Provavelmente toda a gente se lembra da primeira vez que ouviu a Sweet Child O’Mine. Independentemente do gosto de cada um, é quase impossível ficar indiferente a esta canção dos Guns N’ Roses, pois a bem ou a mal, esta foi um êxito de uma era que muito vingou na história da música.

Os Guns N’ Roses marcaram a juventude de várias gerações, mas acima de tudo, marcaram o início de uma jornada que seria a minha paixão pela música. É impossível esquecer a primeira vez que se ouve a voz insólita de Axl Rose em comunhão com os riffs fenomenais de Slash. Nos finais da década de oitenta, gostar de rock era quase sinónimo de gostar deste quinteto explosivo que tocava um som maciço e pesado.

Proveniente de uma época orientada pelo slogan Sex, Drugs and Rock n’ Roll, o grupo era caracterizado pela sua vida de excessos, polémicas, desavenças e concertos problemáticos que levaram a que fosse considerada por muitos, a banda mais perigosa do mundo. Todas estas desavenças culminaram num desmantelamento da formação clássica da banda, que acabou por viver na sombra dos seus tempos de glória.

Já há muitos anos que se almejava uma possível reunião da formação original da banda de Los Angeles. Não foi fácil aguentar todo este período de especulação, mas eis que em 2016 somos brindados com a notícia de que Axl Rose, Slash e Duff McKagan voltariam a pisar o placo em conjunto.

Se todas estas vinte e cinco primaveras de longa espera foram difíceis, este último ano não seria diferente. Entre ânsias e inseguranças, os fãs dos G N’R, que bem conhecem as desavenças e inconstância do grupo musical, aguardavam o dia 2 de Junho de 2017 na esperança de que o espetáculo não fosse cancelado por algum desentendimento gerado ao longo dos shows da Not In This Lifetime Tour.

Finalmente o dia do concerto chegou e cerca de 60 mil pessoas juntaram-se no Passeio Marítimo de Algés para reviver os 80’s ao sabor do Hard Rock que tanto caracterizou a época. Afinal, já estava na altura de dar uso àquela t-shirt esquecida no armário, e entre bandanas, cartolas e padrões escoceses, a grande maioria do público fez questão de se envolver no espírito e receber os artistas com vestuário alusivo à banda.

A noite de ontem foi sem dúvida o ponto culminante na vida de muitos destes fãs, que testemunhavam algo inédito nas duas últimas décadas. Poder presenciar o vocalista e o guitarrista originais em simultâneo é de louvar aos céus, uma vez que parecia ser algo bastante impossível há poucos anos atrás.

As cores vibrantes do por do sol serviram de plano de fundo para a abertura daquilo que seriam duas horas de muita emoção e energia. Eram quase nove horas da noite quando se ouviam disparos de armas que nos indicavam que o momento tinha chegado. A banda começou logo por surpreender ao subir ao palco sem atrasos, algo que era bastante recorrente nas suas digressões anteriores. Tudo parecia indicar uma mudança, e perante nós tivemos uns Guns N’ Roses com outra maturidade.

It’s So Easy foi o tema de abertura e de facto tudo pareceu fácil e simples naquele instante. Foi fácil emocionarmo-nos com apenas 3 minutos do espectáculo, foi fácil reviver a glória destes meninos e foi fácil para eles tocar numa harmonia que perecera durante um quarto de século.

Mesmo sem Steven Adler e Izzy Stradlin, os dois restantes membros da formação original, notou-se um sentimento crescente de confiança nos artistas em palco por parte do público. Dizzy Reed e Melissa Reese nos teclados, Richard Fortus na guitarra e Frank Ferrer na bateria acompanharam as três estrelas de rock, no que se revelava ser um restauro de toda a convicção e amor pela banda que se havia desmoronado desde as últimas atuações em território Lisboeta.

Seguiu-se um alinhamento de luxo, onde canções dos icónicos álbuns Appetite For Destruction e os dois volumes de Use Your Illusion não poderiam faltar. Mr. Brownstone, Welcome to the Jungle, Sweet Child O’ Mine, Nightrain, Civil War, November Rain e Live and Let Die foram alguns dos temas tocados por estes rockeiros agora já na casa dos cinquenta anos.

A inclusão dos covers de Black Hole Sun dos Soundgarden e Wish You Were Here dos Pink Floyd catapultaram o espétaculo para outro nivel, ao contemplar-nos também com duelos de solos entre Slash e Fortus.

Se em 2010 vimos um Axl longe daquilo que alguma vez fora, com pouca voz e completamente desconectado da banda que o acompanhava, sete anos depois aqui aparece ele na sua melhor forma para nos surpreender.

Durante a digressão com os AC/DC em 2016 já eram notáveis as suas melhorias, mas agora, sem gesso na perna, o seu show foi outro. Viajamos no tempo e vimos não só os seus rodopios efusivos com o microfone, mas também o seu característico momento ao acompanhar uma balada com o piano como só ele sabe tão bem tocar.

A magia de Slash

Chegando ao cerne da questão, o regresso de Slash à banda, foi um dos principais motivos pelos quais ninguém conseguiu ficar indiferente a esta nova tour. Considerado por muitos, um dos cinco melhores guitarristas de sempre, Saul Hudson, deixou todos em êxtase com a sua habilidade de tornar um simples vibrar de umas cordas numa melodia dos deuses. O silêncio durante os seus solos era constante, ninguém se atrevia a estragar aquela dádiva.

O guitarrista afro-americano interpretou temas do álbum Chinese Democracy do qual não fez parte, embora estes tivessem encaixado perfeitamente na sua guitarra. Como já seria de esperar, Speak Softly Love não podia faltar na setlist, tenso sido um dos momentos mais efusivos da noite.

Duff McKagan também obteve um grande papel de destaque. Era impossível não notar o espírito jovem e energético que o acompanhou durante o concerto. O baixista ainda chegou a tomar o comando dos vocais num dos temas e deixou o público boquiaberto com a sua prestação. Juntamente com Duff e Slash, o líder do grupo conseguiu justificar a razão dos Guns N’ Roses continuarem a ser uma das bandas mais aclamadas no mundo da música.

Não deixando de fazer jus ao género musical em que se insere, a banda acompanhou o seu alinhamento com vários efeitos pirotécnicos levando a plateia ao rubro no clímax das suas músicas. O entusiasmo quando a banda voltou para o encore foi abismal, visto que ainda havia temas para cantar como Patience e Whole Lotta Rosie dos AC/DC.

Uma noite na cidade do paraíso com Guns N’ Roses

Para encerrar o espectáculo estava reservada a Paradise City, que muito honestamente foi sem dúvida a melhor escolha. O fogo-de-artifício e os confettis que pairavam no ar realçaram toda a atmosfera que se fazia sentir no recinto, pois apesar de indicarem o fim do concerto, tornavam-no mágico e memorável.

Foi importante sentir que o Rock não está morto e que ainda se fazem bons serões como antigamente. Cerca de um ano após o concerto dos AC/DC, outra banda épica voltou a esgotar as bilheteiras portuguesas. Mas a verdade, é que uma banda como os Guns N’ Roses merecia muito mais.

Um regresso tão aguardado como este merecia mais do que um público que só cantasse três ou quatro canções de um repertório que não sofre grandes alterações há quase uma década. Ainda assim, um momento como este certamente não cairá no esquecimento, pois cada uma daquelas pessoas poderá contar aos seus sucessores que viu um dos grupos musicais mais marcantes de todos os tempos reunido em pleno século XXI.

Imagem: Everything Is New