O programa Roriz/Wellenkamp/Forsythe/Naharin da Companhia Nacional de Bailado (CNB) esteve em cena, no Teatro Camões, de 11 a 21 de maio.

Este sábado parte em digressão nacional, mas não sem antes o Espalha-Factos vos contar tudo o que não podem perder neste espectáculo.

Este programa é constituído por quatro peças de quatro coreógrafos: Treze Gestos de um Corpo, de Olga Roriz, Será que é uma Estrela?, de Vasco Wellenkamp, Herman Schemerman, de William Forsythe e Minus 16, de Ohan Naharin.

As coreografias marcaram os espetadores em temporadas anteriores da CNB, celebram o Ballet Gulbenkian e transportam o público para o corpo de um bailarino. Para um corpo que dança uma dança de outro corpo, para um corpo que se “quer levantar do chão mas precisa do chão para se levantar”. Transportam o público para a dança.

Treze Gestos de um Corpo

Treze cadeiras. Treze portas. Treze bailarinos. Treze corpos. Treze gestos de corpos em movimento, que se repetem. E dança, dança, dança. Tanta dança.

Tudo começa com treze bailarinos que se descobrem com o abrir de treze portas. Fechadas estas, os corpos avançam, acompanhando a música, para as cadeiras cuidadosamente alinhadas mais à frente no palco.  Quando as alcançam, os corpos repetem, cada um a seu tempo, treze gestos de um corpo a despir um casaco, a pousa-lo nas costas da cadeira, a sentar-se na cadeira, a levantar-se e a vestir o casaco. E como são treze bailarinos, cada um se apodera de um gesto, criando assim a ilusão de que o mesmo movimento se está a apoderar de todos aqueles corpos em momentos diferentes e sem terminar nunca.

Durante a primeira parte da peça, é só isto que o espetador vê: treze gestos de um corpo, que se repetem incessantemente e a velocidades diferentes.

Até que acabam todos por se cingir ao mesmo movimento. Ficam todos sentados, de cabeça baixa e  com os braços a segurar os casacos, que estão esticados, no chão. Lentamente, um a um, todos se levantam e fica apenas um bailarino e uma cadeira em cena.

Os solos que constituem a segunda parte surgem rápidos, uns atrás dos outros e sem pausas. Os corpos dos bailarinos parecem agora possuídos por uma força transcendente, que os faz acompanhar a música em desespero. A música é muito intensa e incisiva, assim como se mostram os gestos dos corpos que surgem. Os figurinos, que no início estão cuidadosamente arranjados e vestidos, chegam ao final da peça abertos, amarrotados, como se um furacão tivesse percorrido aqueles corpos. Mas foi só a dança!

Será que é uma Estrela?

É uma declaração de amor. Vasco Wellenkamp perdeu Graça Barroso, a sua musa, em 2013. E este conjunto de três duetos é uma homenagem à antiga bailarina do Ballet Gulbenkian, que integrou a CNB em 1974.

A companhia tinha proposto ao coreógrafo, em 2015, recriar uma coreografia emblemática que criou e dançou com Graça Barroso. Vasco Wellenkamp recusou. Contudo, sugeriu à então diretora artística, Luísa Taveira, criar algo novo, algo para Graça. Será que é uma Estrela? nasce daí.

A dança, os passos e as expressões, ora ternas ora desesperadas, não escondem o amor e o enamoramento, o ‘quer ficar e o não querer deixar partir’ que se enfrenta quando a morte chega. É uma “nítida declaração de amor que se desenrola em palco”.

Fonte: página oficial CNB no facebook

A peça é acompanhada pela voz encantada de Maria João e pelo pianista João Farinha. As músicas interpretadas são de autores brasileiros: Tom Jobim, Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Edu Lobo. Beatriz, Eu te amo e Eu sei que vou te amar faziam parte de uma grande paixão que Graça Barroso tinha por música popular brasileira.

Os corpos, que se amam e se dançam em palco, estão impregnados pelo amor de Vasco e Graça. A dança uniu-os e é com a dança que se celebra este amor. Com corpos entrelaçados uns nos outros, em camisas que se despem e vestem, uma e outra vez, em lágrimas que ficam dançadas, na alegria de se terem encontrado.

“Dança-se a tristeza e a alegria. A dança celebra o que a voz chora.”

A voz de Maria João desvenda os movimentos sofridos dos bailarinos, que se mostram completamente derrotados pela morte que se vem adivinhando com o avançar da peça.

Cada palavra cantada é dançada apaixonadamente pelos três casais que pisam o palco. Tal como a vida, que é vivida apaixonadamente, até ao fim.

Herman Schemerman

Chegam dois corpos ao palco, um feminino e um masculino. Encontram-se e dançam. Dançam um com o outro, um para o outro, um sem o outro. Juntos. Criam a dança que dançam, quase a medo. Parece que fogem. Lembra o primeiro encontro de um casal, repleto de movimentos inacabados e esperança fervilhante.

A coreografia lembra crianças e bonecos, fantoches que ora dançam ora param de repente, andando longamente pelo palco fora. Ela sobe em pontas, enrola-se e é arrebatado por ele, perdendo-se nos seus braços. Os pés ora estão esticados na perfeição, ora derretem e fletem, enquanto a perna, que estava bem lá em cima, desce devagar.

A peça é marcada por olhares constantes que se trocam enquanto não se dança e que despoletam mais movimentos, mais dança, mais dança corpo a corpo.

