O dia 14 de julho marca a data da estreia mundial da nova produção original To The Bone, na Netflix. O filme conta com a participação da atriz Lily Collins, que veste a pele de Ellen, uma rapariga rebelde com um grave distúrbio alimentar.

Escrito e realizado por Marti Noxon, que assinou séries televisivas como Buffy The Vampire Slayer e UnReal, To The Bone revela toda a habilidade de contadora de histórias desta veterana do universo televisivo, numa estreia digna de destaque no universo dos filmes.

Lily Collins; To The Bone

Lily Collins é Ellen em To The Bone

Lily Collins; To The Bone

Contando com o desempenho irrepreensível da protagonista, assim como de atores como Keanu Reeves Carrie Preston, Noxon surpreende com o argumento de To The Bone. É uma abordagem a nu e cru de todos os problemas decorrentes de uma doença e dos desafios de autoestima que jovens mulheres enfrentam para tentar corresponder a padrões de beleza: ora idealizados pela sociedade, ora concebidos por elas próprias.

A controvérsia em torno do filme

Esta produção tem sido, contudo, alvo de críticas afiadas devido à sua representação de um distúrbio alimentar grave, algo que tem vindo a levantar inúmeras questões quanto à forma como uma temática tão sensível está a ser retratada na plataforma de streaming.

Mesmo antes da estreia, o filme já foi acusado de “embelezar” o problema real que é a anorexia, de forma imprópria e à moda de Hollywood, transformando a doença em “entretenimento barato” e sem ter em consideração possíveis consequências negativas daí decorrentes.

Inúmeros utilizadores do Twitter mostraram o seu desagrado perante o conteúdo do filme, onde se somam comentários que o acusam de associar um certo glamour aos distúrbios alimentares. As críticas apontam para o perigo de generalizar o estereótipo associado às pessoas que sofrem deste tipo de doença e de retratar de forma supérflua e errada a experiência agoniante de viver com a mesma.

Nesse sentido, surgiram também algumas comparações ao recente sucesso de audiências 13 Reasons Why, também criticada pela opinião pública por motivos semelhantes, nomeadamente por retratar a depressão e o suicídio como sendo, de certa forma, “aceitáveis”.

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Marti Noxon reagiu a estes comentários, afirmando que To The Bone foi um projeto levado a cabo com bastante cautela e sentido de responsabilidade e que não é a abordagem insensível à anorexia que muitos consideram que seja.

“Posto que também eu sofri de anorexia e bulimia perto dos meus vinte anos, sei em primeira mão as dificuldades, o isolamento e a vergonha que qualquer pessoa sente quando se encontra presa a esta doença.”, diz Noxon, “O meu objetivo com este filme nunca foi ‘embelezar’ os distúrbios alimentares, mas sim potenciar o princípio de um debate acerca de uma temática ocultada pelo secretismo e por ideias erradas com demasiada frequência. Espero honestamente que por colocar alguma ‘luz’ sobre a ‘escuridão’ destas doenças possamos alcançar uma maior compreensão e guiar aqueles que, neste contexto, precisam de ajuda.”

Marti Noxon; Lily Collins; Carrie Preston; Keanu Reeves; To The Bone

Marti Noxon com os atores Lily Collins, Carrie Preston e Keanu Reeves

Anorexia e bulimia: números reais

Nos Estados Unidos da América, pelo menos 30 milhões de pessoas de todas as idades e géneros sofrem de um distúrbio alimentar, sendo a doença mental que gera uma maior taxa de mortalidade. Na verdade, e olhando o problema a uma escala mais global, estima-se que a cada 62 minutos, pelo menos uma pessoa morre como resultado de um distúrbio alimentar.

Em Portugal, estima-se que o número de casos associados a doenças como a anorexia e a bulimia tem vindo a crescer. Em 2004, mais de mil mulheres recebiam tratamento hospitalar no país por efeitos nocivos destas doenças, di-lo o Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar (NDCA).

De acordo com estudos nacionais, a bulimia atingia, por essa altura, cerca de 3% das mulheres entre os 18 e os 30 anos. Já a anorexia nervosa era, ainda assim, uma doença um pouco mais rara, que atinge cerca de uma em cada 200 raparigas que frequenta o ensino secundário.

Especialistas alertam para a importância de fazer um diagnóstico precoce destas doenças, chamando a atenção de familiares e professores para os sintomas mais facilmente detetáveis: como a perda de peso súbita e acentuada, o isolamento progressivo, alterações de humor com acessos de agressividade, instabilidade emocional e a modificação repentina dos hábitos alimentares.