Não estava nem perto de nascer quando o Ok Computer saiu. Poderia escrever algo sobre a excitação que senti quando o disco foi para as lojas e o quanto corri, naquela manhã de 21 de maio de 1997, para agarrar uma cópia. Não é essa típica história. Este é o relato de uma jovem de 17 anos que, nas suas modestas palavras, vai tentar narrar a sua experiência com o disco mais célebre da sua banda favorita e enaltece-lo ainda mais, se possível. Afinal, são os Radiohead.

Quando se fala em Radiohead, a música toma outro significado e torna-se tarefa impossível definir esta banda: é complicado tentar explicar a alguém que nunca os ouviu o que pode esperar deles. Na “biografia” diz que são rock alternativo, mas isso é redutor para uma banda como eles.

Não são fáceis de aceitar nem de ouvir. Depois do click, habitualmente não há como voltar: são vítimas deste fenómeno estranho e enigmático que é ser fã dos Radiohead. A descoberta do meu “eu” foi essencialmente provocada pelos Radiohead, pelo Ok Computer e por tudo, mesmo tudo, o que eles têm para dar ao mundo.

O legado que uma banda como os Radiohead deixa, depois de lançar qualquer um dos seus álbuns, é de tamanha importância para a música que tentar explicar tal fenómeno é praticamente impossível.

Partiram do inocente Pablo Honey para um tímido e elétrico The Bends e tiveram a sua afirmação definitiva com o icónico Ok Computer, o subversivo poético e determinante Ok Computer. Pode-se dizer que os Radiohead só atingiram a sonoridade pretendida a partir da era Ok Computer: tempos que, apesar do hype que o álbum teve, foram extremamente difíceis e desafiadores para a banda.

Atenção, os Radiohead nos seus primórdios eram a banda da Creep e nada mais. Se queriam ter sucesso, lançar um disco assim era impensável porque não era radio-friendly, mas Thom Yorke não é nenhum hit-maker. Lançaram-no e hoje… olhem o que ele é.

Muitas bandas começam a ter problemas após álbuns bem sucedidos como este, no entanto os Radiohead conseguiram, dentro do possível, manter-se estáveis. Lançar um Ok Computer para o mundo não é tarefa fácil, especialmente quando se tem um Thom Yorke na banda. Toda esta batalha com o sucesso foi relatado no documentário Meeting People Is Easy e pelo título, obviamente irónico, não é necessário mais detalhe.

Não chamaria a Thom Yorke um vidente, contudo este álbum faz ainda mais sentido vinte anos depois, ao estarmos a vivenciar muito daquilo que o álbum descreve. A alienação, a desumanização, a tecnologia, a demagogia, o despotismo, o capitalismo.

Todos eles foram pilares excecionais na concepção do opus magnum dos britânicos. E este disco não foi só determinante na carreira dos Radiohead, foi um disco que desafiou a música rock dos anos 90 e arriscou pelos temas que se propunha a debater musicalmente. Por outras palavras: não é só guitarradas e vozes nulas, mas sim uma reflexão filosófica em formato musical.

De Airbag a The Tourist

E aqui começa a nossa brilhante jornada pelo clássico dos Radiohead. Airbag introduz-nos a Ok Computer, mas ainda traz um odor a The Bends, apesar de muito mais maturada. Mas assim têm sido os Radiohead desde que iniciaram a carreira: uma banda que evolui álbum após álbum e se reinventa sempre.

É o rock a dar a mão à eletrónica, a orquestra a convidar o alternativo para uma dança. Sim, ainda são a banda da Creep e do Pablo Honey mais comercial, bem como do The Bends britpop-ish. As guitarras saturadas ainda se vão ressoar pela abrasiva Airbag, mas a partir daí vamos mergulhar num poço de mistura e experimentação que são o âmago da criação radioheadiana.

O Ok Computer foi o ponto de viragem da banda que continua a provocar tantas conversas de mesa às três da manhã. Continua a ser produto de reflexão e a cada audição se torna menos distante, mas mais penetrativo na alma.

Continua a ser a razão de tantas insónias provocadas pelo extremo apego que tenho a esta obra de arte. Perdoem a minha pretensão ao tentar explicar aquilo que se sente quando o álbum derradeiro e determinante do panorama musical atual faz vinte anos. O orgânico cruza o industrial, o rock cruza a eletrónica e os Radiohead cruzam as nossas vidas.

O 3.º álbum da banda é um trabalho unificado, contudo diverso em sonoridades. Só Thom Yorke e companhia poderiam juntar faixas como Fitter Happier, o manual de auto-ajuda que os Radiohead nos oferecem, e No Surprises, a “balada” (que disto nada tem, na verdade) inocente mas penosa.

Os arrepios e medo causados pela Fitter Happier contrapõem-se a uma No Surprises com o glockenspiel frágil a soar dentro dum coração vazio e de uma alma sem destino. É isto, é isto que faz os Radiohead quem eles são.

