Forte. Irreverente. Feroz. Selvagem. Crua. Sexual. Foram algumas das palavras que surgiram num dos interlúdios da passagem de Ariana Grande por Lisboa. A elas a norte-americana acrescentou: gentil, suave, sensual, divina. No conjunto, são todas características que a cantora aparenta ter.

O vídeo, que antecedeu a não-tão-subtil Side to Side, funcionou como uma celebração do feminino. Entre os adjetivos, surgiram flashes de denúncia da cultura de violação: “Not asking for it”.

Ninguém estava a pedi-las quando um terrorista suicida se fez explodir no exterior da Manchester Arena, em maio. O ataque vitimou mais de duas dezenas de pessoas e pareceu destroçar a jovem artista. Interrompeu a digressão e pensou-se que o concerto na MEO Arena fosse cancelado. Seria a segunda vez, depois de um problema de saúde a ter impedido de atuar no Rock in Rio Lisboa, em 2016.

Na semana seguinte, depois do atentado, a voz de Be Alright voltou à cidade britânica. O concerto de solidariedade One Love Manchester foi organizado em tempo recorde e arrecadou mais de 11 milhões de euros para a Cruz Vermelha Britânica. O fundo, que foi criado em conjunto com a cidade de Manchester, irá beneficiar as vítimas e as famílias daqueles afetados pelo ataque de 22 de maio.

No rescaldo do ataque, a cantora publicou uma carta nas redes sociais. Nela mostrou ser um exemplo de coragem e apelou à esperança. “Não vamos desistir nem operar com medo. Não vamos deixar que isto nos divida. Não vamos permitir que o ódio vença”, escreveu. E continuou: “Em resposta a esta violência temos de nos unir, ajudarmo-nos uns aos outros, amar mais, cantar mais alto e de viver de forma mais gentil e generosa do que antes.

Coragem na pose, sem bravura na voz

Em dueto com Miley Cyrus, deu voz ao clássico Don’t Dream It’s Over, de Crowded House. “They come, they come / To build a wall between us / But we know they won’t win”, cantaram em uníssono. Mas a coragem e determinação com as quais ergueu a produção em Manchester não se fizeram sentir no domingo, no MEO Arena, em Lisboa. Embora tenha acrescentado a cover de Somewhere Over the Rainbow ao alinhamento da Dangerous Woman Tour, Grande mostrou-se pouco perigosa e não desafiou a ditadura do terror.

No final, foi o escapismo da música pop que venceu o medo. Foi a pop infecciosa e vibrante que, durante duas horas, substituiu a preocupação por ovação e trocou o terror pela dança. Ariana Grande apresentou-se com uma voz abafada: nas músicas, mas principalmente no discurso. No primeiro segmento, a soprano soou sufocada pela produção de canções como Be Alright e Everyday.

O seu desempenho vocal melhorou nos segmentos seguintes e a cantora foi competente na interpretação de outros êxitos como Side to Side, Focus e Greedy, mesmo nos momentos em que a coreografia era mais exigente. Nos momentos mais despidos de artifícios, como em One Last Time, na cover do clássico de O Feiticeiro de Oz e no encore Dangerous Woman, Grande deixou a voz respirar e quase que mereceu as comparações ao alcance vocal de Mariah Carey.

A ferocidade de que falava no interlúdio notou-se apenas na forma como se moveu em palco. A atitude foi confiante quando desfilou em palco, idêntica na forma como executou na perfeição os movimentos coreografados, e como chicoteou o sempre disciplinado rabo de cavalo.

Num concerto que arrancou com uma elaborada estratégia de segurança, como resposta à tragédia em Manchester, Grande não interagiu com o público para além dos típicos “obrigados” e dos sing alongs. Para além do momento de homenagem, com o hino de Judy Garland, a cantora não fez referência ao ataque nem tomou tempo para falar com o público. A sua plateia, esgotada com jovens raparigas com bandoletes com orelhas de gato e coelho, vê-a como um modelo a seguir. Mas se esperavam ouvir uma mensagem de força e resiliência, o seu ídolo dececionou.

Segundo a lista Global Peace Index, Portugal é, atualmente, o quinto país mais seguro no mundo. O final do concerto na MEO Arena não nos deixou com um sentimento de invencibilidade, nem nos inspirou a lutarmos contra as forças hostis que ameaçam a paz. Como a chuva de balões cor-de-rosa que caiu sobre o público durante Sometimes, o espetáculo criou uma cápsula de inocência, que nos isolou do mundo lá fora.

Mas à saída do recinto, enquanto caminhamos na multidão, observamos o corpo policial armado que supervisiona os transeuntes. A sua presença não nos faz sentir mais seguros. Percebemos que os tempos mudaram e, depois de Manchester, a experiência de um concerto popular talvez nunca mais seja a mesma. A caminho de casa, apercebemo-nos de que a qualquer momento o balão pode rebentar.