Eric Arthur Blair é o nome do homem que se esconde por detrás do escritor. George Orwell é o nome do escritor que, com as suas alegorias políticas e realidades distópicas, saltou do cânone literário inglês para o imaginário popular, tornando-se num dos intelectuais mais influentes do século XX.

O termo “Big Brother” pode actualmente ser conotado com um género muito específico de entretenimento, mas a verdade é que o homem que o cunhou tinha em perspectiva um cenário bem mais abrangente, sinistro e assustadoramente real do que aquele que foi projectado pela reality tv.

Neste domingo completam-se os 114 anos do nascimento do autor que nos trouxe 1984 e O Triunfo dos Porcos. Para assinalar a data, o EF decidiu recordar cinco filmes inspirados pelo universo literário de Orwell. Nesta lista, estão integradas tanto adaptações diretas dos seus livros para o grande ecrã, como longas-metragens que reproduzem e desenvolvem, à sua própria maneira, as tendências temáticas de um autor que se afigura, cada vez mais, como o Nostradamus dos tempos modernos.

Animal Farm (1954)

Na sua desconstrução alegórica da Rússia socialista, Orwell retratou uma quinta onde dois jovens porcos instigam à revolta dos animais contra a tirania do seu fazendeiro. Dado o facto de esta história ser povoada quase exclusivamente por personagens de quatro patas, compreende-se a dificuldade em traduzi-la para o grande ecrã sem recorrer à animação.

John Halas e Joy Batchelor optaram por um tipo de design que nos remete para os mais ingénuos filmes da Disney. Contudo, curiosamente, os seus cartoons só contribuem ainda mais para conferir a esta narrativa uma dimensão bizarra e grotesca, tornando os acontecimentos particularmente chocantes.

Profundamente cruel e violento, dificilmente a sátira política podia ser concretizada de uma forma mais contundente do que no trabalho destes dois animadores profissionais. George Orwell ficaria certamente orgulhoso.

1984 (1984)

Esta talvez não seja a adaptação mais fiel daquela que é considerada a obra-prima de George Orwell, principalmente quando comparada à versão de 1956, de Michael Andersen. Porém, o filme de Michael Radford é, geralmente, o primeiro a saltar-nos à memória quando pensamos em concretizações cinematográficas deste livro. Lançado, adequadamente, em 1984, o filme de Radford concretiza o feito raro de preservar a mensagem essencial do texto original, sem, contudo, se auto-acorrentar, logrando conservar a sua própria identidade.

Preocupando-se, acima de tudo, em captar a atmosfera depressiva e sufocante que premeia a obra de Orwell, Radford, em colaboração com o prestigiado director de fotografia Roger Deakins, suga a cor e a vivacidade aos seus planos de imagem, dando forma ao conceito narrativo da distopia. John Hurt também brilha no papel do insurrecto Winston, trazendo alma e coração a uma personagem que luta para fazer valer a sua individualidade perante as forças opressivas de um regime totalitário.

Brazil (1985)

Também Brazil tomou o universo de 1984 como ponto de partida, sendo que, durante o seu período de produção, chegou mesmo a ser considerado o título 1984 ½. No entanto, os ecos da narrativa de Orwell nesta obra de Terry Gilliam reduzem-se singelamente a algumas referências e paralelismos. Tal como 1984, também Brazil toma lugar sociedade distópica, sob um governo ditatorial, onde um homem – à partida – comum é conduzido à rebeldia pela descoberta do amor.

Com um visual peculiar – algures entre o surrealismo e o filme noir -, Brazil merece um lugar nesta lista pela perspectiva original e refrescante que nos propõe, do clássico de Orwell. A obra torna-se particularmente interessante se considerarmos que Gilliam admitiu ter escrito o argumento antes de ler 1984, apesar de ter usado a conhecida premissa como principal fonte de inspiração. Neste sentido, Brazil mostra-nos até que ponto o mundo criado por Orwell se incorporou na cultura ocidental.

Orwell Rolls in His Grave (2003)

A inclusão do documentário de Robert Kane Pappas nesta lista prende-se com o facto de ser uma obra que, no lugar de se limitar a transferir para o cinema uma das ficções do autor, ocupa-se, por outro lado, de identificar na realidade contemporânea os flagelos contra os quais Orwell, directa ou indirectamente, nos avisou. A tese que Pappas procura demonstrar na sua obra é a de que os media encobrem parcialmente a verdade quando ela se revela potencialmente comprometedora para a classe do poder.

Contando com a participação do Sr. Rebelde, Michael Moore, Orwell Rolls in his Grave direcciona o seu foco para todas as notícias que foram omitidas ou distorcidas por parte dos media oficiais, bem como para todas as mentiras que foram passadas por verdades. Lançando para discussão a ideia de que, ironicamente, é na era da informação que a Humanidade vive num estado de maior ignorância, Pappas sugere-nos que, afinal, 1984 é quando certos e determinados homens quiserem. 

V for Vendetta (2006)

 V for Vendetta desenrola-se no ano de 2020, num mundo pós-apocalíptico, onde grande parte da Humanidade foi arrasada por um vírus mortífero. Em Inglaterra, um regime totalitário garante a segurança, mas castra a liberdade dos seus cidadãos. O líder deste governo é Sutler (John Hurt), uma actualização do “Big Brother”, que também utiliza os ecrãs como forma de transmitir ordens aos seus súbditos.

Como não podia deixar de ser, V for Vendetta tem o seu próprio Winston (nesta história, o misterioso V, interpretado por Hugo Weaving) que, escondido por detrás da infame máscara que todos conhecemos e com a ajuda de Evey (Natalia Portman) pretende derrubar o regime.

Interpretado por muitos como uma crítica à administração Bush, V for Vendetta dá continuidade à missão de provar que a obra de George Orwell nunca foi tão actual como no mundo tecnológico do século XXI.