Num primeiro momento, os figurinos são negros, tal como o resto do palco, que não tem qualquer tipo de cenário. O bailarino veste uma t-shirt e umas calças pretas e a bailarina uns calções pretos e um maillot preto transparente. O final da primeira parte é marcado pelo solo da figura masculina, quando a bailarina o abandona.

Na segunda parte, a bailarina surge com uma saia amarela, enquanto o bailarino sai para voltar depois do solo da figura feminina. E volta de tronco nu com uma saia igual à da mulher.

A peça acaba com a bailarina a fazer uma pirouette, com a ajuda da figura masculina, tal como uma bailarina de uma caixa de música.

Minus 16

Corpo

Fonte: página oficial CNB no facebook

Esta é a última peça do programa a ser apresentada. Antes, há um intervalo de 15 minutos e o público pode sair da sala de espetáculos. É logo no intervalo que a peça se torna especial, quando fica um bailarino em palco a dançar e a fazer movimentos que lembram um palhaço daqueles que sai de dentro de uma caixa, sempre a fazer movimentos pequeninos para cima e para baixo, que suscitam o riso do público que ficou na sala.

Quando finalmente está o público todo nos seus lugares, a música, que lembra o circo, fica mais alta, começam a chegar mais bailarinos e cada um improvisa gestos que fazem lembrar tiques ou uma comichão infinita, até começarem todos dançar a coreografia.

Desce a cortina ao som de uma música bastante acelerada, e, quando sobe e a música se cala, estão em palco cadeiras a formar uma meia lua com bailarinos à frente de cada uma. Ouve-se uma voz: “A ilusão da beleza e a linha ténue que separa a loucura da sanidade. A coexistência da fadiga e da elegância”.

Os bailarinos sentam-se e começa uma torrente de movimentos que se repetem uma e outra vez. De cada uma das vezes, os bailarinos adicionam um movimento diferentes: chegam a tirar os sapatos, na vez seguinte os casacos, depois as camisas, as calças e um dos bailarinos sobe de todas as vezes para cima da cadeira.

O último movimento de todas as sequências é sempre uma onda. O primeiro bailarino da esquerda abre os braços até chegar ao último do lado direito que, depois de abrir os braços, cai no chão, enquanto todos os outros gritam, acompanhando a letra da música.

Quando terminam, já só com uma t-shirt e uns calções cinzentos, dirigem-se todos ao centro, alguns começam a apanhar toda a roupa e os sapatos que foram lançados pelo ar antes e seis bailarinos aproximam-se do público. Aí, iluminados por uma luz que vem de baixo, movimentam-se lentamente, como bonecos articulados, ao som de ponteiros do relógio.

Até que, enquanto recuam, são interrompidos por um par de bailarinos que dança uma ópera de Vivaldi. Muito ofegantes, como se estivessem no deserto.

Corpo

Fonte: página oficial CNB no facebook

Por fim, o primeiro registo desta peça regressa, com os bailarinos de chapéu e fato e com a música do Somewhere Over the Rainbow. Os bailarinos aproximam-se do público a improvisar e chegando ao limite do palco param, olham para o público e saltam para os corredores da sala convidando espetadores para se juntarem a eles no palco.

Escolhidas as pessoas, sobem todos ao palco, os bailarinos e os seus novos pares. Juntos improvisam e vão criando figuras, onde se entende que os bailarinos-espetadores são completamente guiados pelos bailarinos. Assim, esta peça mostra a possibilidade de levar o público a dançar com os bailarinos em palco, num registo descontraído e bastante aplaudido pelos restantes espetadores.

Roriz/Wellenkamp/Forsythe/Naharin

Este programa é uma celebração do Ballet Gulbenkian, dos corpos que dançam e da dança. Prender o público, que está sentado numa cadeira, à dança e fazê-lo querer levantar-se da cadeira, o par de cada espetador em cada espetáculo, já é dança.

“A cadeira é um par a dançar […]. A cadeira é o que ampara o corpo que vê dançar […] e aconchega porque quer seduzir o corpo no assento e impedi-lo de saltar até ao palco para procurar par. Como não querer dançar quando se vê dançar? Como não?”

A dança é não só movimento, mas é também aquilo que passa através do corpo dos bailarinos. A dança comunica. A dança celebra a vida, deixa que através de um corpo se eternizem movimentos e que outros corpos sintam vontade de se levantar para dançar. A dança partilha a vida, partilha emoções, partilha técnica e beleza. A dança fala aos nossos corações.

“A dança comunica e estabelece ligações entre corpos dançantes ou corpos que ouvem a dança falar”

Onde podes ver

A CNB inicia este sábado, dia 27, a sua digressão nacional. Por isso, podes ainda ver o programa Roriz/Wellenkamp/Forsythe/Naharin nos seguintes locais:

Teatro Municipal de Vila Real
27 de maio de 2017, às 21h30

Convento de São Francisco, Coimbra
3 de junho de 2017, às 21h30

Teatro Sá de Miranda,  Viana do Castelo
9 de junho de 2017, às 22h

Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
18 de junho de 2017, às 21h

Teatro Municipal da Guarda
22 de junho de 2017, às 21h30

Teatro Virgínia, Torres Novas
25 de junho de 2017, às 18h

CAE de Portalegre
29 de junho de 2017, às 21h30

Teatro José Lúcio da Silva, Leiria (Festival de Leiria)
2 de julho de 2017, às 18h

Teatro Viriato, Viseu
7 de julho de 2017, às 21h30