Com o primeiro dia mais cheio de todas as seis edições, o NOS Primavera Sound arrancou ontem com Run the JewelsJustice no centro das atenções.

Que a fórmula resulta, já se sabia. O Parque da Cidade é um convite por si só. O preço, apelativo para a norma europeia. A cidade, a gastronomia e as pessoas ajudam à coisa. Mas é no cartaz que o NOS Primavera Sound se tem destacado nos últimos seis anos.

Se este ano não há uma PJ Harvey, um Nick Cave ou até mesmo uma Patti Smith, foi no ano em que nenhum nome gigante veio que mais se venderam bilhetes. O passe geral e o segundo dia esgotaram, mas o primeiro não pareceu ficar atrás. É a meio da semana de trabalho e tem menos artistas, mas o recinto encheu.

A tarde começou na relva. Samuel Úria fez questão de mostrar à maioria estrangeira que em Portugal se montam bons concertos. Entre baladas nortenhas, gritos por Tondela e rock desastre”, Samuel criou empatia com o público, preencheu bem o espaço do palco Super Bock e esteve à altura.

Seguiram-se uns apáticos Cigarettes After Sex, que permitiram ao público descansar nas mantas amarelas, a fazerem o que sabem: música emocionalmente pesada, densa em camadas e que não resulta ao final da tarde do primeiro dia de um festival. Rodrigo Leão & Scott Matthew continuaram a onda, com a reviravolta de ter resultado. Pontos positivos pela versão de I Wanna Dance With Somebody de Whitney Houston, num cover ainda mais romantizada e calma.

A verdadeira festa começou com Miguel. As influências de Prince, principal influência do cantor norte-americano, estavam bem visíveis sonora e visualmente. O brilho da sua pop funk, e por vezes baladeira, aqueceu os corações – e os pés – daqueles que o viram. Num formato tradicional, com baixo, bateria e guitarra, Miguel alternou entre a sexyness de Coffee, a alegria de Do You… e a quietude de Sure Thing. Houve ainda tempo para How Many Drinks, iniciada com um sample de Swimming Pools (Drank) de Kendrick Lamar. A estreia não podia ter sido melhor e a espera pelo próximo concerto é, certamente, muito aguardada.

A energia do dia culminou em Run the Jewels Justice. A noite foi pautada por duos que preencheram o imenso palco NOS com duas das melhores atuações de sempre do festival.

Run the Jewels foram o concerto mais empático e político da noite. As letras pautadas por intervenções anti-corrupção, como é o caso de Lie, Cheat, StealKill Your Masters, foram acompanhadas de verdadeiras explosões de energia no público em temas como Legend Has ItNobody SpeakBlockbuster Night. O concerto começou com uma gravação de We Are the Champions – fazendo alusão ao Europeu do ano passado ou à Eurovisão deste ano? – e continuou com os sucessivos elogios à cidade e às pessoas da cidade. EL-P garantiu umas horas depois, no Twitter, que um dia virá morar para o Porto.

A noite encerrou com Justice. A dupla de eletrónica francesa trouxe os mixs de baixo distorcidos com influências disco e batidas dançáveis de álbuns consagrados da sua história. O espetáculo de luzes astronómico foi uma das coisas mais belas e bem construídas de um concerto no Primavera. O set prolongou-se durante cerca hora e meia mas havia espaço para muito mais, com o público a pedir mais no final.

NOS Primavera Sound continua hoje com Bon IverAngel OlsenKing Gizzard and the Lizard Wizard e muitos mais.

Fotografia por Mariana Gomes