos The Kills

Primeiro aviso à navegação: não é fácil ver um concerto destes meninos rodeado de fãs sedentos pela hora do concerto de Foo Fighters. Mas tentámos esquecer o burburinho mal disposto desses fãs que nos rodeavam e viver em pleno mais um concerto incrível de Jamie Hince e Alison Mosshart.

O rock pode andar morto, mas muitas bandas, como a que estes dois compõem, fazem-nos repensar essa afirmação. Editaram Ash and Ice em 2016 e com ele este concerto foi crescendo, começando com a determinante Heart of a Dog, que mostrou àquele público que eles não brincam ao rock n roll.

Revisitaram temas dos seus primórdios como a desafiadora e bluesy Kissy Kissy e uma Monkey 23 relembrando que os The Kills fazem música rock diversa e não só com guitarras pesadas. Blood Pressures e Midnight Boom, editados em 2012 e 2008, respetivamente, fizeram aparições sólidas na noite de Algés e com elas o público poderia ter cedido finalmente à magia dos rockeiros… e eles ali permaneciam tentando arrancar reações de um público (infelizmente) apático.

A rítmica e apaixonada Echo Home, tal como aconteceu no NOS Alive, é uma razão perfeitamente aceitável para darmos os parabéns aos The Kills e nos conformarmos com a culpa de plateia que não lhes correspondeu com a mesma moeda. Houve a divertida Pots and Pans, uma Doing it to Death elétrica e uma No Wow para acabar que, por vários motivos, pode não ter sido a melhor maneira de acabar o concerto que por si só já tinha sido desconcertante o suficiente.

Nem a monstruosa energia de Alison e a imponente atitude de Jamie chegaram para fazer derreter o público que era ameaçado com a chuva que aos poucos caía. Ora acendia um cigarro ora corria pelo palco maniacamente e os dois lá tinham um momento próximo e intenso como é de costume. Portugal sempre os recebeu com amor e carinho, contudo as 55 mil cabeças à frente do palco NOS responderam gelidamente ao convite para uma noite de rock visceral e cru.

Foo Fighters: lição de como se dar um concerto rock

Chegava assim o concerto mais esperado da noite. Senhoras e senhores, os Foo Fighters. Arrancaram com hits, rapidamente avançaram para as grandes canções como Times Like These e Learn To Fly, que tiveram o público como coro. E lá pelo meio houve a famosa palhaçada de Dave Grohl.

A estrela mais humilde e divertida do rock brincou muito e até tivemos direito a um mini cover de Another One Bites the Dust. Introduziu a banda com ar de piadolas, cantou-se o hino nacional e despejaram êxitos e mais êxitos. As guitarras afinadas, as baterias dinâmicas e a maquinaria oleada fizeram dos Foo Fighters os reis da noite e, quem sabe, de toda a edição deste ano do NOS Alive. Certo é que tinham uma das maiores enchentes de sempre para verem o rock do ex-Nirvana e companhia.

Portugal esperava há exatamente seis anos pelo regresso destes campeões e Grohl não desapontou um bocadinho. Assim que entrou em palco e se iniciaram as correrias e os berros: eram is Foo Fighters com certeza. Lá para o meio do concerto chamaram Alison Mosshart dos The Kills para um dueto na inédita La Dee Da, incluída no novo álbum da banda, que sai em setembro.

Duas horas após o início do concerto ainda houve tempo para se entoar bem alto Best of You e fazer o clássico término com Everlong. Os intermináveis anos de espera valeram mais do que a pena neste dia cheio de rock e, como se fosse necessário, Dave Grohl e os amigos (como ele se introduziu ao festival) provaram que estão no topo do rock e assim vão permanecer durante muitos e longos anos.

Um Heineken à maneira

Para quem se girava pelo palco Heineken, o segundo dia do festival teve um cartaz bem composto e para todos os gostos. A festa começou cedo com as Savages, que tocaram a uma hora redutora e mereciam muito mais. As britânicas deliciaram um público que esperava somente pelo seu concerto e, mesmo sendo ainda durante a tarde, rebentaram com os pés e as vozes que compunham o Heineken.

A frontwoman Jehnny Beth encarnou o post-punk e a sua postura avassaladora mergulharam no público para o deleite dos que se encontravam na primeira fila. Despejaram as canções, não respiraram e confirmaram a ideia de que são uma das bandas mais tempestuosas que há por aí.

Seguiam-se as Warpaint, que não desiludiram num dia dedicado ao rock e às power bands femininas. O brilhante rock experimental a la Los Angeles é a sonoridade chave das quatro aventureiras que tomaram o público português de assalto e prometeram voltar. Mediram-se passos de dança e afinaram-se vozes que iam ser requisitadas para o resto da noite. As Warpaint são realmente um bom aquecimento.

O indie rock regressou mais uma vez à cidade, com os Local Natives, claramente hyped por estarem em Algés na companhia dos festivaleiros. Ambas as partes interagiram infinitamente e a certo momento Taylor Rice, o vocalista, nadou no meio da multidão. Com isto, as relações portuguesas com os nativos cimentaram-se ainda mais.

Hoje, no dia de encerramento do festival, esperamos Imagine Dragons, Kodaline, Cage The Elephant e os cabeça de cartaz Depeche Mode.

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