Este também foi o álbum de músicas como as famosas Karma Police e Paranoid Android. Paranoid Android representa perfeitamente a desordem da nossa mente, a sensação overwhelming de viver no século XXI com todos os seus benefícios e defeitos. Na verdade, é o desaire e o desespero de um Thom Yorke e um Jonny Greenwood no estúdio a criarem ali um hit (palavra quase ofensiva para os Radiohead), a sua Bohemian Rapsody. Já Karma Police é o hino da banda. Provém de uma sonoridade distópica diferente, mais comovente e perdida no tempo. É de encher os pulmões e entoar o famoso “I lost myself” enquanto vemos o mundo ruir à nossa volta.

Agora e finalmente, a distopia verdadeiramente representada neste álbum surge com Climbing Up The Walls. É o mais brilhante exemplo de como o layering sonoro dos mais variados instrumentos são um sacrário nesta faixa. A bateria seca, a voz trémula, a assombração e irregularidade de tudo eleva ao máximo tudo aquilo que Yorke e companhia algum dia queiram fazer.

Estamos perante a sonoridade mais quebrada, no melhor sentido da palavra, que a banda encontrou no seu percurso. Lucky, do célebre “kill me Sarah”, segue praticamente a mesma linearidade irregular de Climbing Up The Walls.

Uma das melhores sequências de músicas da história da música poderá ser a Exit Music (For a Film), seguida de Let Down: é preciso coragem para resistir a dez minutos de emoção, de desordem e desconforto. Pestanejar quase nem é permitido. Uma pessoa perde-se na gélida Exit Music (sim, também deitei as mãos à cabeça naquele episódio de Black Mirror) e afunda-se no oceano profundo de rebeldia jovem (não é por acaso que foi escrita para o filme Romeo + Juliet de Baz Luhrmann) e logo tem de voltar à superfície para a destruidora de sonhos Let Down.

Somos apenas e só uma raça de homens vagos que vivem como fake plastic trees uma vida destituída de emoção, de humanismo – tudo o que nos comove está fora de nós. Let Down é a ilusão mais perfeita que Thom Yorke criou. Deixa-nos com esperança, mas no vazio.

Há músicas e há senhoras músicas. Subterranean Homesick Alien é uma senhora música. Uma das faixas mais recatadas do álbum consegue ser uma das que melhor se expressa. Quem não franze as sobrancelhas assim que a guitarra meio espacial surge é batoteiro, ou melhor, está um bocado uptight.

Falando de coisas realmente sérias. Se muitas bandas fracassam na tentativa de acabar um álbum em beleza, os Radiohead dão-lhes a lição. A brilhante e simples The Tourist (podia ser hino da cidade de Lisboa) é a saída pela porta grande de um álbum perfeito como o Ok Computer.

Jonny Greenwood, muitas vezes o génio escondido da banda, escreveu a letra (sim!) e pediu-nos para abrandarmos. Vivamos a vida um pouco mais devagar e ser fã de Radiohead pede exatamente isso. É preciso digerir as coisas e ouvir este álbum morosamente várias vezes, porque a música não é fast-food.

Mas porquê o Ok Computer? Por que razão é este o mais aclamado e não o The Bends ou o Kid A? Analisando os pormenores sobre o ano em que foi lançado, qual era o paradigma musical da época, o que é era popular ou não, verifica-se que o Ok Computer veio dar o exemplo a um mundo britpop (com o devido respeito), a um mundo que fracassava na originalidade.

A nível da banda, cimentou a sonoridade que os Radiohead pretendiam alcançar. Foi o primeiro álbum em que foi difícil apontar influências das bandas em que se inspiraram: nele é quase impossível ouvirmos aquele toquezinho de Pixies ou REM sem ser na fuzzy Electioneering.

É um álbum rock para pessoas que gostam de rock, mas que querem desafiar o próprio gosto com a experimentação do álbum. É um elevar de fasqui no sentido em que não se quer ouvir música por ouvir: quer-se sentir e quer-se que tudo percorra as veias e lhes encha o ego. Olhem que isto é música intelectual.

Em 1997, os Radiohead traziam-nos um sneak peak sombrio do que o novo milénio nos poderia trazer; em 2017, celebramos a simples realidade. Sim, podia ter sido uma mera conspiração falhada vinda do génio mais profundo de Thom Yorke, mas ele não fracassou e pressupôs a nossa decadência.

É um álbum anti-establishment, sobre tecnologia, alienação, mas sobretudo sobre a raça humana. Os Radiohead, dentro do possível, ainda são membros da humanidade e querem acima de tudo salvaguardar os nossos valores antes que nos tornemos máquinas, meros pedaços de carne automáticos. Não é pretensiosidade por parte de Thom, Jonny, Ed, Colin e Phil, é amor à nossa condição humana.

Afinal, depois de todas estas reflexões alucinantes o que é que se conclui? Thom Yorke estava certo. O espírito da humanidade perdeu-se e cá vamos nós vivendo como hamsters numa roda. Lá vamos acenando com a cabeça, suspiramos e dizemos “ok, computer”. Tratamo-lo com amor e carinho, foi-nos ensinado que é o bem último da nossa vida. Afinal o que sou eu? E tu?

A pig

In a cage

On antibiotics.