Que se prova, mastiga e deita fora, sem demora – assim cantaram os Taxi e, seguindo precisamente a mesma ideologia, se vêem os penosos 141 minutos que constituem Mulher Maravilha, o mais recente blockbuster da DC Comics realizado por Patty Jenkins.

Numa era saturada por cinema de consumo imediato, Mulher Maravilha é o pináculo disso mesmo, personificação da produção de conteúdo fácil, repleto de fogos de artifício. Esquecível e passivo. Nenhuma personagem digna de interesse para uma conversa fora da sala de cinema, tampouco uma fala memorável. No espectador residirá apenas a dormência de mais de duas horas de CGI, muito ao estilo dos filmes já existentes no Universo DC.

A totalidade da longa-metragem adopta uma perspectiva onírica, fruto da necessidade de fazer Mulher Maravilha pertencer ao Universo DC já existente, num extenso e secante flashback. O filme está dividido em duas partes distintas, sendo que a primeira relata o crescimento de Diana Prince, Princesa das Amazonas, criada numa ilha escondida e paradisíaca até chegar à idade adulta. É também neste retrato inicial de uma jovem Mulher Maravilha (Gal Gadot) que ficamos a conhecer a sua tia e também mentora nas artes de combate, a General Antiope (Robin Wright), e a mãe e Rainha das Amazonas, Hippolyta (Connie Nielsen).

Mulher Maravilha

Mulher Maravilha interpretada por Gal Gadot

Qualquer espectador mais atento conseguirá deduzir que algo está realmente mal logo neste primeiro ato, a partir do momento em que a personagem de Hippolyta se contradiz diversas vezes no decorrer de vinte minutos de película. Começa com um instinto protetor maternal sem margem para discussões, seguido de uma vontade férrea de que Diana se torne na melhor guerreira Amazona alguma vez vista, oscilando novamente para a proibição de entrar no campo de batalha, rematando com a permissão da saída da ilha por parte da filha sem contratempo aparente.

Como se estes diálogos não fossem o bastante para qualquer um levantar-se e sair da sala de cinema, estas incoerências são mascaradas e encobertas com grandes sequências de luta e planos aéreos ricos em ecrãs verdes. Estes diálogos e não só, aliás, toda a superficialidade das personagens é disfarçada por uma espessa camada de estética enjoativa onde os estúdios de Hollywood se habituaram a investir os seus orçamentos estratosféricos.

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A segunda parte, quando a heroína principal já é reconhecível como a clássica Mulher Maravilha, principia em sequências de batalhas diversas, onde as motivações dos intervenientes nunca são de todo explicitadas. É também no início da mesma que somos introduzidos a Steve Trevor (Chris Pine), um espião inglês que facilmente se adivinha tornar no interesse amoroso da Mulher Maravilha. Juntos, unirão esforços com uma equipa disfuncional de soldados amigos de Steve, a fim de travar a guerra que assola o mundo, principalmente com o intuito de pôr um término ao imenso poder bélico do Exército Alemão, que detém em seu poder um gás mortal produzido por uma química sádica conhecida por Dra. Maru (Elena Anaya).

Mulher Maravilha

Chris Pine (Steve Trevor) e Gal Gadot (Mulher Maravilha)

Seguindo a formação triangular que assola os comic book movies dos dias de hoje, já analisámos o herói, a figura amorosa, só falta mesmo o vértice da vilania. Esta desculpa de personagem antagónica, ou, como é retratado na película, Ares, o Deus da Guerra, foi arrancado da nobre mitologia grega e adaptado e rebaixado vergonhosamente até se tornar nada mais que um Godzilla, uma figura monstruosa de poder imenso que consiga fornecer de forma segura muita explosão, muitos raios, enfim, apenas mais uma panóplia injustificável de efeitos especiais.

E como a cena de batalha final – porque tem que haver sempre a clássica batalha final – tem o seu culminar num momento de altruísmo injustificado, dir-se ia que é uma réplica em método da tragédia prolixa que foi Batman V Superman: O Despertar da Justiça. Os mesmos elementos, motivos ignotos, dissecação de moralismos e verborreia análoga.

Mulher Maravilha

Elena Anaya no papel de Dra. Maru

A generalidade das representações dos atores envolvidos são competentes tendo em conta o argumento execrável que Zack Snyder lhes deu para trabalhar. Existem umas tentativas de comédia no meio deste imbróglio, como que a ver se passam, que deixam a ponderar se a audiência se ri com o filme ou se ri do filme. Um vilão risível e falsos moralismos que não têm objeto de explicação, aliados a um chorrilho de clichés. Estão os ingredientes reunidos para uma refeição com muito boa apresentação, cheia de ornamentos, mas de sabor completamente intragável.

Um filme que poderia ter sido uma origin story bastante interessante, mas que acaba por não fazer jus a um dos maiores ícones feministas da cultura pop. Muita estética, pouca profundidade.

 

2/10

Ficha Técnica

Título: Mulher Maravilha

Realizador: Patty Jenkins

Argumento: Allan HeinbergZack Snyder

Com: Gal Gadot, David Thewlis, Robin Wright, Chris Pine

Género: Ação, Aventura