Um dos projetos mais intrigantes a entrarem em produção nos últimos anos, Colossal é daqueles filmes que nos faz levantar a sobrancelha. O conceito evidenciado nos trailers é duvidoso, no mínimo, e mesmo Anne Hathaway como protagonista parece uma escolha arriscada por parte da atriz. Da mente de Nacho Vigalondo de Os Cronocrimes (2007), e finalmente chegado às nossas salas, depois de passagens pelos festivais de Toronto e Sundance, enfrentamos a verdadeira questão: é algum colosso este Colossal?

Gloria (Hathaway) já há tempos que vive em casa do namorado (Dan Stevens) em Nova Iorque. Desempregada e alcoólica, chega o dia que é expulsa, e, sem rumo ou destino, vê-se obrigada a regressar à sua terra natal, à casa onde cresceu. À chegada, cruza-se com Oscar (Jason Sudeikis), um amigo de infância que não vê há anos. Rapidamente aliciada para uma bebida no seu bar, Gloria acorda de manhã em plena ressaca, e aí descobre que um monstro andou à solta por Seul, na Coreia do Sul, a espalhar o pânico. Segue-se então outra noite de bebedeira, como já é apanágio, só que na manhã seguinte, Gloria faz uma descoberta… inacreditável.

Dan Stevens

Se formos a entrar pelo campo das ideias mais estapafúrdias em cinema, Colossal está lá bem posicionado. Estamos a falar de uma mulher que controla uma espécie de Godzilla com os seus próprios movimentos num parque infantil. O potencial série B está aqui todo – e em peso-, e é encantador que Vigalondo consiga tirar tão bom partido dele, tanto quando para explorar o lado mais surreal, como quando para servir um fílmico moralismo, aparentemente de vão de escada.

À partida ninguém diria, mas Colossal tem uma moral, e se parece absurdo que nos tente forçá-la, a verdade é que encaixa perfeitamente. O problema focado no enredo é tão banal que de antemão não teria muito interesse em ser contemplado, mas a persistência de Vigalondo em introduzi-lo e apontá-lo como o fator principal das peripécias da protagonista é brilhante, e estaríamos a mentir se disséssemos que a última reação de Hathaway como Gloria não nos faz esboçar um sorriso honesto.

E é Hathaway que tem aqui outro grande desempenho. Gloria certamente não é a personagem que pediu mais de si até hoje, mas há aqui um trabalho bastante sólido, numa mulher a braços com uma vida complicada e sem luz ao fundo do túnel. É uma heroína imperfeita, mas nem por isso detestável, não. Em Hathaway há uma franqueza de quem percebe a combinação do enredo, entre o conceito e a mensagem, e seria um eufemismo dizer que está menos que fascinante.

Quanto a Sudeikis, vai saindo gradualmente da sua zona de conforto, e à medida que Oscar vai revelando outra faceta encontramos um lado mais inédito do ator. Não chega a ser inquietante, mas há uma tensão bem jogada que surpreende, considerando o tipo de papéis a que Sudeikis nos habituou.

Jason Sudeikis e Anne Hathaway.

Bom cinema independente vai chegando às nossas salas, e Colossal é um ambicioso exemplo disso. Pode não ser avassalador em termos visuais, nem tão pouco em construção narrativa, mas a soma de todos os seus elementos, em perfeita harmonia e honestidade, gera um filme deveras audaz.

Porque Colossal, com a sua simples e competente história, é pura e simplesmente uma das produções mais originais dos últimos tempos. Chega a ser incrível como uma ideia tão infantil consegue gerar uma fita assim, tão humana e com tanto valor de entretenimento, que, mesmo não enchendo as medidas, nos faz ainda acreditar nas possibilidades do cinema.

Sem dúvida nenhuma, este daqui a uns anos vai ser bem recordado.


7/10

Título original: Colossal
Realização: Nacho Vigalondo
Argumento: Nacho Vigalondo
Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Dan Stevens, Austin Stowell, Tim Blake Nelson
Género: Ação, Comédia, Drama
Duração: 109 minutos