… variados. Do indie ao hip hop, sem esquecer aquilo que se faz por cá, 2017 tem sido farto em lançamentos que nos fazem bater o coração.

Feist – Pleasure (abril)

Era aquele disco de entrada na primavera de que estávamos mesmo a precisar. Melódico o suficientemente sujo e experimental quando tem de ser, o regresso de Leslie Feist em nome próprio não poderia ter sido melhor. O lado catchy de Pleasure, tema homónimo, contraste impecavelmente com a dor de I wish I didn’t miss you mas confessamos que Century com Jarvis Cocker dos Pulp nos assombrou completamente. ACS

Luís Severo – Luís Severo (março)

Depois de em 2015 ter lançado Cara d’Anjo, Luís Severo voltou ao estúdio para gravar um álbum homónimo. O cantor, que deixou de ser “moço” para passar a ser “homem” escreve sobre Amor e verdade, nesta viagem romântica pela cidade de Lisboa. Este disco tem tudo: boas letras, boas melodias e simplicidade.
Um álbum sem tretas, bonito que se debruça – para além do amor e outras inocências – sobre a “avalanche” do medo e a idade adulta. Amor e Verdade, Planície (tudo igual), Escola e Lamento são canções obrigatórias nas playlists para este verão. GA

Future Islands – The Far Field (abril)

À partida, qualquer música em que Samuel Herring entre será genial. Foi assim com os BadBadNotToGood e é assim, continuamente, nos Future Islands. O Senhor da dança do macaco e a sua banda lançaram o seu quinto álbum: The Far Field. O disco é uma tese romântica, sem pirosadas e sempre com um ritmo viciante em que músicas como Time On Her Side, Ran e North Star surgem como as minhas favoritas. GA

PZ – Império Auto-Mano

PZ anda à conquista de um império auto-mano em que todos nós somos soldados. Com uma base melodiosa minimal e entusiasmante, entre um quase hip-hop e outra coisa qualquer, de pijama, o artista lança um olhar cómico sobre a sociedade com muitas figuras de estilo à mistura. Afetado, claramente, por uma grande Fome de Lulas, o músico experimental aborda nesta tragi-comédia a rapidez e instantaneidade do mundo e o tempo das máquinas – reforçado pelos beats quase mecânicos. GA

Kendrick Lamar – DAMN. (abril)

A mais recente obra de arte do King Kendrick não podia deixar de estar presente nesta lista. Apesar de, para muitos, não estar ao nível de To Pimp A Butterfly (2015), não deixa de ser um excelente álbum, que nos permitiu estar perante mais um momento de criatividade e soberania do melhor da atualidade.
Lamar não nos surpreendeu, mas também não nos deixou ficar mal com um disco repleto de músicas intensas e uma colaboração, no mínimo, inesperada com os U2. Este álbum ultrapassa um nível mais pessoal patente nos seus últimos álbuns e revela-se como uma crítica social geral aos Estados Unidos. BP

Mac Demarco – This Old Dog – maio

Não há dúvida que o mais recente álbum de Mac Demarco merece um lugar de destaque nesta tabela. É por intermédio de 13 canções que o músico expressa o lado emocional que, devido à sua atitude tranquila, raramente dá a conhecer. Para os apreciadores do jovem canadiano, este disco foi certamente um dos momentos mais empolgantes no mundo da música desta primeira metade do ano. FS

The xx – I See You (janeiro)

Melodias tranquilas e narrativas fortemente emotivas, produzidas de maneira simples e equilibrada. É com isto que os The xx nos têm vindo a conquistar desde 2009. Os trompetes da primeira faixa deste disco, imediatamente seguidos de batidas e guitarradas, pareciam misteriosamente anunciar uma mudança.
Um disco mais maduro, mais aberto e expansivo, com uma grande liberdade de composição e de arranjos que ruma a um tipo de música mais radiofónica, embora íntima e sensual, que se posiciona entre a eletrónica e o indie rock. Os The xx conseguiram apresentar-nos um disco excêntrico que envolve a mesma intensidade emocional, mas com mais profundidade, pulsação e cores. VS

Father John Misty – Pure Comedy – abril

Cómico, humanista e vulnerável tal como Father John Misty já nos tem habituado. Pure Comedy foi, para mim, o melhor álbum do ano até agora, pois a sátira e a ironia com que Josh Tillman retrata a nossa sociedade, o mundo e a própria condição humana são de louvar.
É a verdadeira ode ao ser humano que troca a sua vida pela realidade virtual, ao homem moribundo que antes de partir vê o feed de notícias, a todos os velhos do Restelo e a todos os otimistas por aí. Misty não precisa de grande complexidade instrumental para nos maravilhar, porque as letras, por si só, fazem o trabalho de nos levar por uma jornada de profunda reflexão. Quando a Humanidade falha resta-nos o sarcástico Pure Comedy, pois, por muito séria que seja a situação, nós fazemos parte dessa comédia. CR

Com uma carga instrumental tão grandiosa e bela, o terceiro álbum de Father John Misty poderia remeter para uma faceta tão romântica como a do seu I Love You Honeybear. Porém, Josh Tillman fez deste trabalho uma carta a uma sociedade prestes a assistir à sua própria ruína, podendo servir como que a banda sonora da decadência.
Nos tempos difíceis em que vivemos, Pure Comedy torna-nos conscientes das nossas próprias imperfeições, ao mesmo tempo que as cobre de uma beleza algo desconcertante. É como que uma parábola do próprio mundo e da própria vida. O álbum perfeito para o fim do mundo… ou só para o fim do dia. AR
Escolhas de Alexandra Correia Silva, Gonçalo Almeida, Bárbara Pereira, Francisco Serra, Vânia Santos, Carlota Real e Ana Rosário.