Passaram-se seis anos desde a reação negativa a Piratas das Caraíbas: Por Estranhas Marés. A saga marítima, que nos tempos de A Maldição do Pérola Negra parecia um mergulho refrescante para o mundo dos blockbusters, aparentava-se naufragada e sem retorno.

De 2011 a 2017, o campeonato dos blockbusters de verão passou por várias adversidades: o público quer melhor, sequelas já não vendem, e a sensação de que todas as ideias já foram gastas paira no ar. E está aí a Disney, pronta a desafiar as circunstâncias, depois de épicos fracassos como O Mascarilha (2013), Tomorrowland – Terra do Amanhã (2015) e Alice do Outro Lado do Espelho (2016) – também encabeçado por um problemático Johnny Depp, com cada vez menos star power -, com Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias. Haverá ainda uma história a contar?

Henry (Brenton Thwaites) desde pequeno que sonha quebrar a maldição do pai, William Turner (Orlando Bloom), que sempre conheceu como capitão do Holandês Voador, só podendo regressar a terra um dia a cada dez anos. As lendas narram que o tritão de Poseidon pode quebrar todas as maldições do mar, até mesmo a do pai, mas chegada a idade adulta, Henry ainda não o descobriu. Numa sucessão de incidentes, acaba preso na cidade de St. Martin, onde também se encontra encarcerado o infame Jack Sparrow (Depp), talvez o único capaz de o ajudar. Com o apoio de Carina Smyth (Kaya Scodelario), uma jovem erudita acusada de bruxaria, conseguem fugir, mas a sua jornada acaba minada quando um antigo rival de Sparrow, Armando Salazar (Javier Bardem), se liberta, mais a sua tripulação, do Triângulo do Diabo, e vêm atrás de si pela vingança.

Parece incrível, mas, à quarta sequela, o franchise de Piratas das Caraíbas revitaliza-se, sendo Homens Mortos Não Contam Histórias, acima de tudo, uma boa surpresa. Depois de um dispensável Por Estranhas Marés, é agradável ver a saga voltar à vida com um modelo narrativo mais próximo do de A Maldição do Pérola Negra.

A realização de Joachim Rønning e Espen Sandberg é completamente genérica, à semelhança da de Rob Marshall e por oposição à de Gore Verbinski, mas, em franca verdade, é mais que suficiente. O bom gosto do escapismo tecido pela dupla é inegável, culminando num crowd pleaser que, mais que aproveitar a popularidade da saga para gerar uma fita insípida, esforça-se por expandir o seu universo de forma inspirada, oferecendo sequências visualmente incríveis.

A narrativa não é mesmo nada original, e há bastantes momentos em que sabemos bem onde tudo vai parar. No entanto, acabamos por nos deixar levar, porque o esforço é mesmo simplisticamente bem intencionado, nunca descarrilando. Alguns dos clichés caem por vezes como dolorosamente óbvios, mas é um enredo tão seguro, com um comic relief mais certeiro que falhado, que não há aqui muito que nos faça levantar a sobrancelha.

Depp pode estar a atravessar a fase mais conturbada da sua vida pessoal, mas em verdade não há nada que falhe na sua atuação. Há todo um jogo de performance em Jack Sparrow que simplesmente não morre; não importa o quão gastos estejam os maneirismos de Depp e a sua predileção por personagens freak – chegando a uma fase da sua carreira em que já não é mais que uma piada de si mesmo -, o facto é que cada encarnação sua destas é irrepreensível. Depp faz-nos acreditar incondicionalmente e sem aparente esforço nestas criaturas altamente sui generis, e é mesmo por isso que é um grande ator.

O Capitán Salazar de Bardem é um vilão curioso, mais por como se apresenta do que por qualquer maneirismo ou motivação. Em todo o caso, vão passando os segundos na tela, e torna-se claro que Bardem se está a divertir bastante com Salazar, um fair play que passa para o lado de cá e ajuda a consolidar toda a aura do capitão dos mortos-vivos.

Já Thwaites e Scodelario são aceitáveis para os estereótipos que representam, se bem que Thwaites fique a perder na parelha, muito numa incapacidade de expressão por deveras entediante. Nisto ainda há espaço para Geoffrey Rush e Kevin McNally regressarem aos papéis de Barbossa e Mr. Gibbs, sempre com o à-vontade característico que há já cinco filmes ganha o respeito da audiência.

No fundo, Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias está longe de ser um filme totalmente satisfatório, quanto mais uma obra-prima. Contudo, e pese alguma sensação de déjà vu numa série que em verdade já vai no seu quinto capítulo, é uma sólida película de bom entretenimento, com um ritmo formidável, visuais de encher o olho, e dois antagonistas que sabem bem em que tipo de filme estão.

Não vai ficar na história do cinema, mas, enquanto despretensiosismo de verão, é perfeito.

E a cena pós-créditos… Ganhou-nos.


7/10

Título original: Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales
Realização: Joachim Rønning, Espen Sandberg
Argumento: Jeff Nathanson
Elenco: Johnny Depp, Javier Bardem, Geoffrey Rush, Brenton Thwaites, Kaya Scodelario, Kevin McNally, Golshifteh Farahani
Género: Ação, Aventura, Fantasia
Duração: 129 minutos