Homem-Aranha: Regresso a Casa – É este o eterno puto maravilha

A batalha por juntar o mítico cabeça-de-teia ao Marvel Cinematic Universe (MCU) foi árdua. Até a Sony – que já nos trouxera uma trilogia realizada por Sam Raimi e um reboot inacabado de dois filmes de Marc Webb – ter cedido o controlo criativo à Marvel. O sonho dos fãs parecia finalmente concretizado e, finalmente, chega às salas Homem-Aranha: Regresso a Casa. Um regresso às origens adolescentes de Peter Parker, desligado do tom mais sério de Raimi e, numa menor extensão, de Webb. É desta que o Homem-Aranha veio para ficar?

Peter Parker (Tom Holland) volta à sua vida de adolescente comum depois da repentina entrada em ação em Berlim (em Capitão América: Guerra Civil). Relegado para a mesma rotina de liceu, aos cuidados da sempre atenta tia May (Marisa Tomei), Peter não se conforma com a normalidade, acabando por sair todos os dias para combater o pequeno crime em Nova Iorque. Com a chegada de um novo vilão às redondezas (Michael Keaton), Peter decide que não vai adiar mais a prova do seu valor ao seu mentor, Tony Stark (Robert Downey Jr.), e segue-se um desafio que definirá a admiração popular, e a sua própria aceitação pessoal, como Homem-Aranha.

homem aranha regresso a casa

O MCU cada vez mais dá sinais de fadiga; entre aborrecidos cruzamentos de personagens, como Capitão América: Guerra Civil (2016), ou sequelas demasiado longas e com escassez de verdadeiras ideias – falamos do recente Guardiões da Galáxia: Vol. 2 – é refrescante ver uma entrada neste universo que resulta numa quase-plenitude. Homem-Aranha: Regresso a Casa é mais que o segundo regresso de Peter Parker e o seu alter-ego, é a derradeira chegada do Parker da banda-desenhada, e com toda a ligeireza adolescente que isso acarreta para o enredo. É agradável assistir a uma trama que flui sem arrastos e em que todos apontamentos cómicos batem certo.

Não há nada de efetivamente diferenciador na realização de Jon Watts (que nos trouxe um decente Carro da Polícia em 2015), apenas a promessa de um escapismo cinematográfico que resulta. Por um lado, agrada aos fãs mais acérrimos de banda-desenhada, por outro, ao espetador comum, que por esta altura já não tem motivos para acreditar na força de uma nova adaptação ao cinema das aventuras do herói aracnídeo. E às vezes, só faz mesmo falta esse escapismo balançado, que atinge todas as notas certas.

Há, por certo, alguns tropeções. Erros de casting, uns quantos. Keaton não é ainda o grande vilão que o MCU tão fortemente procura, e Jacob Batalon, como Ned, o melhor amigo de Peter, ainda que não chegue a ser irritante em todo o seu comic relief, muitas vezes estica a corda. Já quanto a Tomei, é refrescante ver a eterna tia May numa abordagem mais jovem, mas a piada óbvia quanto a não ser a típica tia de meia idade já é repetida para a câmara demasiadas vezes desde Guerra Civil, no ano passado.

A respeito de Holland foi a escolha ideal para Peter Parker. Uma aparição forçada em Guerra Civil fez duvidar, mas não nos enganemos, este é o verdadeiro Parker. Holland é simplesmente isso: um miúdo vulgar, que exala humildade e um desejo: mais do que ser alguém, ser o alguém com quem todos podem contar. A honestidade da sua expressão não engana, e entre as vergonhas e triunfos que Parker atravessa, sobressai sempre uma inocência bem-intencionada, que, em definitivo, define o personagem em cinema.

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Os maiores fãs podem nunca ter duvidado, mas para o público em geral, Homem-Aranha: Regresso a Casa podia ter sido somente mais um tropeção cinematográfico, como Homem-Aranha 3 (2007) e O Fantástico Homem-Aranha 2: O Poder de Electro (2014). Felizmente, não é de perto nenhum dos dois, e ainda que nunca chegue à mestria do blockbuster-referência Homem-Aranha 2 (2004), depressa entendemos que o objetivo não passa por aí.

Este é um novo Peter, um novo Homem-Aranha, próximo daquilo que agora o cinema comercial procura. E se for preciso trocar alguma da asfixia e cortante dilema moral, em favor de uma descontração mais juvenil, não nos podemos queixar se a meta for esta.

O justiceiro de Nova Iorque está de regresso aos cinemas, e pode não ser o salvamento do cinema de verão, mas é uma bóia que nos mantém à tona e ainda nos dá alguma esperança na onda de remakes e reboots em que Hollywood entrou na última década.

Peter é um puto porreiro, e Homem-Aranha: Regresso a Casa é tal e qual o seu protagonista: um filme porreiro.

P.S.: Boa sorte a detetarem o cameo da Jennifer Connelly.

 

7/10

Título original: Spider-Man: Homecoming
Realização: Jon Watts
Argumento: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Jacob Batalon, Laura Harrier
Género: Ação, Aventura, Ficção Científica
Duração: 133 minutos

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